15.5.06

São Paulo e o caos

São quatro e pouco da tarde e sou um dos últimos na empresa. Corredores vazios, silêncio, aqui dentro. Lá fora, quilômetros e quilômetros de congestionamento. Pessoas atulhadas e com medo.

Tudo começou com o boato do toque de recolher. O metrô vai fechar. Bancos explodindo. Armas disparadas. Setenta ônibus destruidos. Noventa mortos. Três letras: PCC.

Enquanto todas as pessoas seguem temerosas e quietas para casa, ouço todo tipo de boato possível: pessoas metralhadas nas ruas, bancos detonados, fechamento disso e daquilo. Algumas coisas eu consegui confirmar pela web ou ouvindo o site da CBN. Mas a maioria são mentiras deslavadas ou então ações isoladas de pessoas se aproveitando pra usar de vandalismo.

Eu temo sair daqui e seguir até aqui pertinho, até o local onde moro. Não pelo PCC, obviamente. Ontem à noite um policial segurando uma escopeta parou meu carro num bloqueio, encarou-me por alguns segundos como se fosse Charles Bronson e fez sinal para que eu seguisse. Hoje imagino o que estes policiais, tão mal treinados e desinformados quanto a maioria dos ignorantes e idiotas que habitam esta cidade, farão. Devem estar loucos para atirar em qualquer um que possam culpar.

Temo por mais e mais ataques vândalos e que ficarão impunes. Temo pelos imbecis e broncos que votaram a favor do comércio de armas no referendo e devem estar segurando seus pintos de ferro apontados para a vizinhança, que provavelmente está calma. Temo pelos ignorantes que vão lutar pra chegar em casa mais uma vez. Essa massa de manobra, junto da mídia, ameaçam muito mais nossas vidas do que qualquer ataque do PCC. Nosso inimigo, essa noite, é o medo.

E tirando o medo, não vejo mais nada acontecendo. Poucas coisas foram confirmadas. Não há toque de recolher, por exemplo. Existe, sim, violência e caos nas ruas. mas isso foi totalmente manipulado, seja pelo PCC, seja pela polícia, seja pela mídia.

Bom, acaba de chegar um gerente aqui, me tocando do escritório. Tenho de ir.

Boa sorte a todos e não acreditem em tudo que seus olhos e ouvidos captarem. Sejam críticos, e sejam espertos.

See Ya

   9.5.06

Megalos

Se você pensa estar no topo, tanto melhor. A pancada vai ser mais forte quando você atingir o chão.

Vivemos no topo da cadeia alimentar, buscando subir na carreira profissional, crendo que do Alto virá a salvação. Sem questionar a influência da semântica em nossas aspirações e aspectos culturais, eu digo que é bastante comum encontrarmos pessoas "no topo", ou seja, satisfeitas com o que tem, ou usurpando termos maliciosamente cunhados, como "bem sucedido" ou "vencedor". Mais do que uma simples questão competitiva (que a natureza impõe a nós, quer gostemos ou não), a busca por essa "vitória" é muitas vezes o reflexo da necessidade de provar algo para alguém, ou um vício que mantemos para garantir que nos sintamos bem com nossas decisões, ou ainda outras coisas, como culpa ou compensação.

Vencer não é uma doença. Lutar inexoravelmente pela vitória, respirar constantemente os ares da auto-superação, do aprimoramento máximo, da autofagia orgulhosa, é. Pessoas assim precisam de ajuda. E correndo risco de não ajudar em nada, eu cito Raul Seixas:

Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa


Supere a si mesmo, vamos! Melhore a cada dia! Torne-se melhor e melhor e reze todo dia para o Papai do Céu, agradecendo o fato de você ter se adaptado a isso. Isso tudo, claro, antes de você contemplar o vazio e, por vezes, a culpa. E não é só isso. Muitas vezes é olhar e ver o quanto você ainda pode fazer por si mesmo e pelo outro. É olhar do topo(?) da sua vida e perceber que você não sabe responder nem as perguntas mais básicas, dentre as que realmente interessam. É perceber que o que supre, nem sempre sustenta e o que satisfaz, nem sempre resolve.

Chega disso, servo-controle! Sem essa de super planos para ser bem sucedido. Olhe para frente e veja o que te chama a atenção. Eu tenho amigo (da mesma idade que eu) casado, que será pai ainda esta semana. Eu tenho amigo (da mesma idade que eu) juntando dinheiro pra comprar casa e casar. Espero mesmo que eles estejam felizes em seus caminhos planejados para dar certo. Mas espero mais ainda que eles percebam logo que todos os caminhos dão certo, porque estamos indo todos numa única direção, queiramos ou não.

See Ya

   7.5.06

Ainda sobre máscaras

Este debate está bem interessante. Mas algo me diz que enquanto estamos aqui nessas reflexões, uma parte acachapante do mundo que nos cerca está a cada minuto tornando-se mais expert em máscaras, véus, (des)crenças e (des)valores...

Para ilustrar e ampliar nossa conversa, trago alguns textos que venho colecionando desde o início deste ano. O primeiro fala sobre o aumento progressivo de cirurgias plásticas entre jovens cada vez mais novos. Dentre outras "pérolas", este trecho: O cirurgião plástico Leonard Bannet, da clínica Santé, concorda com ela: "Uma garota que concorre no mercado amoroso quer ter um corpo compatível". Ele não vê problemas em contar, por exemplo, que já "lipou" jovens na faixa dos 14 anos. A coluna toda está aqui.

Na mesma época li outro texto, este sobre o trabalho de meninas de 13, 14 anos como modelos em desfiles de moda. Se estiver a fim, leia- o aqui (só a título de mais uma ilustração).

Mas eu já tinha até desistido de "chover no molhado" desse assunto. Aí pintou o debate aqui no QI e, ao mesmo tempo, uma reportagem sobre uma megabalada em um resort cinco estrelas para jovens "bem-nascidos" (!) ou, pelo menos, "bem-endinheirados". Um trecho dela: Bem, mas os "chatôs" pagaram de R$ 840 a R$ 2.490 por um fim de semana prolongado de festas à tarde e à noite -um total de dez horas em cada um dos três dias-, com pensão completa e direito a pular, gritar e arremessar objetos do quarto uns nos outros (um funcionário do hotel informa que foi preciso retirar os extintores de incêndio do corredor para evitar desenlaces tenebrosos). Se estiver a fim, leia o resto aqui. Vale a pena -- mas aviso que pode ser meio indigesto.

Depois de reler tudo isso, e considerando que já estou nesta vida há tempo suficiente para saber que são os filhos da elite que são sempre os "donos do poder", vocês hão de convir que dá para ter uma visão meio desanimadora do futuro... Coisas de quem está ficando velho, provavelmente. Só (mais) um adendo: havia uma música-símbolo da ditadura militar, da dupla Don e Ravel, chamada "Eu te amo meu Brasil" e cujo refrão terminava com "ninguém segura a juventude do Brasil". Socorro!

E o que isso tem a ver com o resto da conversa, afinal? Bom, na minha cabeça estranha, tem a ver com o fato de que as tais máscaras, tão bem exemplificadas nesses textos, estão tomando o lugar do que deveria haver sob elas em velocidade e intensidade estonteantes -- a ponto de eu ter a sensação que daqui a algum tempo elas serão a única e hegemônica referência. Fabricio fala do câncer da geração dele; do não-questionar; da felicidade à custa de antidepressivos e comerciais de TV. A pergunta que fica é: será que estamos condenados à convivência com essa referência dominante? Não me parece a melhor perspectiva do mundo... Alguém me arruma uma grana para uma lipo? ;-)

PS 1: De tanta coisa interessante que meu blogmate escreveu aí embaixo, o que achei mais curioso foi a opção pelo termo "artilharia". É, realmente é uma guerra. Surda, suja e violenta. Guerra, afinal.

PS 2: Só para deixar registrado, é claro que sei que nem todo mundo é como os nefastos personagens desses textos. Eu mesmo tenho a sorte de conhecer duas ou três pessoas bem jovens que têm outros valores -- e que infelizmente pagam um preço alto por isso.

PS 3: E para aproveitar a questão das máscaras sorridentes, recomendo o filme "V de Vingança" -- uma reflexão legal sobre valores, corrupção, ideais... e sobre o que pode significar uma máscara. Fica a dica.