31.10.05

Pequeno Dicionário de Sinônimos que Passam pela Estranha Cabeça do Marcelo

amor = seiva
amizade = porto
beleza = essência
confiança = elo
conhecimento = lastro
corrupção = auto-apodrecimento
decepção = aviso
dinheiro = escolha
dor = passagem
ensinar = aprender
eu = conexão
família = ninho
fé = força
história = identidade
humanidade = (des)caminhos
inconsciente = vigia
individualidade = conquista
mau-caráter = vácuo
mentira = escudo
morte = motor
passado = plataforma
pensamento = jornada
poder = casca
prazer = busca
saúde = liberdade
ser = compartilhar
sonhos = luz & sombra
trabalho = crescimento
trânsito = sociopatia
vida = comunhão

   29.10.05

Ente

A noite chega
Sutilmente.
A vida se aquieta
Lentamente.
Fantasmas se anunciam
Fatalmente.
A cabeça dói
Insistentemente.
O coração palpita
Irregularmente.
As dúvidas se amontoam
Atabalhoadamente.
As certezas se afastam
Velozmente.
Os espaços se esvaziam
Inexoravelmente.
Os sentidos se embaralham
Cruelmente.
O inesperado surge
Incoerentemente.
As possibilidades seduzem
Felizmente.
O renascer alvorece
Simplesmente.
Uma nova ordem se forma
Finalmente.
E será seguida por outras
Certamente.

   24.10.05

Devir

De que justiça sabem os corações que não a dos corpos ardentes?

De que vivem as ilusões se não das verdades que todos temem admitir?

De que é feita a liberdade se não de mãos grandes e buracos estreitos?

Eu não tenho o direito de viver tanto, tão pouco, ou de morrer tão pouco, tantas vezes.

Eu não tenho o direito de só apontar caminhos tortuosos, ou de viajar por amplas alamedas.

Eu não tenho o direito de dar falsas esperanças, ou de arrancar as verdadeiras.

Nem vocês.

See Ya

   15.10.05

Decor

Com a rapidez que eu merecia,
o céu se tornou em dia,
pra que eu pudesse te ver.

E toda aquela minha agonia,
quando soube que te veria,
foi lá pra longe, morrer.

Em mim nada mais havia,
além de uma certa alegria,
que em meu peito veio jazer.

Tomado de tanta euforia,
somente porque veria,
seus olhos a dizer.

Languidez é harmonia
e uma grande sintonia
envolve eu e você.

See Ya

   14.10.05

A Máscara da Paz

Certamente levei mais tempo do que gostaria para falar sobre o referendo que nos será apresentado no próximo dia 23. Este tempo de maturação de idéias foi conduzido por um fio argumentativo no qual eu pouco acredito, mas que entendo como um caminho para melhoria na qualidade de vida.

Digo que não acredito em tal argumento apenas por considerar, dentro de minha maquiavelice niilista, que o ser humano é e sempre será violento ao extremo, salvo em casos onde a moral domina os instintos e costumes que herdamos dos seres que habitavam as árvores e desceram até o chão por se sentirem capazes de se defender de (leia-se: matar) outras espécies.

Veja bem, se pudesse haver um referendo sobre isso e fosse possível escolher tais coisas de forma tão civilizada quanto votar, eu escolheria que a partir de primeiro de Janeiro é cada um por si. Armem-se, vistam coletes, levem cacos de vidro escondidos, construam armadilhas, apoderem-se do que lhes parece de direito. Matem, destruam e não cooperem. Não caiam na falácia de que somos animais sociais, perpetuem a espécie através do estupro, e rezem para sua escolhida não ter uma escopeta nas mãos. Lavem as rampas do Palácio do Planalto com sangue e tinjam o asfalto das capitais de vermelho e cinza. Eu topo. Seria menos hipócrita, pelo menos. Seria menos insosso que os joguinhos que inventamos pra substituir isso: mercado de trabalho, reality-shows, sensasionalismo. Nossa sede por sangue nunca foi tanta, e contudo, nossos métodos nunca foram tão esmiuçados e padronizados. Nossas bandeiras nunca pareceram tão brancas: lute contra o terrorismo, contra a morte de animais indefesos, contra a fome, contra a AIDS. Queremos limpar o mundo da maldade sendo sádicos. Queremos humanismo, mas queremos ver o circo pegar fogo. Acreditamos na paz mas não acreditamos em quem quer que a use como bandeira. Infelizmente acho que isso não vai mudar e vamos continuar vestindo essas máscaras. E não estou disposto a tomar essa atitude "faroeste" por mim mesmo. Eu gosto de brincar, mas não sozinho.

Portanto eu me decidi pelo sim no referendo real, que de fato ocorrerá, com todo o dinheiro desperdiçado nisso, com toda a estupidificação do assunto promovido pelas imbecis frentes parlamentares que incorporam cada um dos lados dessa batalha. Escolhi o sim porque acredito que isso vá diminuir a violência que considero imprevisível, inexorável. Não acredito no fim da violência, não acredito no fim da criminalidade, não acredito na segurança que nos promete o Estado. Mas sempre tive comigo que armas são sinônimos de morte, pois servem apenas pra isso.

Se você transforma um pedaço de pau em arma, um caco de vidro em lâmina, um livro em marreta (eu recomendo Guerra e Paz), é o seu julgamento que o faz. A arma de fogo, assim como as espadas (num contexto atual), serve apenas para matar. Nunca vi ninguém usar sua bela 765 cromada como aparador de livros ou pra calçar a oscilante mesinha do jardim. E isso basta, pra mim, para que eu as queira longe de mim, seja na minha própria mão, seja na mão dos outros.

Só pra não deixar dúvidas: eu empalaria os imbecis que acham que vestir uma camisa branca e fazer pombinhas com as mãos vai adiantar alguma coisa. Eu afundaria o crânio desses ativistas idiotas contra a calçada. Eu não sou "da paz". Mas também não sou bobo.

See Ya

PS: eu nem entrei no mérito político da questão. É verdade que isso tudo é uma cortina de fumaça pra abafar a crise política? Talvez. Mas se você já sabe disso, qual é o efeito? Você não consegue separar isso do seu discernimento e votar conscientemente independente de cenários ocultos? Ah tá.

   12.10.05

O Velho Chico e eu

Outro assunto que está em voga é o rio São Francisco. Mais especificamente o projeto de transposição, que ganhou espaço na imprensa com a já terminada greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio. Só que cansei do "samba de uma nota só" da política, então vou falar de uma experiência bem pessoal.

Há coisa de um mês, depois de um período particularmente cansativo, fui com minha namorada passar algum tempo em Maceió e arredores. Desde que saí de São Paulo, meu único compromisso (ou idéia fixa, diria ela heheh) era ir até a foz do São Francisco, recomendação de um amigo que conhece bem minhas preferências.

Depois de alguns passeios bem legais, decidimos ir até lá. Só que naquele dia foram tantas as paradas em lugares maravilhosos ao longo do caminho que acabamos chegando tarde demais -- o que não nos impediu de ver e registrar um belo pôr-do-sol na bela cidade histórica de Penedo e ficar com vontade de voltar.

Voltamos dois dias depois, em uma quinta-feira de manhã. O dia estava lindo e logo pegamos o barco na cidadezinha de Piaçabuçu (uma das locações do filme "Deus é Brasileiro") com destino à foz. Definitivamente algo mágico: sem dúvida um dos lugares mais incríveis em que eu já estive! O sol, o céu, as dunas, o farol dentro d'água, o mar de um lado, o rio do outro... Simplesmente indescritível.

Devo acrescentar que para boa parte de nós, mineiros, o Velho Chico tem um significado todo especial, meio místico. É lá, mais especificamente na Serra da Canastra, que ele nasce e vai "subindo" até a divisa de Alagoas com Sergipe. Além disso, antes de eu nascer meus avós moraram em Pirapora, no norte do estado, com o São Francisco praticamente "no quintal", e contavam histórias muito pitorescas sobre o lugar.

(Aproveitando para uma daquelas pausas: sabe a expressão "boi de piranha"? Pois é, era prática na região de Pirapora naquela época. Basicamente o boi de piranha era o exemplar menos saudável ou mais velho do rebanho, que era levemente ferido e colocado na água para seu sangue atrair os peixes, enquanto os demais eram levados para o outro lado do rio. Tá vendo? Blog também é cultura!)

Bem, o fato é que foi um momento absolutamente único, daqueles que ficam tatuados na alma. Não era nenhuma data especial e poderia ter sido qualquer outra. Mas não foi. Foi quando eu experimentei uma das mais significativas conexões que já tive com a natureza (Alberto Caeiro se orgulharia). Naquela quinta-feira eu nadei no rio São Francisco. E o Velho Chico me recebeu, me aceitou e me purificou.

PS: Para contribuir com a magia da coisa, eu estava acompanhado de alguém que não só participa e participou de uma grande e importante etapa da minha história, como também compartilha comigo boa parte da "mineiridade". Obrigado, Bia!

   5.10.05

O direito de ser assassino

Já adianto que o post é longuíssimo, que o assunto é o referendo sobre a proibição do comércio de armas e munição, e que vou defender o sim. Se você não estiver a fim de ler, passa amanhã.

Neste ano, quando completei dez anos de "paulistanidade", finalmente resolvi transferir meu título de eleitor de minha cidade natal para São Paulo. Minha idéia era estar preparado para votar em quem quer que seja contra o José Serra ou o vice dele.

Só que aí surgiu essa história do referendo e pensei: pelo menos vou usar o documento para algo mais útil e em que realmente acredito: votar sim à proibição do comércio de armas e munição no Brasil -- sabendo que vou no sentido contrário da imensa maioria das pessoas que me cercam. (O fato de, como eu, elas pertencerem à classe-média e dificilmente terem tido pessoas próximas mortas gratuitamente por arma de fogo talvez não seja só um detalhe...)

Eu poderia até começar a falar de estatísticas manipuladas e das fraudes como a adulteração de um artigo da Denise Frossard desmentida por ela própria, mas não é por aí que eu acho que a coisa pega.

O que pega, para mim, é antes de tudo uma visão de mundo. Uma visão de vida. Uma visão da raça humana. No limite, uma visão de si próprio. Basicamente, o princípio -- raso, na minha opinião -- de quem defende o comércio de armas é que a "população ordeira", ou o "cidadão de bem", tem direito à legítima (?) defesa. Ora, já começamos com uma incoerência: pensando dessa forma maniqueísta, cidadão de bem e arma de fogo não cabem na mesma equação, não é mesmo? Ao descarregar uma arma em um bandido, sou potencialmente tão assassino quanto ele.

[Pausa para uma curiosidade: a alcunha "população ordeira" não é a cara da ditadura militar? Não por coincidência, uma das minhas correspondentes mais profícuas na defesa do comércio de armas também envia mensagens dizendo que "com a 'revolução' era melhor" (pausa dentro da pausa: "revolução" é o nome mentiroso para o golpe de estado de 1º de abril que, simbolicamente, os militares anteciparam um dia para não cair no dia da mentira). Envia um tal de Decálogo de Lênin claramente apócrifo. Envia o vídeo de um discurso apoplético daquela aberração política chamada Jair Bolsonaro, atacando quem teve a coragem de enfrentar a tortura do porão durante a ditadura. E envia mensagens oriundas de listas como o boletim Taurusnews, dentre outras fontes...]

Bem, voltemos à questão principal. Um argumento de quem defende as armas é que a polícia não dá conta de conter os bandidos e que, dessa forma, é legítimo que cada um de nós assuma essa responsabilidade. Dentre as mensagens que recebi, uma delas pergunta explicitamente: "você confia na polícia e na justiça brasileiras?" e, diante da provável negativa, diz que as armas são a solução. Uma outra traz imagens do tipo "um criminoso só desiste com um argumento forte. Tenha no mínimo seis", com uma arma com seis balas ao lado.

Outra alegação que ouço é que drogas são proibidas e o tráfico está aí. Ora, drogas ilícitas o são desde o plantio ou a fabricação. Não dá para comparar, pois a primeira compra de uma arma de fogo sempre foi bonitinha, dentro da lei. Depois ela foi roubada pelo bandido "pequeno" que é aquele que vai brandi-la nos cruzamentos. Ou será que a Taurus e a Companhia Brasileira de Cartuchos - CBC têm divisões como a "Taurus Bandidos"?

Outro "mantra" usado pelos defensores do instrumento que mata é que bandido não compra arma em loja. Então, para esses criminosos, que diferença faz proibir ou não? A arma que bandido "cachorro grande" usa é aquela roubada do exército, contrabandeada, trazida do exterior. A da loja é aquela que é roubada do "cidadão de bem" e depois usada em briga de bar, acidente com criança, conflito de trânsito, rusga de jogo de futebol.

Mais um dado para compor este cenário: várias das pessoas que defendem tão veementemente o não sequer têm ou tiveram armas em casa. E sabem -- uma delas me disse -- que nem adiantaria, pois eles apregoam que a "posse responsável" manda que a arma fique bem guardada/escondida em um lugar e a munição em outro. Então vamos a uma das imagens tão batidas: um ladrão entra na sua casa à noite. Você acorda completamente consciente e com pensamento ágil, claro. Vai buscar a arma guardada. Em seguida vai buscar a munição em outro lugar. Aí carrega a arma e vai dar um tiro na fuça do ladrão. Que ficou sentado no sofá da sala esperando isso tudo.

Há ainda uma questão curiosa que é a tal da "teoria da conspiração". Volta e meia recebo mensagens dizendo que o referendo e o possível sim são conspirações da Rede Globo, da mídia em geral, dos políticos (inclusive devido à forma como a pergunta foi elaborada), dos artistas. Pergunta: por que será? Que interesses eles têm nisso? Não consegui sacar.

Bom, talvez eu é que seja ingênuo, utopista ou simplesmente limitado (eufemismo para burro), mas o que acredito é que deveríamos usar toda essa energia e mobilização para, de alguma forma, cobrar e garantir que a polícia seja instrumentalizada para combater os bandidos. Para encontrar uma maneira de dar credibilidade às instituições democráticas. Para trabalhar na direção da inclusão social. E, em vez de pensar no aqui e agora, olhar para o longo prazo no futuro dessa raça belicosa que escolhemos ser e que podemos escolher deixar de ser.

Ah, um detalhe importante: há uma parte do estatuto de que ninguém fala, que diz que "para comprar armas, é necessário declarar necessidade, comprovar idoneidade e não estar respondendo a inquérito policial ou investigação criminal, além de comprovar ocupação lícita e residência certa e capacidade técnica e aptidão psicológica; para obter o porte, é preciso demonstrar necessidade por profissão de risco ou de ameaça". Ou seja, a "população ordeira" tem seus direitos garantidos...

Como não sou o dono da verdade, acho legal visitar os dois sites oficiais (e outros que existam) para ter as próprias opiniões. O que defende o comércio é o da Frente Parlamentar pelo Direito da Defesa; e o que defende a proibição é o da Frente Parlamentar Referendo Sim. E veja que interessante: é exatamente a lei da maioria, a democracia, e não a lei do mais forte, ou do mais armado, que permite que o referendo aconteça.

Um dos cartazes que recebi por e-mail diz o seguinte, ao lado da imagem de um revólver: "Cidadão armado, apenas dois grupos sociais são contra. Criminosos e Políticos preferem vítimas desarmadas". Não sou criminoso. Não sou político. E sou contra.

PS: Quero acrescentar que fico feliz que haja pessoas do meu convívio pessoal e profissional (um deles ex-militar, inclusive) que comungam dessas opiniões. Um pouco menos de solidão :-)