13.11.06

Kinetos

O vídeo abaixo é o trailer do meu mais novo filme. É o terceiro curta que produzo, e até agora, o melhor. O lançamento rolará em breve, mas por hora, curtam o trailer.





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   2.11.06

Despojos

Deixou de lado o último crânio, ainda umedecido por sua saliva, e escalou a pilha de ossos. Do topo viu as luzes vermelhas e as tropas se aproximando. A floresta de aço retorcido projetava sua sombra sobre sua posição, e isso seria suficiente para protegê-lo, por hora. Desceu do monte ossário e apanhou um fêmur, o mais robusto que encontrara.

Caminhou ao largo do vale seco, orientando seus passos para longe das sirenes e estopins atrás de si. Por um segundo lembrou-se que já soubera o que é Efeito Doppler. Então viu sombras moverem-se mais abaixo, nas profundezas do antigo rio. Deitou-se rapidamente, reconhecendo no vibrar do solo o ronco dos veículos das tropas. Haviam se movido pelo vale, o que era óbvio. Com mais espaço e terreno aberto, chegariam aos fossos em breve. Fim.

Levantou e correu, ouvindo os zunidos dos disparos sobre sua cabeça. Avistou o Tronco e desceu desesperado, mais para dentro do vale. Para mais próximo de seus algozes, mas onde sabia que haveria uns bons quilômetros de rochas por onde poderia correr e se proteger ao mesmo tempo. Na terceira pedra sobre a qual correu, deixou sangue de sua perna. Os músculos não queriam mais responder. Veio o segundo baque e o acertou nas costas. Foi ao chão e só teve chance de girar sobre seu próprio peso para se jogar numa das frestas da escarpa rochosa. No fundo bateu a cabeça e lembrou-se do crânio que devorara, minutos antes. Escuridão.

Quando despertou estava vendo o bloco rubro-cinzento que costumava chamar de céu. Algo incidia de forma dolorosa em suas costas, na altura dos rins. Tateou ao seu redor e retirou o que o estava ferindo: uma lata vermelha, desbotada, com um "C" branco que iniciava uma palavra já há muito tempo apagada. Estava num dos depósitos. Mas não fazia idéia de como chegara lá. A perna ferida ardia e pulsava, mas a costas estavam bem. Calculou que não fora atingido por uma bala no segundo impacto, mas antes de poder se certificar, viu um vulto crescer ao seu lado.

A pele negra esverdeada brilhou na luz vermelha que vinha de longe. O corpo longo e forte exibia um de seus braços erguidos, com uma arma feita de ossos pronta para desferir-lhe um golpe. Teve tempo de usar a lata para aparar o golpe, forte e preciso. Sentiu alguns dedos entortarem, mas não hesitou em pegar a arma que fora ao chão. Ergueu a arma para se proteger, mas o inimigo não atacou. Paralizou-se com a arma em punho e olhou seu opositor. Os olhos esbranquiçados do outro fitavam-no, piscando de vez em quando. Estava no ninho de outro come-ossos. O longo tempo de contemplação não durou muito. Viu as luzes vermelhas saírem de trás dos destroços do ninho. Seu oponente olhou por sobre os ombros e tentou correr, mas seu crânio espatifou-se com a força dos disparos das tropas que avançavam, mais uma vez. Sentiu pena e rancor do come-ossos que o salvara para salvar seu almoço e agora perdera o próprio crânio. Pena: parecia apetitoso.

Baixou a arma e esperou o desfecho, mas ele não veio. Dois blindados o agarraram e arrastaram. Chegou tão perto de um deles, que sentiu o cheiro metálico da armadura arranhada e envelhecida. Sentiu a picada no braço e tentou escapar, mas as mãos hidráulicas não permitiram. A queda da pressão, como soubera um dia, fez com que vomitasse algo amargo e verde. Desfaleceu.

Viu, quando acordou, os fossos, bem abaixo, ardendo em chamas e balas. Pensou nos mortos. Pensou nos sobreviventes. Pensou no que seria e pensou, acima de tudo, no que mais o incomodava: por que ele? Apagou.

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   1.11.06

De que você tem mais medo?

Tarde da sexta-feira passada. Estava eu a caminho da faculdade, no lento trânsito da Cardoso de Almeida (Perdizes, bairro de São Paulo), quando olhei para a calçada à minha esquerda e vi, nas costas da camiseta de um cara, escrita em letras garrafais, a pergunta "What do you fear the most?".

Se eu fosse uma pessoa menos estranha, não seria nada demais. Só que isso foi o início de uma looonga conversa comigo mesmo -- lembrem-se que o trânsito estava ruim :-)

Comecei a pensar no que seria meu maior medo. Morte? Não. Acho que morrer, desde que não seja de forma excruciante, não deve ser tão ruim. E como acredito em vida após a morte, talvez até seja interessante.

Solidão? Também não. Gosto de ficar comigo mesmo, morei sozinho durante anos e curto o silêncio não-imposto.

Falta de grana? Não acho. Tenho algum medo, sim, de ser dependente; mas não é meu maior terror, porque as diferentes experiências de vida em diferentes lugares me fizeram conhecer diferentes maneiras de lidar com essa questão.

Passei por algumas outras possibilidades e nenhuma delas me satisfez. Até que, alguns metros adiante, cheguei a uma possibilidade: acho que meu maior medo é o medo da irrelevância. De passar por este mundo, por esta vida, sem ter feito nenhuma diferença.

Ainda embalado por esse pensamento, segui para a aula pensando em como isso se consubstancia (adoro essa palavra!) no meu cotidiano. Pensei na carreira que escolhi -- ou que me escolheu, na verdade -- ainda quando eu era adolescente: ser professor. Ajudar a fazer a diferença na vida dos alunos e, hoje, de outros professores e coordenadores. Ampliando a idéia, ajudar pessoas à minha volta. E é assim que me sinto realizado e procuro escapar da irrelevância. Inclusive faz alguns anos que meu blogmate disse exatamente isso sobre mim, em público em um momento bem significativo. Fiquei muito alegre e, com a mesma alegria, coleciono outros exemplos.

Mas será que isso dá realmente sentido à minha vida? Será que eu quero acreditar nisso só para não ter que me confrontar com o inevitável vazio? Será?...

E no meio de todo esse turbilhão me sobreveio um insight: será que, na realidade, consciente ou inconscientemente, não é este o maior medo -- ou pelo menos um dos maiores -- de quase todo mundo?... Algumas manifestações me ocorreram como exemplo de tentativas genéricas de não "passar em branco":

* A busca da tal "celebridade", fenômeno crescente e cada vez mais abundante. Lembro-me que há algum tempo as pessoas corriam DAS câmeras em eventos e festas; hoje correm PARA elas. O projeto de vida é aparecer na Caras, no programa do Amaury Jr e nas colunas sociais. Preferencialmente em todas e muitas vezes.

* A aparente necessidade imperiosa de ter filhos. Vejam que adoro crianças, e justamente por isso tenho muita, muita pena quando vejo situações em que elas são na realidade as depositárias do sentido que os pais não vêem nas próprias vidas. Conheço alguns casos assim, e basta ligar a TV ou ler uma revista de fofocas para achá-los.

* Ainda nessa linha, a dedicação patológica, ou quase, a animais de estimação. Atire a primeira coleira quem não conhece pessoas que moram sozinhas e, quando vão a alguma festa ou happy hour, têm que sair correndo em um determinado horário porque "fulaninho (o cachorro) está sozinho".

* E há várias outras, sem juízo de valor: a gravidez na adolescência para ter algum reconhecimento (o de mãe); a dedicação integral e apaixonada a uma causa (política, meio ambiente, voluntariado); a entrega cega a uma religião; o "casamento" com o trabalho; e por aí vai.

Não passo de um leigo, mas pensando nisso me ocorreu uma teoria (lá vem!). Como somos cada vez mais bombardeados pela onipresente "mídia" com informação sobre como devemos ser, o que devemos comprar, a que "tribo" devemos pertencer, que música devemos ouvir, etc., acabamos perdendo a real noção da nossa identidade. E assim nos agarramos a algum referencial externo mais próximo e/ou acessível e/ou conhecido para adotá-lo como próprio, internamente. Tempos sombrios...

Talvez, só talvez, possamos ser mais felizes se tivermos a vontade, o tempo e o silêncio -- externo e interno -- necessários para olhar para dentro de nós mesmos (e não só para o outro) e descobrir quem realmente somos (vide posts anteriores sobre máscaras, rótulos, coexistência, e outros nesta linha -- o arquivo tá aí ao lado).

E talvez, só talvez, se nos conscientizarmos que somos uma parte individual de um todo coletivo, consigamos nos libertar um pouco daquilo que nos é imposto e chegar a uma escolha. A escolha de sonhar sonhos que sejam realmente próprios. A escolha de que lutas lutar e com que angústias pugnar. Afinal, "é no vazio da jarra que se colocam as flores".

Fim da história, tentando responder a pergunta da camiseta do cara: será que nosso maior medo é a gratuidade da nossa existência? Ando achando que o meu é...

PS: Não, não vou falar de política, apesar dos pedidos. Estou cansado e não estou a fim.

Olhos de Mosca

Estranho que agora eu só possa contar essa história pra você. Sempre achei que isso daria uma história para um bom livro. Guardei essa história na minha bagunçada memória, esperando um dia poder ver meu nome abaixo do nome que dei a ela, na capa de um livro. E agora somente você pode conhecê-la, embora eu saiba que você já a conhece até mesmo melhor do que eu, que a inventei. Porém, vou contá-la assim mesmo.

Como em muitas daquelas noites, eu me encontrava sentado junto a uma escrivaninha mal acomodada, meio apertada, abarrotada de livros, papéis, anotações, gavetas repletas de mais papel, outros livros, elásticos, canetas, borrachas, lápis e até de algumas revistas que minha idade, na época, tornava ilícitas, conseguidas a muito custo numa banca onde o atendente era um velhinho meio cego, e que mal enxergava o que eu estava comprando.

E mesmo sendo uma noite igual a tantas, foi diferente de muitas outras, pois nesse dia, ela chegou e pousou sobre a mesa, e ficou me observando enquanto eu sofria para concluir uma lição de casa de português, ou Língua Portuguesa, como minha professora diria. Soube que a carrasca morreu de câncer no cérebro. Lembro de ter visto uma foto dela num álbum de formatura, anos depois, mas o álbum tinha uma pequena e estranha mancha, exatamente sobre a testa de professora. Não consegui lembrar do rosto dela completamente.

Professoras mortas à parte, eu percebi que aquela mosca havia pousado na mesa e ficara me observando por mais de 30 minutos. Ela lavou as asas, as patas anteriores e posteriores. Lubrificou as patas e seu aparelho bucal. Coçou seu abdomén bojudo e esfregou os olhos. Fitou-me diversas vezes, como que tímida, mas parecia confiar em mim e saber que eu não iria esmagá-la entre duas páginas de um livro ou sequer espantá-la de seu local de saneamento. Ela estava certa, eu não iria. Termimou seu banho, ensaiou um olhar direto, mas desviou seus milhares de olhos quando eu a encarei. Deu uma última chacoalhada e vôou.

Voltou na noite seguinte.

Algumas pessoas dizem que moscas vivem apenas 24 horas em sua fase adulta. Talvez não fosse a mesma mosca. Talvez uma irmã, ou filha. Entretanto ela pousou na mesa para um delicioso banho e lavou-se na mesma ordeira e precisa sequência. Nessa noite eu comia um pedaço de pão doce, e deixei cair, de propósito, uma pequena lasca perto dela. Como que entendendo minha intenção, a visitante alada não partiu, mas também não provou da iguaria oferecida por mim. Terminou seu banho e se foi, dando um rasante sobre o livro de geografia.

Na próxima noite eu fui para o quarto fazer minha lição um pouco mais tarde do que de costume. Acendi a luz quente e amarelada e a vi. Estava novamente sobre a escrivaninha, mas dessa vez deleitando-se com a lasca de pão doce que ficara sobre a mesa desde a noite anterior. Aproximei-me e ela não se incomodou. Aproveitei o ativo e dedicado momento de sua alimentação, para pegar uma lupa que estava em uma das gavetas e observá-la mais atentamente.

Sua cabeça era um amontoado de minúsculos olhos vermelhos. Ela podia me ver fazendo aquilo, certamente, mas preferiu se deixar obervar. Entre nós já não havia quase tensão, e também percebi que ela gostava de ser olhada, dada a forma como levantava e exibia suas brilhantes asas para mim, deixando a mostra seu grande abdomen amarelo de aspecto purulento. Abaixo de seus olhos vi sua boca, ou melhor, seu aparelho bucal. Através dele ela estrategicamente regurgitava parte de sua saliva, parte de outros sucos digestivos sobre a lasca de pão que, aos poucos, se tornava uma massa branca e disforme, sendo corroída pelo humor ácido saído de seu predador. Enfim, sem a menor cerimônia, ela começou a lamber o monte de vômito e pão que havia feito. Lambia com tal avidez e precisão que parecia mesmo se deliciar. Suas asas tremiam de excitação e seus milhares de olhos brilhavam e lampejavam sob a luz do meu quarto. Por alguns segundos eu mesmo tive vontade de provar da especiaria que estava sendo externamente digerida sobre minha escrivaninha. Senti-me estranho com tal desejo repentino, e o repeli, mais por respeito a minha recém adquirida amiga do que por nojo, propriamente dito.

A refeição foi breve, e depois daquilo ainda nos observamos por alguns minutos. Estiquei meu dedo até próximo dela. Eu pensava se ela estaria entendendo minha mensagem, se estaria ouvindo meus pensamentos que diziam para ela se aproximar. Estávamos absortos naquele momento estranhamente íntimo. Mesmo sem a lupa eu podia vê-la me olhando nos olhos. A imensidão vermelho escura de milhares de olhares me fitando foi tomando conta de mim, e eu apenas queria que ela se aproximasse. Ela não era maior que uma de minhas unhas, mas mesmo assim surpreendeu-me quando deu um passo - na verdade, um salto - em minha direção. Repentinamente eu recolhi minha mão num movimento brusco. Assutei-a, e ela saiu voando. Cruzou a frente do meu rosto e tornou-se uma silhueta diante da luz da lua, antes de deixar meu quarto.

Naquela noite sonhei que centenas de moscas andavam sobre meu corpo, como que tentando me conhecer melhor, me ver melhor em seus olhos e me sentir melhor sob suas patas. O mais estranho é que foi um sonho bom.

See Ya

PS: Esse texto foi originalmente publicado no Quando Isso Virar Um Blog em abril de 2004. Em homenagem ao novo visual do blog, e também porque gosto demais desse texto, republico-o hoje.