2.11.06

Despojos

Deixou de lado o último crânio, ainda umedecido por sua saliva, e escalou a pilha de ossos. Do topo viu as luzes vermelhas e as tropas se aproximando. A floresta de aço retorcido projetava sua sombra sobre sua posição, e isso seria suficiente para protegê-lo, por hora. Desceu do monte ossário e apanhou um fêmur, o mais robusto que encontrara.

Caminhou ao largo do vale seco, orientando seus passos para longe das sirenes e estopins atrás de si. Por um segundo lembrou-se que já soubera o que é Efeito Doppler. Então viu sombras moverem-se mais abaixo, nas profundezas do antigo rio. Deitou-se rapidamente, reconhecendo no vibrar do solo o ronco dos veículos das tropas. Haviam se movido pelo vale, o que era óbvio. Com mais espaço e terreno aberto, chegariam aos fossos em breve. Fim.

Levantou e correu, ouvindo os zunidos dos disparos sobre sua cabeça. Avistou o Tronco e desceu desesperado, mais para dentro do vale. Para mais próximo de seus algozes, mas onde sabia que haveria uns bons quilômetros de rochas por onde poderia correr e se proteger ao mesmo tempo. Na terceira pedra sobre a qual correu, deixou sangue de sua perna. Os músculos não queriam mais responder. Veio o segundo baque e o acertou nas costas. Foi ao chão e só teve chance de girar sobre seu próprio peso para se jogar numa das frestas da escarpa rochosa. No fundo bateu a cabeça e lembrou-se do crânio que devorara, minutos antes. Escuridão.

Quando despertou estava vendo o bloco rubro-cinzento que costumava chamar de céu. Algo incidia de forma dolorosa em suas costas, na altura dos rins. Tateou ao seu redor e retirou o que o estava ferindo: uma lata vermelha, desbotada, com um "C" branco que iniciava uma palavra já há muito tempo apagada. Estava num dos depósitos. Mas não fazia idéia de como chegara lá. A perna ferida ardia e pulsava, mas a costas estavam bem. Calculou que não fora atingido por uma bala no segundo impacto, mas antes de poder se certificar, viu um vulto crescer ao seu lado.

A pele negra esverdeada brilhou na luz vermelha que vinha de longe. O corpo longo e forte exibia um de seus braços erguidos, com uma arma feita de ossos pronta para desferir-lhe um golpe. Teve tempo de usar a lata para aparar o golpe, forte e preciso. Sentiu alguns dedos entortarem, mas não hesitou em pegar a arma que fora ao chão. Ergueu a arma para se proteger, mas o inimigo não atacou. Paralizou-se com a arma em punho e olhou seu opositor. Os olhos esbranquiçados do outro fitavam-no, piscando de vez em quando. Estava no ninho de outro come-ossos. O longo tempo de contemplação não durou muito. Viu as luzes vermelhas saírem de trás dos destroços do ninho. Seu oponente olhou por sobre os ombros e tentou correr, mas seu crânio espatifou-se com a força dos disparos das tropas que avançavam, mais uma vez. Sentiu pena e rancor do come-ossos que o salvara para salvar seu almoço e agora perdera o próprio crânio. Pena: parecia apetitoso.

Baixou a arma e esperou o desfecho, mas ele não veio. Dois blindados o agarraram e arrastaram. Chegou tão perto de um deles, que sentiu o cheiro metálico da armadura arranhada e envelhecida. Sentiu a picada no braço e tentou escapar, mas as mãos hidráulicas não permitiram. A queda da pressão, como soubera um dia, fez com que vomitasse algo amargo e verde. Desfaleceu.

Viu, quando acordou, os fossos, bem abaixo, ardendo em chamas e balas. Pensou nos mortos. Pensou nos sobreviventes. Pensou no que seria e pensou, acima de tudo, no que mais o incomodava: por que ele? Apagou.

See Ya

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