31.10.03


Insônia - Parte Dez
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Descemos a escadaria e na portaria encontramos um homem, mais velho, cabelos grisalhos, usando roupa social bastante formal. E muito calado. Apenas cumprimentou-me com um 'bem vindo' e não dirigiu uma palavra a mim durante o trajeto, que foi curto. Ele apenas falava rapidamente em uma espécie de rádio, disparando ordens como 'Mande o grupo 4 inserir uma morte horrorosa, talvez da mãe dela. Isso vai mantê-la livre por uns 10 dias'.

Para evitar ficar mais perdido do que estava, eu tentei acompanhar o trajeto e percebi que o centro da cidade estava ainda pior do que em 1999. As ruas e calçadões estavam muito mais cheias de lixo e pessoas dormindo sob beirais e marquises. Prostitutas e bêbados disputavam lugar nos faróis das avenidas, onde nenhum carro atrevia-se a parar, enquanto policiais e capangas matavam ladrões e mendigos nos becos e ruas estreitas, sem dar atenção a quem via ou deixava de ver os acontecimentos. Era ainda mais perturbador ver aquilo sabendo que outra ameaça pairava sobre todos nós: uma invasão de criaturas disformes que nos alcançavam em nossos sonhos e corrompiam nossas mentes, tomando controle de nossos corpos e vontades.

Paramos e entramos em um prédio, que ficava num lugar que eu reconhecia como sendo a Avenida Paulista. Passamos por um porteiro que parecia saber onde estávamos indo e entramos num elevador, desembarcando apenas no 17º andar. Emerson seguia na frente, enquanto Fred, escutando algo alto e estridente no walkman, o seguia e Simone ia ao meu lado, por último. Entramos numa sala bastante aconchegante e Simone me indicou um dos sofás. Um outro homem, também cheio de olheiras, já estava lá, nos aguardando.

"Olá, Alexandre. Eu sou o Dr. Péricles e eu vou ser o Condutor de vocês hoje."

Percebi que Fred e Simone também haviam sentado nas poltronas e estavam recostados e começando a relaxar. "E onde você vai me conduzir?", eu respondi, ainda desconfiado.

"Para dentro da mente de outra pessoa. Através de um processo psico-hipnótico de nível mental elevado, eu transportarei a consciência de vocês três para dentro da mente de outra pessoa, que está dormindo nesse momento, e que já tenha alcançado um nível mental específico que permita que ela sonhe".

Eu acho que ainda estava sob efeito do estabilizador. "Que seja. Estou começando a achar que enlouqueci e isso é só mais um devaneio".

"Apenas tente relaxar. E vou dizer algumas palavras enquanto você relaxa no sofá."

Não posso dizer que ouvi sequer uma palavra, mas senti, em meio a escuridão de meu relaxamento, que o sofá tornara-se pastoso, como eu já sentira antes. Comecei a afundar e tentei segurar-me em algo, ou abrir os olhos e gritar para o doutor que algo saira errado, mas foi em vão. Num segundo eu havia sido engolido pela maciez do sofá e todos os meus sentidos começaram a se misturar: eu ouvia uma leve claridade que surgia, e cheirava um som distante e perturbador de disparos de balas. Um odor fétido atingiu minha língua e enfim eu vi o toque de uma mão no meu ombro. Despertei.

E como num sonho, de repente eu estava em outro lugar. Agora eu estava de pé, num gramado verde, sob um dia azul e ensolarado, e ao meu lado estavam meus novos amigos, Frederico e Simone.

"Sente isso, mano!", disse Fred. "Não é demais? Estamos num sonho. Você percebe como tudo parece prestes a flutuar? E a brisa? Existe brisa num sonho!"

"Não é brisa, Fred", Simone respondeu lacônica. "Tecnicamente é a respiração do dono do sonho influenciando seu pensamento".

"Sonho? Isso é um sonho?", eu disse, desnorteado pela mistura dos sentidos, que agora era uma lembrança distante e muito menos viva do que a paisagem a minha frente. Lá adiante, no gramado, havia uma roda de crianças brincando e a música que cantarolavam chegava aos meus ouvidos como calmas ondulações na água, produzidas pela queda de uma pétala de rosa. "Como é possível?"

Fred abriu os braços. "Bem-vindo ao Projeto Insônia, meu velho. Isso é o que fazemos pra salvar o mundo".

Simone deu um passo em minha direção e tocou meu braço. Sensação boa. E percebi que o rosto dela já não tinha olheiras, mostrando apenas profundos e bonitos olhos verdes. "Estamos no sonho de uma pessoa, Alê. Não sabemos de qual pessoa. É um processo praticamente aleatório. Sei que é difícil compreender, mas você tinha de ver primeiro para conseguir aceitar".

Eu não queria aceitar nada. Aquilo estava fincando um pouco demais pra mim. "Simone, por que?"

"Como assim?"

"Por que eu? Por que eu fui escolhido pelo projeto para fazer parte dessa insanidade e saber de tantas coisas que me perturbam?"

"Infelizmente eu não sei, Alexandre. Ninguém sabe. Algumas pessoas simplesmente despertam um dia. Algumas pessoas, como eu, tem um pesadelo tão terrível que terminam por despertar. Outras, como você, encontram seu Nêmesis e conseguem destruí-lo."

"Meu Nêmesis?"

"Sim, um Dreamie que tentou tomar controle de você, mas você conseguiu dominá-lo e destruí-lo. E então você despertou para esta outra realidade."

Eu simplesmente baixei a cabeça por um momento e desejei estar morto. Ou ter sido dominado por uma dessas criaturas e nunca mais ter controle sobre mim e minha mente. Eu comecei a ouvir a velha gargalhando, como que caçoando da minha vitória, que tinha gosto e cheiro de derrota.

"Você vai se acostumar com os sonhos dos outros, e vai aprender a viver como nós vivemos".

"Sonhos, não.", gritou Fred, fazendo-me olhar em sua direção, simplesmente para vê-lo empunhar uma metralhadora, que surgira do nada, como todas as coisas num sonho. "Pesadelos, Simone. Pesadelos!!!".

E correndo na direção das crianças, acionou a arma, que gritou e retumbou e cuspiu suas balas de sonho (ou pesadelo), que voaram pelo gramado e foram atingí-las. O sangue espalhou-se pelo azul e pelo verde e num segundo, tudo que eu via eram crianças sendo estraçalhadas por balas e gritando estridentemente, pedindo por socorro, enquanto Fred as alvejava e chutava os corpos que jaziam inertes, no chão.

Ao meu lado, Simone, a garota do metrô, sorria. Não. Ela ria, ela gargalhava.

See Ya


Insônia - Parte Nove
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Ainda demorei uns minutos, pensando, pra entender o que aquilo realmente significava. Enquanto o vapor do café subia e enchia minhas narinas, Fred foi até a janela, onde observava a madrugada transcorrer no centro de São Paulo, enquanto a chuva começava a diminuir.

"Como eles conseguiram? Como fazem isso?", sussurrei.

Fred provavelmente não me ouvira, mas Simone sentou-se mais na beirada da poltrona onde estava, para continuar a me contar sobre toda a bizarrice em que minha vida tinha se transformado. "O que viemos descobrir tempos depois é que os Dreamies estavam morrendo. Nunca soubemos exatamente o que está acontecendo com eles, mas o fato é que eles precisam de corpos para continuarem perpetuando".

"E eles simplesmente tomam os corpos das pessoas? O que evitou que eles dominassem todos os humanos, afinal?"

"Não é tão simples assim. Felizmente. Existem certas condições, a invasão só é possível quando o cérebro humano produz algumas substâncias, características de quando temos bons sonhos. Quando sentimos prazer ao dormir e sonhar".

"Mesmo assim, Simone. Todo mundo dorme e sonha TODAS as noites", eu começava a ficar claustrofóbico em meus próprios pensamentos, imaginando se esses monstros estiveram me espreitando durante meus sonhos. O que os teria impedido de me dominar? Será que eu já estava sob o comando deles e nem mesmo disso sabia? Não! Loucura demais! Mais uma camada de pensamentos e medos suprimidos assentava-se sobre mim.

"Ele chegou", disse Fred, afastando-se da janela. "Temos de nos apressar".

"Ele? Quem é 'ele'?", eu começava a me sentir eufórico de novo. Sentia que estava perdendo o controle. "Fred, responde! Eu estou ficando tonto. Nervoso. Eu quero ir embora! Quero acordar de vez!!". Eu já não tinha mais condições de me manter calmo.

E então Fred apontou na direção do próprio pescoço, como se indicasse que eu fizesse o mesmo. Com o pouco de controle que me restava, levantei minha mão esquerda e tateei meu pescoço com doi dedos. Fred apenas assentiu com a cabeça, quando eu finalmente encontrei algo sob minha pele. Um caroço, era o que parecia, mas quando o toquei por inteiro, percebi o que era: um botão, muito sensível ao toque. E ao pressioná-lo, tive aquela mesma sensação horrível de ter minha cabeça deslocada para longe do meu corpo. Contudo, a seguir senti um alívio, e como se nunca tivesse estado lá, meu desespero iminente e minha tontura desapareceram. Recostei-me no sofá. "O que é isso? O que aconteceu comigo?"

Fred caminhou em direção à porta da sala. "Isso é um estabilizador, Alexandre. Ele impede que você perca o controle, e impede que você desperte nos sonhos de outra pessoa. Lembre-se disso sempre. O estabilizador é muito útil, principalmente considerando que você não vai dormir mais."

Ele sabia o que estava dizendo. Disso eu tinha certeza. E não fosse a recente aplicação do estabilizador, eu teria pirado mais uma vez. "Não vou dormir mais?"

Simone levantou-se. "Por que você acha que temos essas lindas olheiras? Entrar no projeto significa que você nunca mais vai conseguir dormir. Não conseguimos explicar totalmente o que acontece, mas enfim entramos todos numa eterna insônia. Entretanto, digamos que você ainda pudesse dormir, Alê. Você se arriscaria?"

Eu apenas balancei a cabeça, negativamente, enquanto dirigia meu olhar para chão. "E como vocês não enlouquecem?"

"Quem disse que não?", respondeu Fred, antes de rir alto novamente e sair pela porta.

"Simone, eu.."

"Eu sei. Você está muito confuso. Eu entendo. Mas você vai entender tudo. Agora precisamos ir. Emerson vai nos levar até um prédio perto daqui, onde poderemos te mostrar o que o projeto realmente faz para evitar que os humanos sejam dominados".

"Quem é Emerson?".

"O líder do projeto em São Paulo".

See Ya

   28.10.03

Insônia - Parte Oito
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Duas horas depois eu já havia me recomposto completamente. O mal estar de ter perdido tudo que eu conhecia passou muito rápido. Teve de passar muito rápido, pois eu não parecia estar em condições de refletir sobre nada. A impressão que eu tinha era que cada acontecimento passado: a sensação de matar a velha, o medo de morrer, o sufocamento na escuridão, a perda instantânea de sete anos e todas as pessoas que eu conhecia, tudo aquilo estava acumulando-se em camadas sobre meu corpo, minha mente. Novamente eu não estava longe da verdade.

Naquele momento eu acabara de jantar. Um jantar perfeito, no mesmo prédio onde eu estava antes. Eu estava muito satisfeito, e somente a satisfação que eu tive ao comer pode me garantir que eu havia, de fato, ficado muito tempo fora do ar. Estávamos os três, eu, Frederico e Simone, numa improvisada sala de jantar.

"Vocês querem me dizer que vocês são heróis de algum tipo?"

Frederico riu alto. "Sim, se você tirar o glamour. Nós fazemos parte de um projeto em grande escala, desenvolvido para impedir que a raça humana sucumba diante de um grande problema."

"Qual problema?"

"Há pouco mais de 20 anos, um pesquisador que se dedicava a estudar os sonhos, começou a perceber padrões de comunicação em seus equipamentos que monitoravam os sonhos de seus pacientes."

"Padrões de comunicação? Ele podia se comunicar com o paciente através do sonho?"

"Ele também achou isso a princípio. Mas depois de melhorar o monitoramento e ajustar alguns equipamentos, ele descobriu que estava se comunicando com outro ser. Havia alguém respondendo de dentro dos sonhos de seus pacientes. O ceticismo impediu essa descoberta a princípio, mas quando esse alguém começou a falar direta e objetivamente com a equipe de pesquisa, ficou provado que uma criatura habitava os sonhos dos pacientes. Batizaram essa criatura de Dreamie."

Instantaneamente lembrei-me do que senti quando a velha do meu pesadelo parecera ter tomado vida própria dentro do meu sonho.

"Em pouco tempo souberam que havia milhares de Dreamies: seres conscientes e pensantes que habitavam, em forma de energia, certas ondas cerebrais produzidas por nós durante os sonhos. Nossa curiosidade crescia cada vez mais, e aquela descoberta parecia ser a grande chance da raça humana de se comunicar com outros seres inteligentes. Mas o contato durou pouco. O grupo de pesquisadores foi brutalmente assassinado por três pacientes, que tinham sido controlados pelos Dreamies. Eles mataram o grupo e destruíram o prédio onde eram feitas as pesquisas. A polícia foi chamada e os três foram executados ainda dentro do laboratório, não antes de matarem 2 oficiais."

"Nossa!!! Por que eles fariam isso?"

"Provavelmente para evitar que o conhecimento sobre eles fosse espalhado. A comunidade científica ainda não havia divulgado o fato e se todos os cientistas morressem, a informação poderia ser destruída. Felizmente alguém sobreviveu. Anthony Belbury, um dos pesquisadores, sobreviveu, e fundou o que hoje é o projeto de que fazemos parte."

"Tudo isso foi divulgado depois desse massacre?"

Parecendo pensativa, Simone despertou de seus pensamentos e manifestou-se pela primeira vez. Também pela primeira vez atentei ao seu rosto em detalhes. Sua pele era muito clara, chegando a causar estranhamento, e assim como Fred, ela possuía olheiras muito profundas. "Tentaram divulgar o assunto, mas como depois do atentado as comunicações cessaram, foi impossível provar que era verdade. Mas o pior estava por vir: quando tentaram divulgar mais e mais material sobre o assunto, retaliações começaram a acontecer e o inevitável foi descoberto."

Eu conhecia as palavras que sairiam pela boca de Simone. "Mais pessoas estavam dominadas pelos Dreamies."

"Exatamente."

"Muitas pessoas?"

Frederico sorriu maliciosamente e levantou-se, afastando-se da mesa e indo pra perto de uma garrafa térmica que ficava em outra mesa. "Nada mais do que 25% da população mundial estava sob o controle daquelas criaturas." Encheu e ergueu um copo em minha direção. "Você quer café?"

See Ya

PS: aproveitei pra colocar duas partes de uma vez, pois essa semana vai ser mais difícil de postar. Talvez agora eu só coloque alguma coisa aqui mais no fim da semana.

Insônia - Parte Sete
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:: [Parte Cinco] [Parte Seis] ::


Em qualquer situação, eu jamais acreditaria nas palavras de Simone. Não fazia nenhum sentido qualquer das informações que eu tinha recebido até agora. Talvez eu achasse, numa situação normal, que eu ainda estava sonhando. Mas aquela não era uma situação normal. E mesmo indo contra tudo que meu corpo e minha mente diziam, eu comecei a acreditar nela.

"Simone, você está me dizendo que estamos em 2006?"

"Mais precisamente no dia 18 de agosto.", ela respondeu, ainda esperando que eu fosse me revoltar com essa informação, ou exigir que ela provasse que aquilo tudo era verdade. Mas eu já não conseguia. Estivera sete anos preso a uma espécie de coma, onde as sensações eram reais e as situações inusitadas. Sete anos sonhando! Por um momento, até pude achar que tudo aquilo era bom, e que pelo menos algo havia mudado na minha vida normal. Mas o momento passou rápido demais, e tudo que sobrou foi um vazio imenso. Num instante eu percebi o que aquilo significava.

"Quem sabe que eu estou aqui?", eu disse, aterrorizado. Uma dor subia pelo meu braço esquerdo.

Simone olhou-me fixamente. Parecia, mais uma vez, saber exatamente o que eu pensava "Ninguém que você conheça, Alexandre. Para todos que você conhecia, amigos, família, namoradas, colegas de trabalho, a mesma história foi contada: você está morto. Morreu depois de reagir a um assalto. Levou oito tiros. Quatro na cabeça. O caixão foi, obviamente, lacrado."

A dor percorreu meu braço e explodiu em pontadas por todo meu pescoço. Eu mal conseguia falar, e lágrimas cobriram meus olhos. "Como vocês fizeram isso? Com que autoridade? Eu nem sei que porra está acontecendo aqui. Quem é você? O que aconteceu? Me solta dessa cama!! AGORA!!". A dor espalhou-se pelo meu peito e as pontadas eram facadas por todo meu corpo. Em meu devaneio nervoso, via meu sangue jorrar a cada pontada e em segundos eu estava coberto de um líquido vermelho e mal-cheiroso. Fiz muita força contra a cama e o que quer que me prendia a ela, rompeu-se e eu me precipitei para o chão.

"Alexandre, acalme-se. Eu posso..."

Desesperado, eu me ergui e corri pelo aposento, mancando. Eles estavam voltando. Os pedaços de corpos estavam voltando para o meu caminho. Entre as fatias de entranhas que espalhavam-se, eu vi uma porta entreaberta. E em sua direção eu corri. Quando minha mão ensangüentada alcançou a maçaneta, alguém tocou meu ombro. Um homem. Alto. Estranho. Eu o via de forma distorcida. Ele tocou meu pescoço, e quase num segundo, o pânico desaparecera e os pedaços de gente haviam me deixado em paz. Eu estava sentindo algo entre o êxtase e a exaustão. Ajoelhei-me e as lágrimas desceram pelo meu rosto como a tempestade que caía lá fora. O homem virou-se de costas pra mim.

"Pelo menos ele não desmaia mais quando o estabilizamos. Isso é bom". Então ele parou por um momento e virou-se em minha direção novamente. "Meu nome é Frederico, caso ainda não tenham te dito". E então ele sorriu, um sorriso branco no meio de um rosto cansado, coberto de olheiras. "Bem-vindo ao acontecimento mais maluco da sua vida, mano. Você vai amar isso aqui."

See Ya

   23.10.03

Insônia - Parte Seis
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"Fred, eu não posso falar agora. O garoto acordou.", eu ouvi, ainda duvidando que podia ouvir e ver normalmente de novo, sem a presença incômoda de pedaços de corpos e cérebros esmigalhados obstruindo meus sentidos.

A pessoa ao telefone só então desligou o aparelho e virou-se em minha direção. E para meu mais completo pânico, pude rapidamente entender que era ela, a garota do metrô, que se aproximava, carregando uma expressão que misturava preocupação e malícia. Enquanto o verde de seus olhos faiscava na parda luz que cobria o ambiente, eu comecei a gritar e me debater.

"Acalme-se!", ordenou ela.

Eu estava preso a algo de metal. Uma algema. Ou seria mesmo uma lâmina enferrujada e banhada em sangue velho? Eu não poderia saber. Todo meu esforço estava em evitar que ela se aproximasse de mim. Mas era inevitável. Sua voz aguda penetrou em meu cérebro junto com o cair violento da chuva e sua mão alcançou meu braço. O toque, quente e macio, quase venceu meu desespero, mas mesmo assim eu me debatia violentamente, como um corpo convulsionando após a decaptação.

A mão dela alcançou meu pescoço e mais uma vez tive a estranha sensação de que ela deslocara minha cabeça uns 30 centímetros para a direita, antes de colocá-la outra vez no lugar. Depois disso eu me acalmei. Veloz e tacitamente um acordo foi estabelecido entre nós. Concedi a ela a permissão de manter meus pensamentos em ordem, e meus sentidos agarrados àquele ambiente. Ela falou, e desta vez seus lábios se moviam.

"Alexandre, agora tudo vai ficar bem. Você despertou. Conseguiu atravessar os escuros domínios dos seus pesadelos e chegou aqui. Você certamente ainda não entende o que estou te dizendo, mas tente relaxar por um momento e poderemos conversar melhor. Meu nome é Simone. Eu vou te ajudar no processo de readaptação."

Ela tinha razão. Eu não estava entendendo nada. O que começara como um pesadelo muito real já estava tomando proporções bizarras demais. Onde eu estava? Onde estava minha casa, minha família, meus amigos? O que realmente acontecera e o que fora sonho?

"São perguntas demais, eu sei.", disse Simone, como se tivesse ouvido meus questionamentos. "Essa conversa será longa. Você pode organizar as perguntas e fazê-las todas, uma a uma."

Concentrei-me e falei, como se nunca tivesse falado em minha vida. Cada palavra que eu pronunciava era um novo universo a minha frente, e muitas delas eram ainda sem sentido.

"Onde estou?"

"Está no centro de São Paulo. Mais precisamente num prédio encravado na Avenida Ipiranga. Consegue se lembrar do centro, da avenida?"

Balancei a cabeça afirmativamente. "Sim. O que aconteceu comigo?"

"Essa resposta ainda é muito complicada pra ser dita de uma só vez. Mas posso te dizer que você rompeu uma barreira enquanto teve aquele sonho. Com a velha."

"Como você sabe sobre..."

"Eu estava lá, Alexandre. Eu vi acontecer."

Minha mente quis rebelar-se, exigindo explicações racionais e imediatas para o que eu acabara de ouvir. Mas minha boca não respondia mais a estímulos violentos. Eu estava exausto. Psicologicamente exausto. Se a garota tivesse dito que eu era apenas um pedaço de cérebro flutuando no infinito eu teria acreditado.

"Há quanto tempo eu estou aqui? Quero dizer, quando eu cheguei aqui? Quando deixei de sonhar?"

"Você deixou de sonhar há alguns minutos, quando despertou nesta sala. Antes disso era tudo um sonho."

Minha percepção começava a se estabilizar. Meu raciocínio lentamente retornava. "Você tinha olhos castanhos, grandes olhos castanhos, na estação do metrô. Eu sonhei com você?"

"Quase isso. Eu estava lá. Lembro de te encontrar no metrô."

"Mas você disse que eu..."

"Eu disse muitas coisas. Sim, você estava sonhando."

Chacoalhei a cabeça rapidamente, num esforço de fazer aquilo tudo se encaixar e ter algum sentido. "Você não me respondeu. Por quanto tempo estive sonhando?"

Ela hesitou. Abriu um pouco a boca, mas nenhuma voz saiu de lá. Olhou para o chão.

"Quanto tempo?", eu insisti.

"Sete anos."

See Ya

   22.10.03

You are not the contents of your wallet

Você paga aluguel. Ou não. Pode ser que pague mensalidades da faculdade, ou então as parcelas do seu carro novo. Pode ser o cartão de crédito, ou o plano de saúde. E talvez não seja nada muito "nobre". Seja só dinheiro pra Lan House, pra pagar prostitutas, pra ir à festas, comprar livros, comprar roupas da moda. Dane-se. A verdade é que você precisa de dinheiro. Somente os hipócritas religiosos é que ainda tentam passar a idéia de que uma vida de devoção é uma vida para a pobreza. Fácil dizer isso quando se está dentro de uma igreja toda trabalhada em ouro.

O dinheiro é o objeto que move o mundo com mais força. Mais força do que o sexo, que é instintivo, natural. Dinheiro não é natural. Valor é natural. O dinheiro foi criado para dar nome, propriedade e quantificar o valor que temos, o valor de nosso trabalho. Trabalho. Trabalho é instintivo, natural. Emprego não é. Emprego foi criado por um bando de acumuladores de riquezas que perceberam que agregar o trabalho de diversas pessoas diminuia o valor do trabalho do indivíduo, e o fazia valer menos dinheiro. Você precisa de valor e trabalho. Eles te dão dinheiro e empregos. E você pensa que sempre foi assim e tenta ser feliz com a bosta de vida que tem.

Se pelo menos você é feliz com o seu emprego, você tem algum valor. Mas se você não quer levantar toda manhã pra ir trabalhar, sente-se insatisfeito no fim do dia e quando chega o meio da tarde você não vê a hora de ir pra casa, fica enviando aqueles e-mails com dezenas de bebês com cara de retardados e mão juntas rezando pra que chegue logo a sexta feira ou, na pior das hipóteses, você trabalha apenas pelo dinheiro que ganha, você não vale nem uma pilha de merda seca e dura esmagada por carros na avenida Paulista.

Se este é o caso, você não tem condições nem para se sentir melhor do que um desempregado. Você já é um desempregado. Seu cérebro está desempregado e não tem forças pra te ajudar a sair dessa. Você tem que descarregar um pouco o peso que está sobre suas costas e olhar pra frente de novo. Ir atrás do que é melhor pra você. Ha! Muito boa eu dizer isso pra você que é assim. Você nem deve entender essas palavras. Você se esconde atrás da sua própria vida, dizendo que não tem as chances certas, ou que não tem as habilidade certas, ou que não tem sorte ou condições de largar seu emprego porque paga contas, aluguel, comida para os filhos. Faça um grande favor a si mesmo: GET A FUCKING LIFE!!!!!

Você pode estar velho pra abandonar seu emprego, ou ter que sustentar gente demais para se desprender do dinheiro dessa forma. Então mude sua forma de pensar. Pense em outras formas de aumentar seu valor. De melhorar as condições do seu trabalho, da sua carreira. Vá atrás daquela velha vocação que os anos e a faculdade arrancaram de você. Você não é seu emprego, seu dinheiro, a roupa que usa ou o carro que tem. Você é seu valor, os pensamentos que tem e o que faz com esses pensamentos.

Se há um monte de bosta seca que pode mudar a sua vida, esse monte de bosta seca é você. Chega de ouvir - e aceitar - que você é só mais um e que no fim tudo acaba do mesmo jeito. Você pode fazer a diferença. E ironicamente agora eu devo citar aqueles mesmos religiosos do começo do texto: o primeiro passo para a iluminação, para o auto conhecimento é o desprendimento material. Bem, esqueça o "material". Você tem é que se desprender dos conceitos que te amarraram e enraizaram nessa vidinha medíocre que você leva. Você precisa se conhecer e saber do que realmente é capaz. Aí você pode colocar o pé na estrada e seguir adiante, sabendo que você tem chances de ser bem sucedido ou mal sucedido, mas você está tentando, pelo menos.

See Ya

PS: ontem eu pedi demissão na empresa onde trabalhava e estou indo atrás de um lugar um pouquinho maior ao sol. Pensei em escrever esse texto para todas as pessoas que se sentem mal em seus empregos, como estava me sentindo, mas não tem coragem de pedir as contas. Eu fiz algo para mudar isso, e sim, estou me sentindo um bonito e único floco de neve, todo especial. Obviamente eu estou errado. Mas foda-se. Aproveitem o texto e me deixem com minhas ilusões. =)

   21.10.03

Insônia - Parte Cinco
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:: [Parte Quatro] ::


O som da chuva. Despertei ouvindo o som da chuva. Despertei em pânico. Seria aquilo o início de mais uma sequência de sensações agoniantes e visões aterradoras? Tive medo de abrir os olhos. Eu sabia que iria ver pedaços de cérebro e vísceras. Cabeças pútridas e prisões escuras e macias.

Macias... Eu estava deitado sobre algo macio. Talvez sobre uma cama. Talvez sobre uma pilha de de bebês agonizantes, com suas peles macias e seus berros agudos como chuva caindo sobre um telhado de metal.

Metal... Senti meu braço enregelado. Algo de metal estava preso ao meu braço. Eu não tinha coragem de olhar. Sabia que veria uma lâmina enferrujada e suja de terra rasgando minha já fétida pele.

Lentamente voltei a ouvir o som da chuva lá fora. Eu estava dentro. Dentro do que? Abri os olhos de uma vez. E lá estava eu. Deitado num divã, uma cama, um sofá, ou uma pilha de crianças mortas. Eu jamais me lembrarei. A penumbra do ambiente me trouxe conforto e eu começava a recobrar a consciência. Ao meu redor estavam paredes antigas, com uma decoração antiga. Móveis antigos. Mas havia algo novo: uma pessoa.

Ela observava a chuva, caindo do lado de fora. Sua sombra se estendia pelo chão e encontrava uma cortina, vermelha como sangue novo, como sangue vivo e pulsante. Ela permanecia imóvel diante da janela, esperando, aguardando. E observando. Em suas mãos dançava um telefone. A luz esverdeada no visor parecia um olho me espreitando, como se pudesse me ver e avisá-la sobre o meu despertar.

O silêncio tomava conta de tudo e apenas o distante som da chuva chegava aos meus ouvidos. E aquele barulho estridente surgiu, inesperado. Eu me assustei. Não reconheci o som do telefone tocando. Tudo o que eu pude imaginar e sentir era uma faca penetrando em meu cérebro e esmigalhando o que alcançava e fazendo aquele barulho. Emiti algum som. E a pessoa que olhava para a chuva percebeu meu despertar, enquanto atendia o telefone.

See Ya

   20.10.03

Insônia - Parte Quatro
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Repentinamente lembrei-me da garota do metrô. E essa lembrança me trouxe náuseas, mas também me trouxe um som, que ecoava muito distante em meios aos pedaços de carne podre, ao sangue e ao vômito amarelado e pútrido que agora já fazia parte de mim.

“A – E - A”, eu ouvi.

“A – E - A”, e novamente.

Balancei a cabeça e me concentrei. Tentei enxergar algo através dos destroços humanos que jaziam diante dos meus olhos, e ainda podia ouvir a voz.

“Já chega!”, ouvi desta vez. Aquilo causou em mim uma reação muito estranha: eu sentia uma correnteza me empurrar através dos restos humanos e em um segundo eu estava deslizando naquele mar de pedaços mortos e líquidos regurgitados.

Rapidamente, muito rapidamente, eu me aproximei de um burraco escuro, como um ralo, que me atraía de forma inexorável. E mesmo tentando evitar eu não conseguia parar de me aproximar e de ouvir cada vez mais alto aquela voz.

“Já chega!”.

Cheguei ao buraco e meus olhos puderam ver dentro dele uma cabeça flutuando. Uma cabeça pestilenta, pútrida e desmantelada. Uma cabeça conhecida. Sem cérebro. A maldita velha. Aquele rosto desfigurado que eu havia destruido e matado há pouco tempo. Ela estava de volta. Me senti mal, desorientado e sozinho. Desesperadamente sozinho.

O choque de encontrá-la novamente foi grande demais. Acabara de encontrar meu Nemesis, embora eu não viesse a saber disso tão cedo. Eu gritei, e chorei e vomitei e rodopiei... e enfim perdi meus sentidos novamente. Tudo o que pude ver é que ela estava sorrindo…..... Não!!! Ela estava rindo... gargalhando.

See Ya

   18.10.03

Como chegar aqui!

Uma pausa rápida nos capítulos de Insônia. Só queria comentar duas coisas.

Primeiro, um Zilunghiano autêntico procurou meu blog. E o mais incrível é que achou. O Quando Isso era o segundo site da lista do Google para a palavra raky (confiram aqui), que para quem ainda não sabe, é o primeiro termo de uma palavra composta zilunghiana. A palavra completa é raky rgkwy gaskey, e significa nada mais do que "!". Uma exclamação. Mas deixa eu já avisar os que tentarem se aventurar pelo mundo da tradução zilunghiana, que raky rgkwy gaskey só pode ser a primeira ! de uma série de duas exclamações, que venham após uma interjeição de surpresa estupefata, como aygufdkuas erfakye aklyg. Se fosse a segunda exclamação seria galyg alwyg ral gslrgekl tgaleu. Entenderam? Não? Thománoku.

Segundo. Um outro visitante, esse talvez um humano mesmo, foi ao Google e digitou: "bombas caseiras avançadas". E não é que o Quando Isso apareceu ali, na quarta posição. Porra, por um momento lembrei daquele filme!!! Fico feliz em ver o Quando Isso contribuindo para a construção (?!?) de uma sociedade melhor. E se o visitante que chegou aqui procurando isso estiver mesmo afim de construir uma bomba caseira, entre em contato, pois eu tenho uma seleta listinha de alvos.

See Ya

   17.10.03

Insônia - Parte Três :::: Mais Insônia: [Parte Um] [Parte Dois]

Acordei tempos depois. Pudesse eu me basear em meu relógio biológico para dizer quanto tempo ficara desacordado, eu teria pensado que ficara uns 50 anos em sono profundo. Eu me sentia velho, enrijecido pelo tempo, podre como um pedaço de carne humana - ou de cérebro humano - deixado na terra para ser devorado pelos vermes.

Lentamente eu abri os olhos e já não haviam pedaços de pessoas em tudo que eu via. Ao invés disso, um negrume, uma escuridão densa e pastosa estava ao meu redor. Quase sufoquei em meio àquela massa escura que formava as sombras que me envolviam. De imediato pensei estar cego, completamente cego, mas me bastaram alguns segundos para que eu percebesse um instigante e sinistro ponto de luz esverdeada me observando à distância. Instintivamente eu tentei me aproximar da luz, mas não importava a força que eu fazia e a velocidade com que me movia, pois a luz continuava lá, distante... fria... imóvel.

Já completamente exausto, tendo percorrido milhas e milhas em direção à luz, eu me rendi e parei. Só neste instante me dei conta que estava ainda deitado e senti todo o peso do meu próprio corpo repousar sobre uma superfície macia e confortável. Aquela era a primeira boa sensação que eu tivera desde aquele maldito sonho, e mesmo desconfiado da circunstância eu não resisti e me entreguei ao conforto. Inocente. Como eu era inocente.

Antes mesmo de poder me sentir menos cansado eu percebi que agora afundava na maciez de meu catre invisível e me sentia cada vez mais apertado, prensado, claustrofóbico. Fui afundando e uma dor começou a tomar conta de minhas pernas. A dor se tornou muito intensa e eu gritei. Mas aos meus ouvidos nenhum som chegou e agora eu me dera conta que também não ouvia nada. Fiquei desesperado. E foi o desespero que acabou de me afundar naquela maciez.

Em pouco tempo eu me sentia preso dentro de um saco de pano, e como um louco eu tentava romper aquele tecido que ironicamente me confortava e me sufocava e prendia. Depois de cravar minhas unhas por diversas vezes em minha prisão confortável, eu finalmente rompi o tecido e meu corpo escorreu como vômito para fora da minha prisão. E eu escorri para dentro da água.

Mas não uma água límpida e clara, e sim um emaranhado de sangue, vísceras e vômito. Eu voltara a enxergar, mas minha visão era tão aterradora que mesmo agora eu acredito que preferia estar cego naqueles momentos. E também podia ouvir o som de meus próprios braços se debatendo e rompendo vísceras e remexendo no vômito que me cercava. Aos poucos todos os meus sentidos voltavam ao normal e lentamente eu me misturava aos restos de gente e ao sangue ao meu redor.

Eu já havia ultrapassado o desespero e alcançara agora um estado de observação. Tudo que eu podia fazer era observar a mim mesmo tentando desvendar essa sequência insana de acontecimentos. Onde eu estava? E por que eu estava ali? Seriam aquelas cenas dilacerantes e mortais algum sinal indicando que eu havia morrido?

See Ya

   14.10.03

Insônia - Parte Dois :::: Mais Insônia: [Parte Um]

Eu levantei e caminhei entre partes de cérebros esmigalhadas até o banheiro, onde me lavei com água suja de pele morta que saía da torneira. Os momentos seguintes foram ainda mais perturbadores. Aquelas cenas não me saíam da cabeça e eu mal consegui me trocar. Acabei saindo de casa sem nem ao menos tomar um copo de leite, rumo ao meu trabalho, vendo pedaços daquela maldita mulher para todos os lados.

Eu me sentia sujo. Como se realmente tivesse matado alguém. Estranhamente isso não estava longe da verdade.

Cheguei ao metrô e entrei num vagão completamente cheio. Comecei a me sentir sufocado pelos corpos das pessoas que estavam no meio das víceras e pedaços de cérebros. Todos olhavam para mim como se pensassem: “Por que você a matou?”. Eles não diziam nada, mas eu podia ver atráves de seus olhares. Eu podia ver seus cérebros logo abaixo do crânio. Eles estavam rindo….

Quando as portas do trem se abriram numa estação, meu olhar foi arrancado de dentro do vagão e foi encontrar o olhar de uma mulher que estava na plataforma, sentada num dos bancos da estação. Por alguns segundos eu deixei de ver vísceras e corpos e via apenas os grandes olhos castanhos da mulher. E lá dentro eu via um tornado, um furacão, girando e girando, enquanto me atraía para fora do trem.

A composição se foi e eu fiquei ali, na plataforma, olhando para ela. Ela não era feia ou bonita, alta ou baixa, gorda ou magra, loira ou morena ou ruiva. Eu nem ao menos sabia se ela estava lá ou se era apenas mais um desenho formado entre os corpos que eu via por todo lado.

Então eu pisquei. Exatamente. Eu fechei e abri os olhos em um décimo de segundo. E quando eu olhei novamente na direção dela, ela estava junto a mim, a uma distância em que um palmo não caberia. Aquilo foi um choque para mim, mais por causa da velocidade dela, que era inaceitável para o meu cérebro, do que pelo fato de ela estar perto, pois entre nós ainda havia quilômetros de vísceras.

Ela não mexeu sua boca, mas eu podia ouvir sua voz: “Eu sei o que aconteceu. Eu sei o que você fez. Foi um ato horrível, mas irrepreensível considerando tudo o que você não sabe sobre….”

A última palavra de sua frase chegou aos meus ouvidos distorcida demais para que eu pudesse entender, e tudo que eu senti foi um leve enjôo e um frio na barriga. Ainda lembro de ter visto ela colocar as mãos no meu pescoço e fazer um movimento estranho com ele, mas já não tinha certeza se ela realmente havia feito aquilo ou se eu apenas havia colidido com mais um pedaço de cérebro. Eu apaguei. Ela estava rindo….

See Ya

   11.10.03

Insônia - Parte Um

Foi aquele sonho. Eu tenho certeza que foi aquele sonho. Foi aquele sonho que me trouxe aqui e me colocou nessa cama, deixando todos pensarem que agora eu sou um louco, um demente, alguém sem consciência. Mas não adianta começar a contar a história pelo final. Eu quero contar desde o começo.

Era agosto. Os dias eram amenos e as noites muito frias. Durante uma dessas noites eu tive um pesadelo. Mas não um pesadelo comum. Aquele fora o pior pesadelo de toda minha vida até aquele dia. Eu sonhei que estava saindo de um parque de diversões e quando eu passava pela bilheteria, havia uma velhinha, uma velhinha comum, que pegava os ingressos de quem entrava e agradecia pela visita aos que saíam.

E enquanto eu saía, meu olhar cruzou com o daquela amável senhora e de repente eu vi a Essência dela. Bem, eu (assim como você) ainda não sabia o que era Essência, então digamos que eu percebi intuitivamente que ela era má, muito má. Uma mulher vil e sem escrúpulos, capaz de matar, ou de torturar alguém.

Quando eu percebi isso, minha ânsia de atacá-la e evitar que ela cometesse outras atrocidades transformou-se em fúria, e pulando o corrimão que me separava da bilheteria eu comecei a me aproximar dela. Nesse momento algo estranho aconteceu. A velhinha, que até agora parecia apenas uma “personagem” do meu sonho, pareceu ter percebido conscientemente minha fúria contra ela e com violência fechou a única janela que dava acesso à bilheteria.

Eu olhei em volta e de repente havia um rodo em minhas mãos. Sem pensar em me controlar eu comecei a golpear o vidro da janela com o rodo e em alguns instantes ele estava em pedaços. Eu invadi a bilheteria e a velha senhora me encarava. Ela começou a rir…. Ela começou a rir….

Como acontecem nos sonhos, em minhas mãos surgiu uma faca, como aquelas de fatiar carne, com uma lâmina larga e um cabo de plástico duro e preto. O resto você já deve estar imaginando. Eu saltei sobre ela e comecei a golpeá-la. E ela continuava com seu riso que agora se tornara uma gargalhada. Com minha fúria aumentando a cada risada, eu segurei bem firmemente a faca e fatiei, como se fatia uma peça de queijo, a sua cabeça, separando toda a pele do rosto do resto da cabeça. Nesse ponto os risos dela aumentaram e eu fiquei com mais raiva e muito mais medo.

Acho que meu próximo movimento foi algo realmente sanguinário, e o ponto alto do meu sonho de terror: eu me joguei sobre ela e apoiei a lâmina onde antes estava seu nariz. Então eu pressionei e sua cabeça foi partida feito um repolho. Era o fim da velha maldita. Mas não do meu pesadelo.

Antes de largar o corpo inerte daquela mulher no chão, eu ainda olhei para dentro do crânio dela e com toda a força que me restava comecei a esmigalhar o cérebro dela com a faca e no segundo seguinte eu me vi jogando os pedaços do corpo dela num latão de lixo. Só então eu acordei.

Você pode pensar que eu estva banhado em suor e ofegante, mas não. Eu estava paralizado, quieto, sem voz, encolhido entre meus medos e o frio que estava sentindo, já que durante o sonho eu tinha jogado minhas cobertas para longe. Minhas pernas estavam enrijecidas, meus olhos, já abertos, não enxergavam nada além das cenas do pesadelo. Olhei para o relógio e entre vísceras esfaceladas ví que eram quase seis da manhã. Hora de acordar.

See Ya

   9.10.03

Mágica

O cheirinho do purê de batatas com carne moída invade minhas curiosas narinas. Todos aqueles aromas de temperos e condimentos pairam por toda a cozinha. Sinto minha mandíbula carregada de saliva enquanto vejo as panelas sendo levadas até a mesa, deixando em seu caminho aquele vaporzinho quente e cheiroso como só os pratos preparados por minha mãe sabem deixar.

Como é que ela consegue? Quando Isso Virar um Blog talvez eu entenda. Mas em sua falsa ingenuidade ainda solta aquele: "Mas nem tinha janta pra você. Eu só esquentei algumas coisas". Eu sorrio, nem sei se por compreender que toda aquela comida tem o gosto de um carinho e um toque de matar qualquer fome, ou se por saber que mais uma vez vou deliciar-me e deleitar-me com uma das melhores coisas nessa vida: um jantar "quebra-galho" preparado pela "Dona" Cozete.

Ahh se vocês pudessem sequer sentir o cheirinho daquele arroz, que podia ser como qualquer outro, mas não é. Daquela torta de abobrinha, que poderia ser qualquer uma, mas não é. E o purê? Ahhh o purê!!! Deleite sem fim, que várias das minhas noites de prazer intenso não alcançariam mesmo que fossem multiplicadas dezenas de vezes.

Que mãos são aquelas que preparam refeições mágicas? Que sensibilidade é aquela que pode adivinhar quando a comida atinge, ainda na panela, o ponto onde deixa de ser deliciosa e passa a ser inesquecível? Que poder é esse, que faz neste rapaz nascer uma Síndrome de Édipo Culinária?

Satisfeito e saciado, eu finalmente deixo a mesa, quase colocando em dúvida o quanto vale a pena morar sozinho. E "Dona" Cozete me presenteia mais uma vez, categoricamente afirmando que posso ir jantar lá quando quiser. Em meus ouvidos apenas pareço ouvir ela dizer que posso sonhar os mais belos sonhos em todas as noites que desejar.

E como filho ingrato que sou, saio da casa de minha mãe já com muitas saudades dela, mas também já pensando em qual vai ser a deliciosa surpresa na próxima vez em que eu for jantar lá.

Alguém me acompanha?

See Ya

   7.10.03

Pré-estréia errada de algo que ainda não existe

Na sala de TV do manicômio, dois internos conversam:

- Como você veio parar aqui?
- Puxaram meu tapete na empresa!!
- (espanto) Mas te consideraram louco por perder o emprego?!?
- Mais ou menos... O problema foi eu ter ido lá depois da demissão com uma AR-15.

See Ya

PS: é nóis, Pajé!!!!!

   2.10.03

Aquela vontade de postar

É fato que estou sem nenhum tempo para escrever. Contudo, minhas entranhas estão a se contorcer dentro de (não tão) esbelto corpo, pelo fato de eu deixar meus leitores tanto tempo orfãos de novidade neste "cafofo digital".

Vou aproveitar este formigamento literário nos dedos para republicar um post que eu considero um dos melhores do Quando Isso. Ele foi ao ar em 15 de março deste ano, quando o blog tinha apenas 3 dias de vida. Muitos dos leitores que por aqui trafegam hoje nem sabiam da existência do Quando Isso naquela época. Então aproveitem!! E divirtam-se por mim.

Em tempo: Fabiana, o Ócio Criativo, do Domenico De Masi, é um dos melhores livros que eu já li. Vale realmente a pena, pra quem quer ficar ligado nas mudanças de costume de nossa época. Como o próprio De Masi diz: "Vivemos uma mudança de época e não uma época de mudanças".

See Ya.

[Sáb Mar 15 2003, 10:17:42 PM]

Quando isso virar um blog eu vou ter organizadas todas as listas de discussão de que faço parte. Contudo, como isso ainda não tenho, recebi um e-mail de uma lista que eu nem lembrava que fazia parte. É uma mailing list de uma banda chamada Flogging Molly.

Os sete integrantes dessa banda irlandesa do circuito alternativo tem um dos sons mais originais e bem feitos que eu já ouvi. Eles fazem uma junção muito bem trabalhada de música irlandesa (algo entre o folk e o celta) e punk. Exatamente. Música irlandesa e punk unidas, o que deixa qualquer um de queixo caído. O conjunto dos instrumentos (guitarras, bateria, um violino, gaitas de fole, acordeons, e até banjos e bandolins) e o vocalista, Dave King, com aquele sotaque carregadíssimo dos irlandeses fazem dançar e pular até o mais tímido ou o mais emburrado dos ouvintes.



E a versatilidade deles não pára por aí. Eles tem músicas (e letras) que vão do empolgante e engraçado ao melancólico.

Eles possuem 3 discos lançados até agora (ALIVE BEHIND THE GREEN DOOR, SWAGGER e DRUNKEN LULLABIES), além de um single. Particularmente eu prefiro o Swagger, e especialmente a fantática Devil's Dance Floor, cuja versão em formato MP3 vocês podem baixar daqui (3,8Mb), pra conhecer o som. Para quem estiver curioso para ver a desenvoltura dessa banda nos palcos, há uma versão da música Salty Dog em vídeo, que pode-se encontrar no Kazaa Media Desktop.

Pra terminar, vale a pena dar uma olhada em fotos da violinista do Flogging Molly, Bridget Regan, que eu considero uma das mais belas violinistas que conheço (ahhh ,ok ,ok, eu não conheço muitas violinistas, mas ela muito bonita!!). =)

See Ya

   1.10.03

Vai ver se eu tô na esquina

Olá. Este é um post automático. No momento eu não posso escrever. Por favor deixe seu comentário após o beep.

piiiiiiiiiiiiiiiiiii









See Ya