16.2.07

Remoto

Deitado em sua cama, há horas, simplesmente olhando para o teto, não conseguia dormir. Ao lado da cama, fingindo não dar atenção ao seu sofrimento e agonia, o relógio continuava a marcar suas horas e seus minutos. Tiago sempre acreditara que em algum momento muito remoto no passado, algumas pessoas haviam feito um pacto com os relógios, no qual ficara combinado que os humanos dariam seus segundos e minutos e horas para os relógios, gradualmente ficando sem eles, até que não os tivessem mais. Em retorno, os relógios poderiam mostrar aos humanos quanto do seu tempo fora gasto, e portanto, quanto tempo ainda restaria a ser entregue aos relógios.

Mas relógios, pérfidos e ardilosos, existiam em menor quantidade que humanos, e passaram a acumular tempo de diversas pessoas em suas compassadas e intermitentes entranhas, e logo um humano não sabia mais quanto tempo tinha cedido a um ou mais relógios, e portanto, jamais sabiam quanto tempo ainda restava.

"Escravizaram-nos", pensou Tiago, em voz alta.

No quase-silêncio de seu quarto, procurou aproveitar cada sílaba que pronunciara. Sentiu o som escapolir de sua boca, de sua mente. E fazendo força pra escutar as últimas reverberações de seu discurso para o nada, terminou por ouvir algo vindo do teto. Um zunido, a princípio. Um amargo e lento zunido, tomando forma em pequenas e rápidas alterações de tom.

"Uma voz. Não! Duas vozes", pensou novamente, mas dessa vez sem propelir oxigênio de seus pulmões. Quieto, como pronto para dar o bote, Tiago entendeu que o casal que morava no apartamento de cima estava discutindo, brigando. Fechou os olhos e se concentrou em tentar discernir alguma palavra, algum xingamento, algum insulto, mas o som desapareceu. Quase tomado de tristeza por ter perdido a quase-companhia que acabara de ganhar, abriu os olhos, procurando no teto certa esperança. E antes que pudesse cessar as buscas, voltou a ouvir a discussão. Deviam estar perto da janela, agora, mas Tiago não pensou nisso. Não pensou em nada, para não afugentar o som.

"Você acha que eu sou cego? Que não vi vocês trocando olhares na pista?", disse ele. A voz era irritada, muito irritada. Máscula e irritada. Quase-descontrolada. Um sussuro ainda mais baixo, um choro, era proferido pela contraparte da discussão.

Um barulho seco e agudo. "Isso é pra você deixar de ser vagabunda! Sua piranha!".

Tiago não movia um músculo. O choro aumentava de volume e intensidade, e de alguma forma Tiago imaginava que o choro estava sendo abafado. Talvez um travesseiro. Talvez.

"Não faz essa cara de coitada, não. Se você acha que estou te maltratando, você vai ver o que vou fazer com aquele filho da puta, amanhã. Não, senhora, vem cá!". E um barulho de queda, de tombo, vibrou no teto. Pés de cama arrastados. O choro abafado lentamente transformando-se em um choro de medo e agonia. Mas ainda abafado. Não era um travesseiro. Talvez um mordaça?

Tiago não se sentia confortável. Uma fraca dor de cabeça pronunciava-se nas têmporas e o suor do corpo transferindo-se para o lençol mal estirado dava uma sensação de leve formigamento. A cada pequeno mover da cama, no andar de cima, com força, com raiva, o choro oscilava. O ritmo compassado da cama, do amortecer do colchão trouxeram à mente do garoto um pensamento libidinoso. Ruborizou e o suor continuou a escorrer-lhe pelo corpo, enquanto o entumescimento dentro de sua bermuda velha e confortável tornava-se visível. Foi trazido de volta do pequeno delírio momentâneo por um barulho mais estridente, como um tapa. O pequeno choro virou-se em grito. Sem perceber porque, Tiago sentou-se na cama. Sua dor de cabeça aumentava.

"Gostou, né, vadia? Agora vamos tomar banho, e você vai ver o que é bom!". O choro ainda abafado foi acompanhado de outro baque, que lembrou Tiago das peças de carne que ele jogava nos balcões de madeira do frigorífico antes de lavá-los. E assim como no frigorífico a peça de carne foi sendo arrastada. Ele podia sentir o atrito do corpo da garota contra o solo, percorrendo em diagonal o quarto, enquanto ela parecia se debater, isso sim, felizmente, diferente das peças do frigorífico.

Seguiu o movimento com os olhos, pelo teto, mas uma inquietação fazia suas mãos formigarem. Aquilo não parecia ir nada bem. Seus olhos foram percebendo o diminuir do som, e seus ouvidos anteciparam o barulho liso, frio e duro que viria logo depois, quando seus olhos encontraram a porta do banheiro, no canto do quarto. Levantou-se, mas a tontura o fez sentar-se novamente. Segurou-se na cama, arfando, suando, ouvindo e sentindo suas têmporas latejarem. Ouviu a porta do banheiro bater, como um impulso para colocá-lo de pé. Olhou para o telefone, que como o relógio, fingia não presenciar nada daquilo. Pensou em chamar a polícia. Levantou-se e ouviu o barulho de água enchendo algo que todos os banheiros do prédio tinham em comum: uma banheira. Ouviu uma pancada contra a pedra da banheira. Uma joelhada talvez, ou uma cabeçada. Sentiu náuseas e precipitou-se para o banheiro.

Acendeu a luz do cômodo azulejado de branco com flores amarelas e olhou para a banheira, enquanto ouvia gemidos e gritos mais abafados ainda, quase-borbulhantes. O barulho da água sendo remexida não o deixava ouvir direito. Respirou fundo e foi até a pequena janela, quando ouviu o arfar da garota, como que saindo de um longo e desagradável passeio sob a água.

"Não me machuca mais, por favor.. não me mata!", chorou ela. Ouvia os pingos que desciam do rosto da menina e chegavam à superfície e tentava imaginar quantos daqueles eram lágrimas. E antes que pudesse adivinhar, ouviu o grito dela sob a água: sufocante, asfixiante, agonizante. Os pés e pernas debatendo-se contra o azulejo num bizarro, veloz e agoniante sapateado.

"Agora você nunca mais me trai, sua vaca!". Tiago repetiu a fala do homem, balbuceando e sentindo um calor que percorria sua espinha. Precisava ajudá-la, e tentaria fazê-lo antes que sua cabeça explodisse em dor.

Saiu correndo pela porta do apartamento, desesperado, ainda meio tonto, e subiu as escadas. Tentava não fazer barulhos nas velhas escadas de madeira, para que o barulho não o fizesse deixar de escutar a pobre garota se afogando e tentando buscar o ar em seus últimos alvéolos. Parou diante da porta e só então se deu conta que estava apenas de cuecas e que não havia trazido sequer uma faca de cozinha para se defender, caso o insano homem tentasse juntá-lo ao destino de sua quase-morta namorada.

Balançando a cabeça para arrancar essas preocupações - e a dor - ele se afastou da porta e se preparou. Deu dois passos rápidos e socou a porta, forte, alto, rápido. Ainda podia ouvir os frágeis pés da garota tentando arrancar algum atrito do chão liso do banheiro. Socou de novo.

"Droga! O que eu estou esperando? Que ele abra educadamente a porta?", falou baixo para si mesmo, e afastou-se novamente na intenção de correr e arrombar logo a porta. Percebeu alguém saindo de outro apartamento, mas não intimidou-se. Preparou-se e ergueu a perna para desferir o golpe na porta. Ouviu então o ferrolho da porta abrir-se. Ouviu o som da maçaneta girando. Ergueu a faca, por impulso, para atacar o maníaco de mãos molhadas e braços fortes que encararia num segundo. O vão entre a porta e o batente começou a surgir e aumentar, mostrando uma fraca luz amarelada que vinha do apartamento e em seu caminho iluminava o tísico e frágil rosto de uma senhora.

"Pois, não? Quem é? O que está acontecendo?", o ensonado rosto perguntava.

"O homem, o homem! No banheiro. Vai matar a garota!". Em sua ânsia, Tiago não percebeu que a senhora era quase-cega.

"Que homem? Eu vivo sozinha aqui!", retrucou ela.

"Mas.. mas..", Tiago olhou para o chão e antes de cair de joelhos e desmaiar, ouviu, dentre as escuras e tortuosas fendas do assoalho, a quase-voz borbulhante e abafada da quase-garota cessar, e o decisivo baque de suas quase-pernas contra o quase-chão quase-molhado e quase-frio e quase-liso e quase-real.

See Ya

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