26.5.04

Ivan Assunção ou A solução

Nunca me dei muito bem com política. Não é questão de ser politizado ou não. Eu leio sobre os meandros políticos do país do futuro e do resto do mundo. Às vezes eu até entendo algumas coisas. Mas a questão é que eu não gosto mesmo de política. Me sinto ludibriado sempre que ouço falar em política. Se eu já não tenho muita fé nessa espécie lazarenta que é a nossa, menos ainda tenho em nossos representantes governamentais.

Entretanto, mesmo não sendo apreciador desta duvidosa e carcamana arte, sei muito bem reconhecer um momento político marcante. Sei perceber quando as estrelas de nossa bandeira assistem a uma verdadeira demonstração da democracia. Sei antever a chegada de um arauto das massas ao poder.

Hoje, eu conheci Ivan.

Eu estava numa praça, em frente ao meu local de trabalho, protegendo-me da chuva sob algumas árvores, quando uma figura desceu fazendo barulho e balbúrdia de dentro do ônibus. O ônibus nem mesmo estava no ponto, havia apenas parado num semáforo que tem ali na esquina, mas o rapaz vestindo roupas surradas, uma jaqueta marrom e uma calça "dins", desceu. Ele carregava algumas sacolas e algumas caixas mantidas presas sob seu braço, além de um chapéu de caubói, daquele feitos de plástico branco duro (distribuidos durante a copa de 2002). Fora toda esta parafernália ele segurava com a outra mão, acima de sua cabeça, mas não para protegê-lo da chuva, uma placa feita de papelão, que ele usava para mostrar alguma coisa que eu não podia ver para os carros que vinham logo atrás do ônibus em que estivera.

Ele gritava palavras incompreensíveis, devido ao barulho, e vagava por entre os carros em movimento, passando de uma faixa a outra entre intervalos de buzinadas e xingamentos. Mas permanecia íntegro. Começou a subir a rua de costas, ainda exibindo sua placa improvisada para os carros. Subiu o suficiente para que eu pudesse ler a inscrição "Ivan Vereador" escrita no papelão com giz comum, desses escolares, colorido.

Logo eu também passei a ouvir o que ele gritava. "Esse sou eu". "Ivaaaaaaaaan!!!". A certo ponto não soube dizer se ele gritava "Ivan Assunção" ou "Ivan, a solução", ou alguma outra expressão. Mas o fato é que havia verdade política ali. cansado de sofre sob o mesmo céu todos os dias, o bravo Ivan se mexeu e agora, em plena execução de seu direito civil de se tornar candidato a um cargo público, não mais parecia que um louco sob a chuva, segurando um cartaz de papelão.

Corajoso, eu diria. Enfrentaria este Policarpo Quaresma da nova era todos as dificuldades para se tornar um representante do povo? E se enfrentasse, sucumbiria ele a uma loucura maior do que andar sob a chuva pra fazer campanha, que é tentar mudar alguma coisa em solo tupiniquim? Ivan está lá fora agora, acreditando, talvez, que possa um dia resolver alguma coisa. Ou talvez esteja apenas bêbado e sonolento depois de ter chorado a incompetência e indeferença de nossos representantes até agora.

Boa sorte, Ivan. E te desejo muito mais sorte caso um dia você realmente vença. Espero que você goste mais de soluções do que de política. Que você aprecie mais governar do que fazer campanha. Precisamos de muitos Ivans assim nos representando, pois vivemos numa democracia. E aqui, o governo é do povo, mas a política, não.

See Ya

   25.5.04

Últimas vezes

- Oi.
- Oi!?
- Oi. Você é o Guilherme?
- Sou. E você?
- Eu sou Amanda. Não lembra de mim?
- Amanda? Putz, desculpa. Não me lembro. Você tava na festa, semana passada?
- Não. Tudo bem você não lembrar de mim. Eu fiquei um tempo, há uns anos, saindo com o Paulo, seu amigo.
- Sei. Hmm. Olha, desculpa mesmo. Não me lembro. Mas e aí, tudo bem?
- Sim. Indo. E o Paulo, tem falado com ele?
- O que? A música tá muito alta!! E eu já to meio bêbado. Não te escutei direito.
- O Paulo!! Você ainda tem contato com ele?
- Ahhh, o Paulo. Não, não tenho mais contato. O Paulo morreu!
- O que?!? Morreu? Quando? Como?
- Acidente de trânsito. Já faz uns seis anos. Pensei que você soubesse.
- Não.
- É, morreu. Calma aí, não precisa chorar. Ei, calma aí. Desculpa. Quer tomar alguma coisa?
- Não. Tá tudo bem. Eu acho. Só não esperava ouvir isso. Eu gostei muito dele na época. Ele tinha uma namorada. Verônica, eu acho. Eu era a outra.
- Orra! Olha o Paulo. Nem pra dividir com os amigos.
- ...
- Então.
- A gente acabou brigando, ele saiu fulo da minha casa na última vez que nos vimos. Nunca mais falei com ele. Queria que ele tivesse sido feliz.
- Porra, vocês brigaram? Vai ver que foi por isso que o cara me ligou na última noite, dizendo que tava indo pro Clube, que tinha brigado com ela. Pensei que fosse a mina dele, mas não. Era você.
- Ele morreu nesse dia?!
- Opa! Mal aí. Olha, senta aqui um pouco. Sei lá, vou pegar uma água pra você. Não, não chora assim não.
- Não... não precisa. Sabe o que é? É que de repente algo muito forte foi morto aqui dentro. Sabe quando você tá saindo da adolescência e acha que o mundo vai se abrir pra você? Ele era muito próximo nessa época, e eu sempre fantasiei que o mundo se abriria diante de nós dois juntos. Mas um dia nós brigamos e ele se foi. Sempre achei que no futuro a gente ia se ver de novo. Até podíamos ser amigos. Sei lá, talvez rolasse algo outra vez. Sabe? E isso morreu. De repente a frieza de saber que tudo só acontece uma vez me deu um soco na boca do estômago.
- É. Só. Aí, mina. Fica mais um tempo aí. Dança um pouco. Eu posso ficar com você se isso for ajudar.
- ...
- Ei, também não precisa ir embora assim. Calma aí. Foi na boa que eu falei. Ahh, que mina doida!
- Que foi, cara?
- Sei lá, Juninho, puta mina estranha aparece aqui, sabe que meu nome é Guilherme, pergunta do Paulo. Aquele que morreu, sabe?
- cara, seu nome não é Guilherme. É Rodrigo! Porra, acorda!
- Putz.. aí, até falei que eu tava meio bêbado. Ahhh, putz. Bom, mal aí. Agora já era.
- Só.
- É.

See Ya

   22.5.04

Pense mais uma vez

Há um ano eu publiquei aqui um texto que considero, até agora, um dos meus melhores escritos. Não porque seja literariamente bem feito, ou contenha idéias realmente inovadoras.

O texto, que reproduzo abaixo, representa toda a essência dos questionamentos que acredito que todas as pessoas deveriam ter em relação à vida e a si mesmos. E, na verdade, não me refiro às perguntas que faço no texto, literalmente. Quero dizer que o questionamento é a engrenagem que move o mundo e a vida das pessoas. Nesse texto eu convido todos a se conhecerem melhor. A se olharem no espelho diretamente nos olhos e se questionarem sobre tudo a sua volta. Questione seu modo de ver as coisas. Questione seu Deus. Questione seus relacionamentos. Questione suas respostas para as perguntas mais básicas. Questione-se e tente descobrir se você realmente não tem respostas para algumas perguntas ou se você prefere não ouví-las ou entendê-las. Questione o chão onde você pisa, e talvez você descubra que está apenas num dos andares de um prédio inteiro. Ou que, simplesmente, você está no fundo do poço e não há mais o que questionar. E então questione isso também. Questione este blog. Questione este texto, e o próximo.

Para os que chegaram há pouco, conheçam o texto. Aos que já o conheciam, questionem o ano que se passou desde a primeira publicação. =)

* * *

Pense

O que te ofende? Do que você tem medo? Quem você gostaria de ver morto? Quem você gostaria de matar com as próprias mãos?

Você dá esmolas na rua? Ignora garotos pedintes no semáforo? Você votaria num negro para a presidência? Permitiria que sua filha namorasse um negro? E uma negra? E um gordo? Ou uma branquela gótica que usa piercing na buceta e pensa que vinho é sangue?

O que te faz feliz? E o que te enfurece? Você fica impassível diante do noticiário da TV? Chora num capítulo de novela? Você transaria com alguém só pra fazer esta pessoa feliz? Ou só pra ficar feliz? Você cagaria na boca de uma pessoa se ela te dissesse que isso a faz feliz?

Você espancaria um estuprador? E um padre? Você condena o Nazismo? E o Capitalismo? Você iria a um museu? E a um baile funk? Você desejaria um deficiente físico? Ou um deficiente mental? Casaria com um tetraplégico? Entregaria toda sua economia a um pastor? E ao gerente da concessionária Toyota?

Comeria uma prostituta? Treparia com um garoto de programa? Quanto você pagaria pelo sexo de seu marido ou de sua esposa? Você acredita num deus onipresente e invisível? E nos demônios palpáveis do dia-a-dia? E em você mesmo? Você reagiria a um assalto? Abandonaria seu emprego por não gostar dele? Você ajuda crianças com câncer? Beijaria uma delas?

Você acredita que haja "gente bonita" em lugares agradáveis? Absolveria O.J. Simpson? E Fernandinho Beira-Mar? E o neguinho da favela que roubou comida? E o ministro que desviou comida? Compraria um CD da Kelly Key? Transaria com ela?

Adotaria uma criança chinesa hoje? Ajudaria um doente iraquiano? Acolheria um mendigo americano? Assistiria a um filme brasileiro? Serviria de voluntário numa FEBEM? Daria banho num idoso todo cagado e mijado? Votaria no Maluf? E no Lula?

Aceitaria suborno? Chantagearia alguém por dinheiro? E por sexo? Bateria o carro de propósito para descontar num desconhecido o stress da sua vida? Espancaria seus filhos? Denunciaria se visse um pai espancando uma criança? E se este pai fosse um traficante de drogas e armas?

Voltaria aqui se este post te ofendesse?

Você se conhece? Já se encarou no espelho hoje? Tente de novo.

E não pense em zebra!

See Ya

   19.5.04

A força do épico

Não posso dizer que tenha gostado de muitos filmes do diretor alemão Wolfgang Petersen. Com distância de dez anos entre cada filme dele que apreciei (Inimigo Meu, de 1985, e Epidemia, de 1995), Tróia acabou se adiantando um pouco, e de forma nenhuma me surpreendeu: eu já esperava um épico de tirar o fôlego, uma produção forte e cativante, como nas velhos histórias de heróis.

Apesar de um pouco cansativo em seus primeiros minutos, logo que o filme é embalado pelas dúvidas e tensões entre seus protagonistas é impossível se desligar da sequência de batalhas, sejam físicas, ou psicológicas, que a trama proporciona.

Especialmente arrebatadora está a atuação de Brad Pitt, como o legendário Aquiles, tanto em seus momentos de sabedoria, dignos de um filósofo grego. Ou de suas habilidades belicosas, dignas de um soldado espartano. Ou ainda de seus renovados dotes físicos, dignos de um deus do Olimpo. De longa data já sou fã notório do sr. Pitt, e devo admitir, ainda que suspeito, que Aquiles é um dos melhores papéis já encarnados pelo ator. Em todos os momentos em que cenas fortes foram necessárias, Pitt soube dosar como ninguém toda sua habilidade de atuação. Os diálogos (ou combates) com Príamo (Peter O'Toole), Breseida (Siri Svegler) e Heitor (Eric Bana) foram os pontos altos do filme, e em todos Brad Pitt estava formidável.

Eric Bana foi uma grande surpresa, pois confesso que não esperava muito do ator que havia encarnado a versão humana do gigante verde babão Hulk anteriormente. Em certos momentos ele foi brilhante e grandioso, fazendo-me lembrar até da atuação de Vigo Mortensen como Aragorn, em Senhor dos Anéis.

E por falar em Senhor dos Anéis, enquanto Sean Bean ficou realmente bom como Ulisses (ou Odisseu), Orlando Bloom foi um fiasco como Páris. Ouvi pessoas dizendo que o papel não era lá essas coisas, mas para o papel do "culpado" pela guerra entre gregos e troianos, Bloom hesitou demais em usar sua capacidade de fazer sentirem pena do garoto inocente e assustado que acredita no amor e no sacrifício. E não soube disfarçar sua extrema intimidade com o arco, adquirida na pele do Príncipe Élfico da Floresta Negra. Ainda posso elogiar muito os papéis de Breseida, Príamo e Agamenon, e dizer que Helena de Tróia estava deplorável, por não ser metade do que deveria ser bonita e por ter o dobro de inexpressividade do que se gostaria.

A produção do filme é impecável e muito bem dirigida, de forma que fatores puramente técnicos não tomaram a frente dos bons atores. O figurino está perfeito, assim como a fotografia está bem dosada e sóbria, algo raro neste momento em Hollywood.


Tróia, trocando em miúdos, realmente possui aquele ar de épico, onde atuações fortes nos levam a navegar por um mundo de histórias grandiosas, cheias de heroísmo e sacrifícios. Acredito que a produção tenha conseguido escapar de muitas falhas comuns no cinema americano atual, especialmente daquela em que os filmes se tornam super produções devido ao dinheiro gasto e ao peso do marketing, ao invés de fazer isso pelo que é mostrado na tela, quando as luzes se apagam.

See Ya

   18.5.04

Limpeza e Faxina

Quando Isso Virar um Blog sem banner superior do Blogger.com, com menu superior alterado, atualizado e incrementado (mas ainda falta a parte dos livros e uma, de filmes, que eu quero colocar).

Apesar da gripe e da dor de garganta e da corisa, eu acho que dei uma bela faxinada por aqui.

Mas o que eu mais quero mostrar mesmo são os três selos de divulgação que eu criei para quem quiser redecorar o link do Quando Isso em seus blogs, ou sempre esperou a chance de ter um banner de seu blog predileto em seu site ou blog. =) Os três estão abaixo. Divirtam-se.












Os códigos para cada um dos botões está no menu superior. A casa agradece a divulgação.

See Ya

PS: podem ser os delírios da febre, mas ando com vontade de organizar um encontro de blogueiros. Alguém por essas paragens se habilita a me ajudar?

   17.5.04

I would like to thank

Os mais próximos sabem que sou uma pessoa difícil de conviver e dado a exageros repentinos e também a esquecimentos vexaminosos, em geral com pessoas de quem gosto e admiro. Agora outros, que não os mais próximos, já sabem disso e podem começar a pensar se me perdoam por tal atrocidade.

Se me perdoam, bem. Fico feliz e lisonjeado. Se não me perdoam, segue abaixo a lista dos que tem direito a me dar 1 (uma) chibatada com flagelo previamente escolhido. Os nomes não estão em qualquer ordem de castigo. Bate primeiro quem chegar primeiro:

Amaranta, do Não Sei Dançar; Dr. Pedro Nunes (ou Mr. Hyde), do Utopia Dilucular; Felipe, do A Vida é Bela; Leotti, do Parafraseando; Marcelo do Postíbulo; Nicodra, do Nicodracave; Fabiana do A vida moderna de Jaspion; DeadMilkman, meu leiteiro predileto; Bernardo, do finado Amarelo; Rapha, do Louco, Eu?; Júlia, que era do Output, mas sumiu; Mestre Grande Gafanhoto Inagaki, do Pensar Enlouquece; garota Renata, a mais bela flor do centro do país, lá do Pequi-up; Cesar Senatore do Darwin e a evolução de Lucifer; Beth, que anda meio longe, mas ainda indignada, do Alice no país da indignação; Didi, a mineira do Vista da Cidade; Rafael Reinehr do Escrever por escrever; Ana Paula, do Enjoy the Silence; Marcos, do Quickened; minha amiga bruxa Mortícia, do WitchCraft; Ela, Ela mesma e a Rê, do Objeto Abjeto; Tendida, do Tendesse?; Psydre, do In trance, we trust; Julie Rocker, do Boulevard Trash; meu grande xará Fabricio, do Dark Avenger.

E tem meus primeiros fãs, com direito a comentários pessoais, recadinhos, broncas, pedidos e trocas de e-mails. Esses tem direito a chibatar também:

Brisa, Karine, Marcelo Barros, Márcio e Fernanda Castilheiro, Cozetes (mãe e filha) e minha Linda Amada Idolatrada Salve Salve Elacoelha (hehehe!!).

A todos vocês eu agradeço pelos comentários, links, visitas, apoio, ajuda, por transformarem essa vida fria e virtual em algo mais vivo, mais quente e bom de se levar, e principalmente por me ajudarem a acreditar que posso tocar as mentes de vocês (e, talvez, de muitos mais) com meus textos e minhas idéias, por mais idiotas ou insanas que elas possam parecer pra mim mesmo.

Aguardo os telefonemas, comentários e e-mails agendando as chibatadas. =)

See Ya

PS: se eu esqueci de alguém, esse alguém tem, automaticamente, direito a duas chibatadas. A promoção não é cumulativa para pessoas com personalidades múltiplas.

   13.5.04

Lembrete

Vocês não estão esquecendo de dar uma olhada no Folheando, de vez em quando, como por exemplo agora, NÉ?

Ahhhh bom!

See Ya

   11.5.04

Última saída

Comecei a lamentar um segundo depois de ter pego o caminho para a direita e ter me tocado que a saída para a esquerda era a última. Eu já estava muito à direita e acabei não conseguindo mudar de rumo. Também, na velocidade em que eu vinha, mais rápido que qualquer outro, eu jamais teria conseguido fazer a conversão, e teria me perdido pra sempre na escuridão que nos cercava.

Virar à direita foi como uma daquelas decisões que você pensa: "Putz, por que eu fiz isso? Tinha certeza que deveria ter ido pela esquerda, mas acabei virando pro outro lado." Mas esse pensamento é instantâneo, pois a velocidade já está grande demais, e o tempo que você leva pra pensar isso é o suficiente pra você perceber, fisicamente, que fez merda.

Diretamente a minha frente está o gigante. Ele está ali, parado, mesmo sabendo que nessa via as velocidades são alucinantes. Eu nem me dou ao trabalho de diminuir. Não adiantaria e a última saída já ficara pra trás há alguns segundos. E mesmo que eu conseguisse desviar, o que já seria abusar demais da física, eu acabaria me perdendo na escuridão por aqui também. Eu tinha de enfrentar: era o fim. E logo na minha primeira corrida, embora eu já tenha ouvido falar que não há outra forma de viver hoje em dia que não seja correndo, aumentando a velocidade, tentando ser o primeiro, escolhendo caminhos tortuosos na escuridão, pois não há lugar pro segundo colocado. Nunca. E tudo isso pra acabar assim.

Em alguns minutos eu não seria mais do que um amontoado de células inerte, mais parecendo uma bola de carne boiando numa gosma melada e nojenta. E depois, isso tudo que eu já fui seria transformado, numa modificação lenta e feia, em algo que não lembraria em nada o que eu sou agora. Sem falar que só depois disso eu veria o túnel de luz a minha frente e poderia atravessá-lo.

Claro, antes de nascer e vir parar nesse mundo filho da puta que a gente chama de Terra e começar toda esse papo de correr de novo. Droga! A vida é tão monótona e repetitiva que eu nunca sei se vou dormir hoje e acordar amanhã ou ontem.

See Ya

   10.5.04

O tema desgatado

Não via há um bom tempo um tema ser tão desgastado pelas historietas e superproduções de Hollywood como filmes falando sobre ou mostrando vampiros. Eles já foram fantasmas, já viveram em Marte, já frequentaram bares duvidosos, foram caçados, viram o surgimento de híbridos com humanos, novas versões mutantes e até travaram batalhas com lobisomens. Mas paradoxalmente, a condição imortal dessas criaturas não se extendeu para roteiros, produções e viagens envolvendo esses seres: Hollywood matou os vampiros. Pode ter sido o sol da costa oeste, ou vácuo presente na cabeça de roteirstas e produtores, mas o fato é que os vampiros perderam seu charme e seu carisma diante do público.



Assiti a Van Helsing, dirigido por Stephen Sommers, que teve seu cérebro mumificado desde 1999, quando passou a dirigir apenas filmes com múmias (The mummy, The Mummy Returns, The Scorpion King). O filme não chega a ser mediano, e na maior parte do tempo arrasta-se como um recém-nascido monstro do Dr. Frankenstein. A despeito da boa (bem, mediana) atuação de Hugh Jackman, que fez um ótimo trabalho como Wolverine, e de Kate Beckinsale (que também aparece no vampiresco Underworld), somente o trabalho deles não segura o filme, que tem cenários bonitos mas não impressionantes, efeitos especiais apenas aceitáveis (não que eu dê valor apenas a obras grandiosas e impressionantes, mas Van Helsing foi vendido desta maneira e talvez por isso tenha causado esta decepção) e uma história pra lá de forçada para poder enquadrar o trio de vilões da produção: Drácula, Frankenstein e o Lobisomem.

A cria do Dr. Frankenstein, que foi encomendada ao cientista louco pelo próprio Drácula, mais parece um personagem saído de um episódio dos Teletubbies, mas que repentinamente adquire uma inteligência e uma capacidade de raciocínio invejáveis. Os Lobisomens não passam de capachos de Drácula, foram bem desenhados e animados no computador, e confesso que são os melhores vilões do filme. E finalmente Richard Roxburgh (que já encarnou Sherlock Holmes e também seu inimigo, Profº Moriarty) como Drácula deu um banho.... de água fria na audiência. É o Drácula mais pífio, sonso, patético e mal vestido que eu já vi. Bram Stoker amaldiçoe todos os que aceitaram colocar nas telas essa versão ridídula do Príncipe das Trevas.

Enfim, com toda a mistureba que fizeram na história do caçador de vampiros, com todo o absurdo sobre as Ordens Secretas da Igreja Católica e com trilha sonora estranha e indefinida, Van Helsing não emplacou. O filme não chega realmente a começar, e não tem um ápice, pois mantém o mesmo tom o tempo todo, com batalhas longas e repetitivas e texto sem muita criatividade. Não recomendo. Esperem sair o DVD/VHS que compensa assistir.

See Ya

   3.5.04

Enquanto Dona Mosca não vem

Vocês estão aguardando a segunda parte da história, né? Bom, eu também.

Mas enquanto isso, vocês podem ler um pouco de um outro projeto onde eu me enfiei, junto de um velho amigo, para tentar escrever um punhado de coisas sobre notícias de verdade.

O Folheando é um blog onde eu e Mr. Nicodra escrevemos opiniões, comentários e pequenas resenhas de notícias encontradas diariamante no site da Folha de São Paulo.

De mim vocês podem esperar a mesma acidez séria que vocês se acostumaram a ver por aqui. Mas atração à parte é ler o humor sarcástico, ácido e muito bem colocado do meu parceiro de blog. Se eu fosse você aproveitava a espera pra correr lá e acompanhar. Até layout próprio e comentário nós já temos. Sintam-se bem-vindos. =)

See Ya

   1.5.04

Herói

Você poderia voar alto se assim o quisesse, mas nunca o fez.
Talvez por não querer ser Ícaro.
Ícaro conhecia seu limite, e caiu quando atreveu-se a alcançá-lo.
Mas você não. Você corria ao encontro de seus limites, chocava-se com eles e os ultrapassava.
Sim... você pertencia ao céu. Mas insistiu em voar rente ao chão.
Talvez porque quisesse que o acompanhássemos em seu vôo.
E assim foi.
Voamos em tuas asas e sonhamos teu sonho.
Fomos espelho do teu coração.
Cada sorriso teu era nosso. Cada lágrima tua era nossa.
Cada vitória, cada derrota.
Voamos com orgulho. Tanto de ti quanto de nós mesmos.
Com você, reaprendemos a vencer.
Juntos lavamos nossas almas.


Então aconteceu.
Você nos foi arrancado na frente de nossos olhos.
E nos mostrou que heróis podiam morrer.
E contigo morremos, inevitavelmente.
Morreu nosso sonho, nosso sorriso, nosso orgulho.
Teu legado foi nossa saudade.
Talvez não pudesse mais ficar aqui, e foi de encontro a seus limites.
Em um outro lugar.
Ouviste o chamado de Ícaro.


Mas esse não seria o fim. Nos restava aprender tua última lição.
A maior e mais importante: Heróis não morrem de verdade.
O herói morto virou mito, e o mito é eterno.
E foi assim que passamos a carregá-lo.
Você agora é parte de nossos sonhos.
Existe em nosso sorriso.
Mantê-lo vivo é nosso maior orgulho.
Mas de vez enquando nos lembraremos do nosso herói.
Voando ao encontro dos limites e da vitória.
E nesse momento choraremos.
E nossas lágrimas serão as tuas.
Saudade...


See Ya

PS: o texto acima, colocado aqui no Quando Isso e em mais 3 lugares (2 flogs e um blog), é de autoria de Marcos Ruiz, um grande amigo, grande fã de automobilismo, e que mesmo tendo torcido tão arduamente para um francês que nos irritava muito a cada vez que competia contra nosso herói, sempre soube admirar a grandiosidade, audácia e brilhantismo de Ayrton Senna.