2.2.10

Luto

Luto por mim e pelas coisas mortas. Luto pra evitar que elas morram uma morte fria e distante. Luto pelas coisas que mudaram e nunca mais serão as mesmas. Luto pela felicidade-não-felicidade que sinto por saber que as coisas morrem e que isso é triste mesmo quando elas querem e precisam morrer.

Luto pelo amor, que não pode ser imortal, pois nada é imortal. Luto pelos dias que se vão no mesmo compasso em que as folhas caem dos galhos enquanto eu, galho, fico desnudo e olhando o tempo. Luto pelas decisões erradas que nunca serão consertadas e cujo peso nesse momento valem mil vidas.

Luto pelo desmantelar das castelos e países e planetas e universos que no fim, como os castelos, eram mesmo de areia. Luto pela liberdade que sucumbe a cada segundo, dando lugar a algo lacônico, firme, durável e que eu nunca quis.

Luto pelas mortes literais, muito doloridas, mais naturais que as outras mortes. Luto todo dia e estou cansado, querendo sumir ou ficar transparente ou ainda num lampejo de grandeza ser ignorado pelas coisas e pelas pessoas. Oh, Deus, eu estou tão cansado.

Luto por coisas finitas, que dizem menos, mas doem menos, e causam menos culpa. Luto pra que, se no final tudo vai mudar e vc não sabe nada e não conhece ninguém? Luto por cada lágrima que despenca e morre afogada numa mancha que é tão minha e, no entanto, é um mosaico de outros em mim.

See ya

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