10.3.07

Claridade

A batida ritmada e frequente reverberava pela pista, e assim, através do seu corpo. Procurara por ela a noite toda, na pista, no bar, na varanda, nas escadas. Até na saída do banheiro. Havia visto seu tranquilo rosto nas faces embriagadas de centenas de garotas naquela noite, mas vez após outra, eram apenas alucinações. De qualquer forma, toda a bebida e o cigarro não o estavam ajudando.

No fundo de sua mente sabia o que procurava: sexo. De uma forma como nunca quisera antes: sujo, rápido, sem sentimentos ou preocupações. Mas algo obliterava sua mente e sua visão. E fossem as drogas ou os hormônios, não podia fazer nada a não ser procurá-la, ou imaginá-la no corpo de todos ao seu redor.

E no momento em que a primeira lágrima ameaçou jogar-se de seus mórbidos e tristes olhos, ela apareceu. Ali mesmo na pista, dançando como se seu próprio corpo fosse a música. Ainda indeciso, por não saber se era outra alucinação, ele aproximou-se. Mas o olhar que ela lançara em resposta a sua esperançosa busca era inconfundível. Parecia até espanto, de certa forma.

"O que você está fazendo aqui?", ela disse, quase sussurando, embora ele ouvisse muito claramente suas palavras.

"Te procurando!"

"Você devia estar morto!", pela primeira vez ela parecia vacilar em sua impecável forma, em sua extrema e antiga sabedoria.

"Eu sei. Foi o que te pedi. Mas não estou, essa é a verdade". Beijaram-se violentamente.

"Então é isso. Você não está morto. Sinto muito, mas agora não há muito o que eu possa fazer."

"Não pode ser. Você me prometeu, mas já faz uma semana e eu só me sinto mais forte"

"Sinto muito mesmo, mas agora é tarde."

"Não, não.. não me deixe sozinho aqui. Eu estou com medo e com frio. Eu quero... eu quero."

Ela agarrou-o e o pressionou contra a parede. Braços e sombras fundindo-se numa dança macabra e feia.

"O que você quer?", ela indagou, e havia sangue em seu olhar.

"Alguma claridade", respondeu enquanto sentia seus caninos avantajarem-se sobre sua língua. "Eu só quero claridade"

Ela sorriu, e agora seus caninos também estavam visíveis, brancos e longos. Mortos e sedentos. "Então você terá. Mas do mundo que conheceu nada restará e a vida que tanto desprezou, terá de suportá-la etenamente, agora". E o abraçou.

E o restante ninguém viu, mas em seu coração imortal e sombrio ele guardou aquele momento pra sempre.

See Ya

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