27.2.04

Reflexo

Explosão. Estampido. Grito.

As ondas sonoras foram interpretadas pelo nervo auditivo e a corrida começou. Neurônio por neurônio, o comando foi enviado. Do nervo ótico, mais informação foi adicionada. Pessoas, carros, claridade, violência.

Outros impulsos neurais cruzaram o córtex, tentando adentrar na massa cinzenta. Os centros reguladores dos instintos de luta e fuga começavam a ser acionados. Outro sinal elétrico correu da direita para a esquerda, tentando encontrar as memórias protéicas, mas foi interrompido. A extrema baixa de pressão naquele lado espalhava-se mais rápido do que os atos e arcos reflexos, e o contato repentino com o oxigênio externo arruinou as transmissões corticais.

A pressão interna mudou muito rapidamente no lado esquerdo. Milhares de sinais enviados para verificar o ocorrido e trazer respostas. Houve um início de manifestação dos centros de dor. Sinalizadores de temperatura enviavam sinais de que uma onda de calor se espalhava da esquerda para a direita.

O impacto físico extracorporal jogou o corpo para o lado direito, que já sem respostas, não reagiu. O último impulso elétrico no lado direito do cérebro foi desmantelado pelo metal quente e veloz. O arauto metálico do caos e da finitude, sem controle ou direção, atravessou a última parede craniana. O corpo foi vencido.

Caiu. Inerte.

See Ya

PS: logo vem a segunda parte do Conto do Tempo Presente. Aguardem.

   26.2.04

Conto do Tempo Presente

Jonas desceu a escadaria da biblioteca de três em três degraus. Corria. Corria como se não houvesse amanhã. E não haveria. Em seu encalço, dois homens vestindo estranhas roupas colantes verdes semi cobertas por sobretudos cinza. Chamavam a atenção das pessoas ao redor não só pelas cores, mas também pela temperatura: lá fora, sob o sol de fevereiro, 37 graus nunca combinariam com sobretudos.

Desequilibrado e com muita pressa, Jonas atravessou as frondosas portas e alcançou a rua. O centro de São Paulo fervia. O rapaz nem teve tempo de conferir se o tráfego de pessoas e carros permitiria sua passagem, e lançou-se entra a multidão. Seus perseguidores ainda o viram dobrar uma esquina e a despeito de todos os olhares em sua direção, voltaram a correr.

Ao dobrar a esquina, Jonas viu uma banca de jornais. Correu até ela e pegou um exemplar do jornal do dia. Não pagou e correu. O atendente da banca saiu de seu lugar já gritando. "Pega ladrão!!! Filho da p..". Foi interrompido pelos perseguidores de Jonas, que pegaram o homem pelo colarinho.

"Onde está o rapaz", perguntou um dos homens, apenas levantando um pouco seus óculos prateados que refletiam a luz do sol, revelando brilhantes e grandes olhos azuis.

"É, bem.." balbuceou o homem, intimidado. "Por ali. Ele foi por ali."

Os dois largaram o homem, mas antes de partirem, um deles voltou-se novamente. "Que dia é hoje?", perguntou.

"O que?", retrucou o atendente.

O homem que havia perguntado deu mais um passo na direção do atendente, que se encolheu. "Calma, cara. Calma. Que pergunta doida. Vinte e nove. Vinte e nove de fevereiro."

"Qual ano? Dois mil e quatro?"

"É, é."

Afinal, os dois voltaram a correr pelo calçadão.

Enquanto isso, Jonas olhava para o jornal, metros a frente, enquanto corria. Ouviu um casal discutindo, em seu caminho, enquanto lia a data impressa na parte superior do jornal. Acertara o dia. E sabia que o casal nunca mais faria as pazes. Correndo pelo calçadão, viu doentes que não se curariam, trabalhadores que não chegariam em suas casas, amigos que se despediam pela última vez. Parou diante de um prédio e tirou do bolso algo que mais parecia um palm top, mas um pouco menor. Conferiu na tela alguns valores. Números sem sentido que dançavam no visor, pulando entra tabelas e gráficos e desenhos. Um sorriso esbouçou-se em seu rosto, mas a sombra que cobria o mundo só ele podia ver. Entrou no prédio. Dirigiu-se ao elevador.

Sentiu a pressão no estômago quando a cabine escalou os cabos em direção ao último andar. A pressãO parecia demais e por um momento ele lembrou-se de seu treinamento. Sentiu uma rápida tontura e apoiou-se em uma das paredes e em seguida vomitou. Um líquido amargo e branco saiu de sua boca. "Irônico", pensou ele. "O comandante de um explorador espacial enjoar num elevador é no mínimo irônico". Quase chegou a sorrir, mas o elevador estancou antes e, apressado, ele correu para o terraço do prédio.

Os dois homens que vinham logo atrás não sabiam em que prédio Jonas entrara. Um deles tirou um pequeno cubo transparente do bolso do sobretudo e olhou através dele. "O nível de afunilamento taquiônico está imenso. Nunca conseguiremos localizá-lo."

O outro pareceu impaciente. "Tente usar sua interface cerebral para reordenar os parâmetros do localizador sem interferência taquiônica."

O primeiro encostou o cubo em sua têmpora esquerda, e seu óculos emitiu um leve brilho azul. Ele pareceu paralizado por alguns segundos, mas enfim recobrou a consciência. "É aquele prédio. No topo."

Quando os dois chegaram ao topo do prédio de 8 andares encontraram Jonas num ponto distante do terraço, sentado sobre a mureta, olhando na direção deles. "Muito bem, oficiais. Não sei como vocês driblaram a concentração taquiônica para me encontrarem, mas vocês conseguiram."

"Jonas, você está preso. Infringiu tratados demais para continuar solto. Deite-se com o rosto voltado para o chão."

"Vocês acham mesmo que podem me prender agora? Vocês acham que estou aqui por acaso? Sabem que dia é hoje e que lugar é esse?"

"Sabemos que se não nos acompanhar, você irá morrer. Todos aqui irão morrer."

Um olhar de sarcasmo emanou do rosto de Jonas. "Não acredito que vocês não perceberam. Realmente acham que eu escolhi este prédio ao acaso. Enviaram dois oficiais péssimos em física para me pegarem, não é? Bom, na verdade eu sempre achei todos vocês muito burros. Agora, se me dão licensa, eu tenho um apocalipse para presenciar", e dizendo isso jogou-se do terraço. Os dois homens correram para ver a queda, mas nunca chegaram à beirada.

Enquanto Jonas caia, ouviu um rápido zunido, que parecia vir de muito longe, mas que aumentava muito rapidamente de volume. Mais um segundo, e antes de Jonas tocar o chão, a luz e a onda de calor varreram as ruas do centro. Vinda de todos os lugares, uma explosão tomou conta de tudo, envolvendo e desintegrando o corpo de Jonas e também de seus perseguidores. Os dois homens nunca viriam a saber, mas aquela explosão não varrera somente o centro de São Paulo do mapa. Era o epicentro de uma explosão que em algumas horas varreria a vida do planeta Terra.

Jonas sentira o calor e o impulso antes mesmo de se aproximar do chão. A lembrança de ter o corpo queimado e desintegrado em menos de um centésimo de segundo jamais sairia de sua cabeça. Ele jamais esqueceria o momento de sua morte, mesmo sabendo que estava prestes a despertar e mudar o rumo da história.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

See Ya

   21.2.04

Pensar enlouquece. Vote nisso.

Cooptar ou não cooptar? Tergiverso, tergiverso.

Vote em Pensar Enlouquece no iBest Blog!


See Ya

   20.2.04

Cidade de Deus e o Diabo na Terra do Sol

Muito furor tem se feito sobre o fato de Cidade de Deus ter sido indicado em 4 categorias na edição de 2004 do Oscar. Dentro das regras cinematográficas e da Academia, a indicação do filme de Fernando Meireles, pra mim, não significa porra nenhuma. Nada. Necas de pitibiribas. Sinceramente não é isso que me interessa.

A despeito do filme em si, Cidade de Deus é impecável. A história foi muito bem escrita e desenvolvida de forma muito envolvente. As atuações são ótimas e o processo de casting foi primoroso. Do ponto de vista de uma super produção, o filme não ficou devendo nada. E isso sim me preocupa.

Corre à boca não tão pequena que a Rede Globo de Televisão anda mal das pernas. Seja pelos recentes fracassos nos investimentos feitos em Tv à cabo, que no Brasil não é nenhum negócio da China, ou no mega portal Globo.com, jogado às traças, e salvo apenas por audiências que vêm da televisão por conta de Big Brothers da vida, o fato é que a Globo já não é a mesma, e teve ainda de admitir recentemente a morte de seu patriarca, Roberto Marinho (um grandioso, corajoso e generoso jornalista... que o Diabo levou pro inferno à contragosto por não gostar de concorrência. Filho da puta. Foi tarde.).

Desesperada por encontrar um ramo que pudesse salvar as finanças da empresa, de repente a Globo percebeu que com o exacerbado universo de celebridades que se avolumou no Brasil nos últimos anos, ela poderia utilizar os frutos disso para injetar ânimo, e muito dinheiro (quem sabe o governo não dá uma mãozinha pra eles, como vêm se comentando) no cinema nacional. A Globo Filmes ressurgiu das cinzas e angariou parcerias com a Warner, a Miramax (que armou toda a campanha para garantir a indicação de Cidade de Deus) e outras gigantes do ramo. Expôs atrizes e atores brasileiros nos mesmos moldes que Hollywood faz com seus ídolos. Investiu sério em produção e pós-produção de filmes, transformando películas como O Homem do Ano e O Homem que Copiava em produções invejáveis. E o melhor de tudo isso, para garantir retorno financeiro, a Globo investiu no público, incentivando a audiência a ver filmes nacionais. Até comerciais na TV, em horário nobre, sobre o cinema nacional, foram produzidos.

Parece que finalmente o cinema nacional vai decolar e entrar para o circuito internacional de filmes. Bom, cinema nacional é o caralho. Meu nome agora é panelinha da Globo, porra! É ridículo que atores, diretores, equipes, escritores e roteiristas tenham de vender a alma pro diabo para fazerem o cinema decolar. Fico muito feliz e grato por ver o Homem do Ano com roteiro de Rubem Fonseca, aliás pai do diretor do filme, José Henrique Fonseca. Por outro lado, virá o momento em que a Globo enlatará nossos filmes, como fez com toda a produção televisiva da empresa. E além disso, alguém ouviu falar em ajuda ou incentivo a produção de curtas metragens e documentários? Mandem o link, se acharem. Fica mais do que claro que não é o cinema nacional que está sendo incentivado, e sim um grupinho fechado que concordou em fazer tudo para que a Globo continue recebendo sua parte em dinheiro. Tão logo a onda passe e não seja mais interessante, talvez você consiga ver algum filme nacional no Cine Belas Artes. Talvez.

Eu sempre fui fã e entusista do cinema nacional. E embora eu adore ver as produções nacionais serem aclamadas e receberem apoio e tecnologia para se tornarem pares de produções americanas, eu acho que ainda preferia quando tínhamos cara de cinema alternativo. Quando era com o cinema europeu que nos parecíamos e quando os grandes momentos do cinema brasileiro aconteciam nos olhos e cérebros de quem assistia o filme, e não com efeitos especiais, celebridades gostosas e indicações meramente políticas para prêmios do cinema americano.

No fundo, eu espero que Cidade de Deus não ganhe nenhum Oscar.

See ya

   19.2.04

OH! Dúvida cruel!

Percebo que sempre que aumento a freqüência de posts aqui no Quando Isso, aumenta também o número de visitantes. Não estou dizendo que fico contando quantos e quando meus visitantes vem, mas confesso que gosto de ver os números de visitas subirem, especialmente se coloquei alguma coisa que ache que realmente vale a pena ser lida.

Enfim, andei pensando em como o número de posts afeta o número de visitas, mas também me ocorre que um número maior de posts acarreta em menor qualidade geral, já que muito me preocupo com a qualidade do que vem parar aqui na tela. Pouca manteiga espalhada num pedaço muito grande de pão.

Diante desta cruel e miserável dúvida, decidi recorrer a vocês, leitores, para tentar delinear os caminhos do Quando Isso Virar um Blog daqui pra diante.

Responda aí nos comentários o que você prefere:

  • Posts mais freqüentes, mas com qualidade nem sempre boa.

  • Posts mais esparsos (2, 3 vezes por semana), mas mais elaborados e pensados.

  • Posts mais freqüentes, mas mantendo a qualidade (se vira, mano; dá seus pulos, sangue!!).

  • Tanto faz eu não vou mais voltar nessa merda mesmo

  • Ahhh vai arrumar o que fazer, amigo, ao invés de ficar com essa bichice de blog


  • Outras alternativas criativas também serão bem-vindas.

    See Ya

    PS: perceberam que este, em si, já é um post de baixa qualidade com a função de preencher dias e aumentar a freqüência dos posts?

       18.2.04

    O post que virou frase

    Entre muitos textos que imaginei escrever aqui sobre como tudo parece todo dia sempre igual, e como anda monótona de verdade a vida e as coisas que acontecem no mundo, só sobrou uma frase.

    É tudo tão igual, que eu nunca sei se vou dormir hoje e acordar amanhã ou ontem.

    See Ya

       17.2.04

    Da série: coisas que você NÃO deveria enfiar na bunda

    Ouvi, certa feita, de uma amiga minha, que trabalhava num hospital, sobre um incidente ocorrido que marcou a vida dela e também a minha e a de certo Leiteiro Morto Vivo, quando soubemos da história, a princípio, real.

    Ocorreu que um saltitante e curioso casal gay decidiu colocar à prova sua capacidade imaginativa, assim como suas extremas vontades de conhecerem novas sensações. Um deles, brilhante, teve a idéia de experimentar colocar um pequeno rato, que aqui chamaremos de Topolino, na cavidade retal de seu parceiro. O outro, tão brilhante quanto, aceitou.

    Pois encontraram um funil adequado (como se houvesse algo assim) e o posicionaram precisa e firmemente enfiado na bunda do criativo e corajoso aventureiro do arco-íris. A seguir, a tão singela criatura, prestes a enfrentar o pior pesadelo de sua vida, foi colocada nas bordar do funil e tocado para o interior de outras bordas. Pensando bem eu acho que deveríamos chamar o rato de Frodo, o portador do Anel.

    Tentemos agora entender o que se passou com o rato, que envolvido num clima de tensão, somado ao local de extremo mal cheiro (o lobo olfativo de um rato é 20 vezes maior do que o de um ser humano, proporcionalmente, claro, e felizmente para a integridade anal de nosso intrépido herói), e ainda por cima em temperaturas acima das costumeiras, assim como numa escuridão total, decidiu fazer o que qualquer rato faria: roer e cavar para encontrar uma saída.

    Daí que houve um imediato "constrangimento intestinal" nas paredes internas do reto de nosso entusiasmado herói, que começou a sentir muitas dores e passou do estágio de "nova experiência" para "pesadelo escatológico". Em início de desespero, ele pediu que seu brilhante parceiro retirasse logo a insana critura de dentro dele. Contudo, o parceiro havia esquecido que cu não é túnel e por isso não tem sistema de ventilação ou iluminação. O rato, muito pequeno, poderia estar perdido para sempre no interior do exasperado herói.

    Dando (ui!) continuidade a uma sequência de brilhantes idéias, o parceiro de nosso herói decidiu então utilizar-se de um isqueiro para tentar jogar alguma luz sobre esta questão. Só que o gênio certamente não se lembrou de algo que considero conhecimento crucial para gays: através do ânus liberamos gás metano produzido e armazenado em nossos intestinos, gás este que é inflamável.

    Quando o rapaz, tal qual um portador da tocha olímpica, aproximou-se da pira de seu companheiro, a reação foi imediata e junto a uma lufada de fogo, que se espalhou por boa parte do interior do reto de nosso heróis, o Topolino em chamas foi expelido e expulso em alta velocidade. Além disso, a labareda resultante do processo atingiu o rosto de nosso gênio de plantão, que chegou ao hospital, minutos depois, com a cara chamuscada e um namorado com muito fogo no rabo. Ao pobre Topolino restou apenas o Reino dos Céus, onde ele descansará imerso numa banheira de cândida.

    Como disse antes, eu ouvi isso de uma amiga e não posso atestar a veracidade dos fatos. Contudo, não vejo motivo para inventar algo assim. Outra coisa importante: nunca fui contrário ou inimigo de qualquer manifestação de amor homossexual. Até pelo contrário, eu incentivo todas essas manifestações, quando feitas por vontade própria e com muito prazer. Só que enfiar um rato na bunda nada tem a ver com ser gay ou não. Isso é muito mais uma questão de burrice.

    Bichos escrotos, saiam dos esgotos.

    See Ya

       14.2.04

    Robert Paulsen

    Tal qual Chaplin em Tempos Modernos você repete todo dia as mesmas coisas. As variações são tão restritas e tão conhecidas, que você pode classificar seus dias. Você sabe a que horas vai jantar, ou a que horas vai chegar em casa. Até mesmo o caos dessa maldita e cinzenta cidade faz parte da conta. Conta no cronograma. Grama pesada exata chata reta data certa no seu calendário.

    Dê o nome de uma figura geométrica pra sua vida.

    Aposto que você disse quadrado. Dado marcado parado sentado gelado. Ou então disse círculo. Redondo vicioso oblongo. Você não disse icosaedro. E se disse é criativo. Ou nerd. Se você não pensou em nada e me mandou tomar no cú, passou no teste, mas é analfabeto. Cu não tem acento. Mas senta. E você tenta ser reto. Regula a glicose. Evita sifose lordose escoliose. Sabe o alfabeto. E a tabuada do 6. Tudo é sempre tão igual. História sem moral. Crime passional. Presente no Natal. Camisinha no Carnaval. Manda um beijo pro Amaral. Azia e sonrisal. Sexo manual. Nem sabe o que é de lado. Tá vendo? Quadrado.

    See Ya

       5.2.04

    Só um pouquinho infeliz

    Isso nem deveria ser um post. Embora o tema mereça um livro, mas só aqui dentro, só um livro interno.

    Contudo, em tempos em que venho me sentindo burro e incompetente, expressar isso para um número maior de pessoas do que aquela que eu vejo no espelho faz bem ao ego.

    Hoje entrou no ar meu primeiro aplicatico escrito em Java. Nem é completamente meu, pois eu só ajudei a construir, já estava meio pronto. Mas mesmo assim, todo o trabalho de registro da servlet e a pesquisa sobre o drive que conecta com o banco de dados absurdo que temos aqui é meu. Tá valendo.

    Uma migalha ainda é um almoço pra uma formiga.


    ******************************************

    Minha mãe saiu hoje do hospital. O coração permanece forte. Ela permanece viva e valendo 5 mil reais a mais (valor da "molinha" que ela colocou numa das artérias durante a angioplastia). Em termos gerais, claro. Não há qualquer número que você possa multiplicar por 5 mil que vá resultar num montante maior do que o valor que ela tem pra mim.

    Só queria que ela se cuidasse mais.

    Mãe, eu te amo.

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    Apesar de toda a chuva e de toda minha falta de vontade, tenho vencido bravamente, a cada dia, a luta contra a minha casa, ou minha própria luta pra conseguir lidar com a vida de pessoa independente e adulta.

    Nem sou completamente adulto, nem completamente independente. Nem totalmente burro, nem totalmente incompetente.

    Pelo menos rimas fracas eu sei fazer.

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    Era isso. Podem ir.

    See Ya

       3.2.04

    O Ciclo da Água

    Antes que perguntem, esse post não está ligado ao fato de minha casa ter sido invadida por águas represadas no telhado por causa da calha entupida. Mas, de uma forma ou de outra, já tenho reparado há um bom tempo no aumento da milimetragem das águas das chuvas e no proporcional aumento dos avisos e alarmes sobre o racionamento de água em São Paulo. Certamente vão me chamar de paranóico e exagerado, ou ainda dizerem que chover na capital não tem nada a ver com o volume de água de nossos reservatórios, mas nada me tira da cabeça que nossa água não está indo para onde deveria.

    E essa desconfiança também fez com que eu lembrasse da época do Ciclo Básico (para os que não tem mais idade pra saber o que é isso, Ciclo Básico compreendia os 4 primeiros anos - primeira à quarta série - do que chamamos hoje de ensino fundamental), principalmente das aulas de Ciências, onde aprendíamos o Ciclo da Água. O tempo passou e muitas coisas mudaram, inclusive o ciclo da água. Resolvi então atualizar os conhecimentos dos meus leitores e reeditar o tal ciclo, numa versão um pouco mais ácida (e certamente não me refiro ao pH das chuvas).

    Evaporação

    O ciclo da água começa lá longe, nos mares e oceanos, onde a água evapora e sobe na direção das nuvens. Na verdade as geleiras andam participando deste processo também, dado que a temperatura global anda subindo mais de 1 grau Celsius por século. Além disso, o ciclo do petróleo também está envolvido no assunto, pois além do produto final da queima da gasolina, o monóxido de carbono, também subir junto com a água, centenas de barris de petróleo sobem aos céus todos os dias nas piras que surgem no Iraque.

    Condensação

    Quando chega a alturas enormes, hoje em dia "mais enormes" ainda,também por causa do aquecimento global, a água é resfriada e transforma-se em gotículas de água que carregam as nuvens e as deixam a ponto de desabar. Contudo, a água chega acompanhada no monóxido de carbono e muitos outros gases, alguns dos quais prontos pra reagir com ela. Toda essa mistura, que ainda é banhada pelos violentíssimos raios ultravioletas que não são barrados pela camada de ozônio acaba aumentando o pH das gotículas formadas, deixando-as mais ácidas.

    Precipitação

    Quando a carga de água está muito grande nas nuvens, o peso acaba puxando as gotículas para baixo e aí começa a chuva. Não preciso dizer que como as nuvens tem se formado num patamar mais alto do céu, as chuvas se tornam mais violentas e perigosas. Além disso, as águas começam a descer cada vez mais em centros urbanos, pois a poliuição e o aumento de temperatura provocam uma evaporação indevida, e isso contribui.

    Despreparo

    Nos centros urbanos outro ciclo começa - o da estupidez - quando políticas de saneamento estão sendo tomadas, mas apenas agora, tardiamente. Ou quando pessoas jogam lixo e mais lixo nas ruas, córregos e entradas de esgoto. Diferente das águas, o lixo não evapora e vai pro céu. Ele decanta e vai pra baixo para o leito dos rios e os fundos das galerias pluviais. Já ouvi dizerem que São Paulo precisa de 40 piscinões pra combater as chuvas - hoje tem 14 - e eu digo que com todo o lixo deixado na rua, 40 será pouco.



    Subida

    Aqui seria o ponto onde as águas que chegam ao chão escorrem para lagos, rios e depois voltam ao mar. Besteira. Nesse momento as águas entram em casas, levam carros, levam pessoas a TV para xingar a administração atual pelos estragos, levam telhas do metrô pra fazer uma baldeação e levam um tempão pra ir embora. Só que acabam indo, e deixando pra trás muita coisa destruida e lixo, que volta para as ruas, fechando o ciclo da estupidez, mas não o das águas.

    Transporte

    Antes ainda de voltar aos rios, represas, lagos e mares, boa parte da água passa por gigantescas e inimagináveis estações de tratamento, todas muito bem guardadas e com processos pouco esclarecidos. É nessa etapa também que caminhões poderiam, vejam bem, poderiam levar parte da água tratada para bem longe de nossos reservatórios e rios e lagos e mares. Se alguém tem interesse nisso eu não sei, mas em muito pouco tempo água potável pode ser um artigo raro e certamente já existem nações se preparando - com a água dos outros - para esta época. É também nessa fase que os níveis de nossas represas não sobem.

    Racionamento

    Fase final do ciclo da água, onde nós temos de pagar pela falta de água, sendo que a água tratada não chegou, a evaporada chegou violenta e destruindo tudo e a única água que sobra mesmo é aquele fundinho que ficou nas represas. Não se surpreendam se o racionamento tornar-se normal e ainda vier um expert dizer que isso significa que a água potável do mundo está acabando. E mesmo que acabar, não se preocupem, pois europeus e americanos sempre terão um pouco de bondade e água límpida, clara e brasileira para nos vender.

    See Ya