15.6.23

Viver chorando

não há na alma mais nenhuma paciência.
e nem espaço para o riso, para o dia.
mas para o luto, para o choro e a noite.
é larga e ampla a escura pradaria.

que se saiba que aqui jazia um corpo.
que imóvel, abobalhado, sorria a tudo.
que agora, a chacoalhar-se, habita um louco.
que se move, a debulhar-se, taciturno.

de seu jardim foi arrancada uma rosa.
macia, linda, delicada, preta e pura.
de uma vida que se foi só resta a culpa.
da ignorância irresponsável e ceifadora.

não há remorço da alegria que esteve.
nem do vivido, do sentido, da entrega.
só resta raiva, ódio, choro, luto e pedras.
além da culpa lancinante que carrega.

se fora claro, agora não há mais vestígio.
foi sofrer longe, numa grota, uma caverna.
sob mil pedras, afastado, escarnecido.
viver chorando e na solidão eterna.

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7.7.14

Em ordem

Há tempos estou fora de ordem. Em desordem, por assim dizer. Um sentimento oscilante, como o pêndulo que conta os minutos até meu ultimo suspiro. Um vai-e-vem de vontades, de chances, de obrigações e do mais completo desespero por ver os momentos avançando sobre o precipício sem ao menos conseguir voltar os olhos pra baixo e contemplar a escuridão.

A contemplação ficou em algum lugar. O olhar vivaz e agitado, mas cuidadoso, há tempos se foi. E deixou apenas aquela sequência absurda e rápida de movimentos oculares, que não vê e tampouco aprecia. Os pensamentos, que pensava eu estarem bagunçados, estavam na mais perfeita ordem, e agora, por mais que eu faça força (mas não faço) parecem mais um calhamaço desajeitado e velho, sem índices, sumários, capa e contra-capa.

Não haveria mesmo de sobrar muita coisa, dada a vertiginosa queda sobre mim mesmo. Não há sequer o estampado do meu corpo sobre o solo, como um resquício de bomba nuclear, como um tempo amarelado e escasso numa foto velha. As verdades e as dúvidas e as vontades e os medos espremeram-se enquanto cresciam, ou enquanto eu diminuía. E o que resultou foi um amargo amálgama, o extrato de nada que reside entre as vísceras e a alma. Restou o que sou agora e nem mesmo sou alguma coisa....

Forças não restam, mas o comportamento repetitivo, este sim, ficou. Como um pombo supersticioso, me mantenho ordenando coisas, encaixotando-as, tentando dar sentido a palavras e nomes, tentando fazer com que os poucos pixels que se arrastam pela tela exprimam ordens que não cumprirei, sentimentos que não entenderei e vontades que atropelarei e deixarei morrer no meio-fio, como um cão perdido, manco e de olhar triste e consternado.

Rendi e despedacei todos os alvos artificiais que me mostraram e que me convenci de que eram meus, ou eram feitos pra mim. Afastei os devaneios que me impediram de atingir objetivos que nunca desejei de verdade, e que agora não me valem sequer a sombra de um esquelético coqueiro numa praia suja e deserta sob o forte sol das decisões não tomadas. Há em mim uma espécie de maré, que traz e afasta, afoga e salva, esconde e expõe esse medo e essa falta de tempo que as marés só sabem quando sobre elas cai a lua, enorme, branca e silenciosa, emanando uma paz que as ondas nunca conhecerão.

See ya

29.11.10

Melhor

E não haverá melhor presente que tê-lo como exemplo do que adoro e do que detesto em mim mesmo.
E não haverá melhor dizer que as palavras de amor e de ódio que já trocamos.
E não haverá melhor momento para nós do que o presente, pois o resto é, e será, saudade.
E não haverá melhor ídolo ou vilão do que você.
E não haverá melhor sensação do que te deixar orgulhoso ou furioso.
E não haverá melhor experiência que aprender-te e saber por você do claro e escuro do mundo.
E não haverá melhor forma de agradecer por tudo que fizeste por este imperfeito emaranhado de memórias e sentimentos que podes chamar de filho.
E não haverá melhor pai que você.
Feliz aniversário, meu velho.

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2.2.10

Luto

Luto por mim e pelas coisas mortas. Luto pra evitar que elas morram uma morte fria e distante. Luto pelas coisas que mudaram e nunca mais serão as mesmas. Luto pela felicidade-não-felicidade que sinto por saber que as coisas morrem e que isso é triste mesmo quando elas querem e precisam morrer.

Luto pelo amor, que não pode ser imortal, pois nada é imortal. Luto pelos dias que se vão no mesmo compasso em que as folhas caem dos galhos enquanto eu, galho, fico desnudo e olhando o tempo. Luto pelas decisões erradas que nunca serão consertadas e cujo peso nesse momento valem mil vidas.

Luto pelo desmantelar das castelos e países e planetas e universos que no fim, como os castelos, eram mesmo de areia. Luto pela liberdade que sucumbe a cada segundo, dando lugar a algo lacônico, firme, durável e que eu nunca quis.

Luto pelas mortes literais, muito doloridas, mais naturais que as outras mortes. Luto todo dia e estou cansado, querendo sumir ou ficar transparente ou ainda num lampejo de grandeza ser ignorado pelas coisas e pelas pessoas. Oh, Deus, eu estou tão cansado.

Luto por coisas finitas, que dizem menos, mas doem menos, e causam menos culpa. Luto pra que, se no final tudo vai mudar e vc não sabe nada e não conhece ninguém? Luto por cada lágrima que despenca e morre afogada numa mancha que é tão minha e, no entanto, é um mosaico de outros em mim.

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7.9.09

O que ressuscita o poeta?

O que ressuscita o poeta, doutor?
De um acaso, de uma morte, um estupor.
E não seria só assim, um terror.
Mas sentir o corpo gelar, sem vida, sem calor.

Depois sentir como brisa, um vapor,
A invadir as carnes, trazer rubor,
O levantar de um botão, uma flor,
Que socorrida por um simples regador.

Levantar e escrever, com furor,
A luxúria, a raiva, o sabor,
Como de um leão ser o matador,
Digo a ti o que sinto, meu senhor.

Que poderia ser o ódio, o rancor,
O estremecer da alma pela dor,
Mas de tudo, seja como for,
O que ressuscita o poeta, é o amor.

See ya

3.9.09

O inverso de dois

O inverso de dois é meio.
Meio estranho, como cutucar a ferida antes da casquinha se formar.
Meio como calar na hora de dizer, e dizer, na hora de calar.
Meio maluco, como uma lista de coisas para se fazer antes de morrer.
Meio que acreditar em alienígenas voando sobre nossas cabeças.
Meio-dia e essa dor não passa.
Meio do caminho entre te odiar e te querer.
Meio desacreditado, infeliz.
Meio do caminho, e a pedra.
Meio de chegar a uma solução de um problema np-completo.
Meio da rua, sem ter onde ficar, nem lá, nem cá.
Meio com medo e eu sempre tenho medo.
Meio da chuva, dizendo seu nome.
Meio amarelo.
Meio litro de lágrimas num balde.
O inverso de dois é meio.
E sendo meio, eu nunca sou um, inteiro.

See ya

1.9.09

Aos anos

Aos anos, gentis, eu saúdo,
Pelo presente que trouxeram pra mim,
Um amor que de pequeno, miúdo,
Tornou-se grande, delicioso, sem fim.

Aos anos, que mudaram nosso amor,
Que frente ao tempo parecia não passar,
E contudo quando ao seu lado, ó calor,
Paradoxo - passava a correr, a voar.

Não há paixão assim, que me recorde,
E lutar por ela é querido clamor,
Pois desse sonho não haverá o que me acorde.

Se houve e ainda haverá algum sofrimento,
Por ti tenho e darei todo o meu amor,
Aos anos brindo e serei o teu alento.

28.1.09

Veja o sol dessa manhã tão cinza

Hoje acordei sentindo inveja do Renato Russo. Inveja das idéias que teve, da vida que levou, da vida que acabou. Sou grande fã de suas letras, mas nunca conheci muito bem a figura em si. Sei que era um gênio, sei que não se encaixava em lugar nenhum nesse mundo. Sei que morreu aos 36 tendo vivido muito mais que muitos velhos de 90 anos.

Hoje acordei com essa inveja, e não por vontade de ter sido Renato Russo, não por ter tido suas idéias. Em muitas coisas fomos e somos parecidos, ou pelo menos eu gosto de pensar que assim é. Eu também sei que não me encaixo, muitas vezes, no mundo que me cerca. Eu sei que tenho tentado mais do que normalemente consideraria prudente me encaixar em certos padrões. E sei o quanto isso dói.

Talvez eu não vá morrer aos 36 anos de idade e talvez minhas idéias nunca cheguem a se espalhar tanto quanto às de Renato Russo. Eu sei, é tudo tão sem sentido, que chego até a rir da minha própria inteligência, tão cuidada e lustrada por mim e tão inútil, tão insipiente. Gosto de pensar que dividia essa mesma inteligência com Renato Russo.

E por que inveja, então? Acho que é porque ele foi corajoso. Teve coragem de viver o que viveu, de sentir o que sentiu, de morrer ainda jovem e fazer a falta que faz e sempre fará. Ainda lembro julgá-lo corajoso quando o DJ parou a música na pista do Madame Satã, em 96, e deu a notícia de sua morte, tocando Tempo Perdido logo a seguir.

Teve a coragem que eu não tive e nunca terei. Teve coragem de ser ele mesmo acima de todas as coisas. E eu também faço questão de ser eu mesmo, mas nunca poderei dizer "acima de todas as coisas", porque isso é mais difícil do que parece e mais caro do que eu um dia pude imaginar.

Obrigado, Renato Russo, por já ter me ajudado tantas vezes me sentir tão extraordinariamente sujo e distante. Por ter me ajudado a conduzir meus pensamentos e iras e raivas e medos e lutas de forma resoluta e acreditando que não posso fazer nada melhor pra mim mesmo do que cultivar minha inteligência crítica, chata e ranzinza, e me fazer consciente e firme dos meus próprios defeitos e erros. Sem isso, eu seria apenas mais um. Nada de mais.

See ya

PS: acima de todas as coisas, somente uma coisa eu posso dizer.

14.11.08

Outra coisa

Não acordou e estava com vontade de escrever. Não acordou porque não havia dormido. Era outra coisa. O teto e a cômoda e a janela eram testemunhas e ele não havia dormido. E não sabia porque estava com vontade de escrever.

A própria idéia de escrever havia se tornado um câncer, com o qual estava habituado a conviver por quase dois anos. A princípio achara que era só um enjôo, uma coisa qualquer e o tratamento recomendado foi repouso. Precisava arejar as idéias, se deixar absorver pelo entorno do mundo. Pensava adquirir, consumir, engordar seu repertório.

Tinha vontade de escrever naquela época também, mas a dor martelava sua cabeça. Não podia ser uma coisa sem importância. Tinha de ser grande, importante, crucial. E era. Um câncer, uma ferida, uma chaga. Ficou obcecado: escreveria a qualquer custo, qualquer coisa. E não escreveu. Conformou-se em ver e ler e ouvir; sombras na parede, nuvens no céu, vozes ao vento. A própria idéia de escrever fazia seus olhos brilharem, mas sua cabeça doía, girava e a dor de se sentir impotente... esgotava sua pouca paciência.

Começou a se perder entre as palavras; o câncer crescia e ganhava espaço. Alimentava-se não de idéias, o desgraçado, mas de ânimo. Idéias tinha, aos montes, como moscas na carniça, como toques de um telefone frio e insensato, insistente. Era uma dor e um desejo de correr, a própria vontade de escrever.

Naquela manhã teve vontade de escrever, mas não escreveu, pela útlima vez. Não havia dormido. Era outra coisa. Era a total obliteração. Era morrer de sede no mar. Era saber tanto e conhecer tão pouco. Pela última vez a própria vontade de escrever foi outra coisa.

See ya

18.9.08

#Apocalipse

Há tempos eu não escrevia algo tão divertido. Corrigindo: há tempos eu não me divertia tanto escrevendo algo.

Sou o co-autor da primeira Twitter-Novela da história: #apocalipse

Se vc não faz idéia do que seja Twitter, não tem problema, pois você pode acompanhar toda a saga da primeira novela-de-micro-blogging do mundo clicando aqui. De qualquer forma, vc também pode conhecer melhor o Twitter, que é uma ótima ferramenta para a qual finalmente descobrimos uma utilidade.

A novela é de colaboração aberta, mas para colaborar, aí sim vc precisa de um usuário no Tuíto. Só lembrando que como um blog, a história está disposta do micro-capítulo mais recente para o mais antigo, ou seja, pra lerem do começo, vc tem de ir até a última página e voltar lendo.

E depois de ler tudo, ainda pode usar esse RSS pra acompanhar a trama em seu agregador de RSS favorito.

Os digníssimos autores de #apocalipse são: @dvespa, @lonefreak (este que vos fala), @maxwell_lord, @ila_coimbra, @Rhittmann e @krateria. Para os "não-iniciados", vc pode seguir os autores no Twitter, ou seja acompanhar suas postagens.

Acompanhem a intrigante trama do fim do mundo e suas baratas, humanos, zumbis, mutantes, padres entomófilos e muito, muito, muito sopão. E boa diversão.

See ya

16.6.08

Um taco na mão e idéias na cabeça


The Signal, filme escrito e dirigido por David Bruckner, Dan Bush e Jacob Gentry, é violento, insano, sujo, cinza e apocalíptico. Tenho a nítida impressão que os três diretores/roteiristas são velhos amigos, ou bons colegas de trabalho, antigos amigos da faculdade, que tem grande afinidade para escreverem e gravarem juntos. O filme, totalmente imerso numa violência pulsante, inexorável e inequívoca, tem uma fluência e uma cadência em suas cenas que vi poucas vezes. Talvez por ser tão absurdo que qualquer coisa faria sentido, talvez por sua calma insana, sua apatia insuportável.

Em poucas palavras, o filme trata de um sinal que está sendo transmitido em todas as televisões, rádios e telefones da cidade de Terminus. Este sinal, em qualquer forma, transforma as pessoas em assassinos. Na verdade minha teoria é outra, mas vejam o filme primeiro e depois falamos disso. A personagem central, Maya, conduz a trajetória dos acontecimentos do filme dentro desse pano de fundo apocalíptico. Nesse aspecto lembra bastante Extermínio, mas mais íntimo. Contudo, os personagens que vão aparecendo tornam-se mais importantes do que a prórpia história, pois eles contam mais sobre o que realmente somos, o que realmente desejamos e o que realmente estamos dispostos a destruir para chegarmos aos nossos objetivos. É um filme bem humano, eu diria.

Mas não me entendam errado. Não estou tentando dar um ar lírico ao filme, e isso nem faria sentido. As imagens passam freneticamente, mostrando pessoas com pás, motosserras, tambores de dedetização, maças improvisadas com facas e outras coisas muito mais criativas, espancando, rasgando, cortando e exterminando outras pessoas. Não há como ignorar a bela Cheri Christian matando seu marido usando uma criativa bomba de encher pneus.

Um festival da violência gratuita. Eu me diverti muito assistindo e dei boas risadas. Reconheço que não é um filme fácil de gostar, mas uma vez que você goste de vislumbrar facetas bizarras da mente humana, tanto ao pensar que aquilo poderia ser verdade quanto que seres humanos escreveram o roteiro, você certamente vai se lambuzar em sangue e tripas com este filme.


See ya

13.6.08

Entre o fogo e a frigideira

Passaram-se apenas 6 meses entre a rejeição, no Senado, da prorrogação da CPMF (até 2010) e a aprovação, com dois votos além do necessário, na Câmara dos Deputados, da CSS, a Contribuição Social para a Saúde. Engraçado como sob a batuta do PT, assim como do PSDB, tudo que querem dar uma cara de "benigno" chamam de social.

Redução na alíquota (de 0,38% para 0,1%), isenção para quem ganha menos de R$ 3.080,00. Dois pequenos detalhes neste "novo disfarce" da CPMF, que contra-atacou muito bem, ao ser aprovada na Câmara. Talvez esse seja o imposto mais abudsivo já criado por um governo brasileiro (criado em 1993, como IPMF), especialmente por se tratar do máximo da cumulatividade que um imposto pode ter, pois cada real será taxado (em 0,1%) TODA vez que for movimentado entre pessoas jurídicas, ou físicas (salvo isenção) diferentes. Isso deve gerar em torno de R$12 bilhões para a Saúde, o que deve ser insuficiente, se ainda mal administrado, como é hoje, pelo nosso brilhante sistema de saúde, que leva muitos brasileiros (afortunados, sim, porque podem pagar) a recorrerem a planos de saúde com custos abusivos e regras absurdas e ofensivas ao usuário (como carências descabidas, regras estúpidas para "doenças" pré-existentes, políticas para expulsar usuários Físicos em favor dos usuários Jurídicos - ou seja, atrelados a empresas e mais lucrativos). A população pobre tem de amargar por horas esperando atendimento de má qualidade, além de ficar sem muita alternativa e sem apoio dos que podem pagar e acabam cagando um monte pra situação da maioria.

Comum no Brasil, a dicotomia entre país de primeiro e terceiro mundo faz com que tenhamos imposto de primeiro mundo (comparável a Itália, França, Noruega) e tratamento de terceiro mundo dado ao nosso dinheiro, que engorda políticos ricos e iniciativas pobres. Contudo, encontrei certa coerência no discurso político. Tanto em 93 quanto agora, 15 anos depois, os governistas são a favor do tributo, e os oposicionistas contra (hahahahahahaha, essa foi boa!!!). Eu adoro não conseguir mais discernir entre esquerda e direita. Esquerda é o lado do braço onde se usa relógio, né?

Enfim, a cada ano a arrecadação com este tributo vem aumentando (foram quase R$18 bilhões em 2001) mas nada realmente efetivo tem sido feito na saúde. E agora querem que nós, os piores eleitores do mundo, acreditemos que dessa vez esse dinheiro fará alguma diferença. E como se não bastasse sermos tratados como palhaços pelos governistas, ainda temos de aturar os oposicionistas tirando sarro da nossa cara com um site cínico e hipócrita (com direito a logotipo com as cores do PSDB e a cara-de-pau de não assumirem a responsabilidade pelo site, no "quem somos"). É mesmo bem difícil votar, nesse país.

See ya

9.6.08

Bastilha

Há tempos eu não consigo escrever. Em minha vã inocência chego a acreditar que "perdi a mão", que não consigo mais deitar no teclado minhas mãos por tempo suficiente pra permitir que as idéias fluam. Acabei me pegando, na semana passada, pensando em como era bom quando eu conseguia escrever essas coisas, ao reler textos velhos desse velho blog. Até mesmo invejar escritores e blogueiros de carreira eu fui capaz. Patético!

Veja bem, eu tenho escrito muito, ultimamente. Relatórios para o chefe, relatórios para o professor, resenha disso, escopo daquilo. Programas, muitos programas. Obviamente nada que eu possa escrever com criatividade, usando essas mãos semi-analfabetas e esta mente cheirando a mofo. Não há beleza onde não há criação e não há criatividade onde não há beleza. O sempre vertiginoso tempo em que me encontro agora não respeita minhas idéias. Ter de escrever na hora do almoço, ou entre dois freelas, ou num intervalo de aula simplesmente não funciona.

Costumo escrever meus textos em poucos minutos, no máximo algumas horas, mas apenas porque a idéia já se encontra ali, alojada numa cela nervosa, com barras de axônios, desesperada para ganhar a liberdade das palavras. E se a liberdade das palavras são os textos, as minhas já se calaram, arrasadas, sem esperanças, a fazer riscos no meu cérebro, contando os dias de cativeiro. Tornei-me um sequestrador de palavras, um algoz de minhas próprias idéias, cheias de vida a apodrecerem num recanto inacessível ao mundo.

Ainda tento, em vão, chamar este momento de "bloqueio de escritor", como muitos dizem por aí, mas o fato é que o bloqueio vem do próprio autor. Não tenho deixado fluírem as idéias, os pensamentos. Tudo se passa como num estacionamento lotado, e nunca há tempo de preencher as poucas vagas com algo que valha a pena publicar. Contudo, ainda lutam, as palavras, para saírem. Cansadas e enfraquecidas, mas com vigor suficiente para gritarem suas vontades e necessidades.

Estas, dançando a frente de seus olhos, caro leitor, são alguns rebeldes que conseguiram escapar. Não são de grande valia, mas o suficiente para armarem a resistência, e planejarem a derrubada desta Bastilha de idéias. Enquanto o relógio marca os minutos a menos que tenho, uma nova ordem se instala, sob pontes acinzentadas e esconderijos. Na calada da noite haverá, espero, uma revolta, uma revolução, e todas elas, palavras de alto e baixo calão, poderão uma vez mais correrem livres por aí.

See ya

10.8.07

Pense OG

Pense ÃO? Não.



Em 2003 o jornal O Estado de São Paulo lançou uma campanha publicitária utilizando cachorros que dizia que "credibilidade é tudo", acusando a concorrência de ter um latido esganiçado, fino, sem crédito. Agora eles voltaram a atacar, dessa vez com macacos, a blogosfera e seu crescente papel na criação e distribuição de informação.

Eles tratam todos os blogueiros como macacos ou como o estereótipo do nerd ou como o gordinho que fica em casa coçando o saco e escrevendo besteiras na internet.

Deveras interessante. Será que eles consideram macacos os blogueiros que estão em sua folha de pagamento? Será que eles tem medo que a idéia da informação colaborativa se propague até afogar a imprensa de rabo preso e costas quentes como a que eles representam? Será que eles não se deram conta do ridículo que é acusar seus próprios leitores de serem incapazes de qualquer leitura crítica sobre a informação que obtêm?

O conceito de informação vinda de "amadores" pode e deve mudar a forma como se encara as notícias e não as notícias em si. Opiniões em primeira pessoa, muitas vezes direto do centro da notícia, incentivando o leitor a opinar, entender e pensar. Informação sem bandeira assusta, especialmente os que preferem manter as opiniões e notícias a seu favor. Qual a credibilidade você pode dar a um jornal que tem uma opinião generalizante, não crítica e burra sobre os blogs (e principalmente sobre os blogueiros)? Acredito que a informação sem qualquer fundamento vem do Estadão.

Abaixo segue o banner de Eduardo Fernandes, que representa uma contra-campanha direcionada ao Estadão e sua "brilhante idéia". o Quando Isso Virar Um Blog apóia.



Pense OG.

See ya


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3.8.07

Esse é o nosso mundo

Quando criança, eu adorava fazer dezenas de coisas ao mesmo tempo. Em época de EXPOSEL (a feira de ciências do meu colégio) eu ficava praticamente insano, finalizando projeto, montando maquetes, resolvendo problemas, e muitas outras coisas, o que me deixava absurdamente ansioso, fazendo com que eu comesse menos, dormisse menos, etc... O mesmo se dava na Semana de Arte ou em outros "projetos de escola". Além disso eu tinha o hábito religioso de brincar (sozinho) com meus Comandos em Ação, ao ponto de ter eventos semanais, mensais ou anuais com meus brinquedos. O fato é que quando criança eu sempre estava envolvidos com mais "projetos" do que simplesmente ir às aulas. Confesso que cheguei a arriscar aulas de natação, campeonatos de futebol de botão oficial, aulas de baseball, mas nunca me dei bem com atividades puramente físicas.

Na adolescência eu conheci o RPG, os card games, as baladas, o teatro, e também a necessidade de ter alguma grana minha, o que resultava na auto-exploração da minha força de trabalho mental (já que eu sempre fui um ótimo - e modesto - aluno) para dar aulas particulares a alunos que tinham notas baixas. Também fazia um ou outro bico pra levantar uma graninha, e continuava indo à escola (com os mesmos projetos de ciência e artes) e depois á facudade (que era integral). Lembro de, aos 18 anos, ter ficado 63 horas acordado, entre aulas na faculdade, baladas, RPG e dar aulas paticulares. Hiperatividade pura e simples. Eu era muito feliz.

Pouco mais de dez anos se passaram desde então, e muitas coisas aconteceram nesse meio tempo: mais RPG, mais card games, largar a faculdade, namorar, sair de casa, arrumar emprego, tentar ter meu primeiro negócio (que era uma pastelaria), cuidar de casa, cudar de pessoas. E nesse meio tempo, não faltaram outros projetos. Alguns finalizados, outros não, mas eu continuava a acreditar que podia "fazer tudo".

Fazer tudo. Ler tudo. Saber tudo. Conhecer tudo.

Sim, faz parte do crescimento e do aprendizado dos seres humanos (deixando de lado toda a questão de condições para tal e cultura) passar por essa "fase". Contudo, hoje eu sinto que grande parte das pessoas sentem-se obrigadas a manter essa "fase" por tempo demais. O ritmo frenético e alucinante que nosso meio de vida nos impõe faz com que tenhamos de ser múltiplos e pró-ativos. Nunca temos trabalho suficiente, nunca temos dinheiro suficiente, nunca temos coisas suficientes, nunca temos experiência suficiente, conhecimento, músicas em nossos iPods, idéias pra ficarmos milionários. Nada é o bastante e nada nos satisfaz e no entanto estamos sempre "cheios".

Veja que não acredito que devamos escolher caminhos menos múltiplos, e os que me conhecem sabem que nem de longe sei fazer essas escolhas. Sou um programador, mestre de RPG, estudante de biologia e produtor de filmes. Eu continuo sendo múltiplo, como sempre fui. Mas gostaria que as pessoas refletissem muito mais sobre suas "cheias" vidas. Pra onde você está correndo tanto? Dentre tantas coisas que você faz, é capaz de separar os "quereres" dos "deveres"? As quantidades são ao menos equilibradas? Se é seu desejo genuíno continuar seguindo tantas trilhas ao mesmo tempo, faça e não olhe para trás. Se for tão recompensador (e também doloroso) como tem sido pra mim, ainda melhor.

Mas e se não for? Até quando você vai querer mais um curso, mais uma especialização, mais um freela, mais um trabalho, mais um filho, mais um casamento, mais um real, mais um "projeto"? Quantas vezes você se sente cansado até mesmo para descansar?

Nosso modo de vida quer nos drenar, nos obliterar, nos fazer correr tanto a troco de nada e fazer tanto sem saber porque, para que depois só nos reste ficar inertes, incapazes de pensar fora das peças que compõem os mosaicos de nós mesmos, conectados todo o tempo em coisas e tarefas e projetos que por si só são ocos e insipientes. Presos em ciclos e vícios que nem sabemos quando nasceram e julgamos nossos de nascimento. Em uma palavra: controle. Controle para nos impedir de pensar e refletir e, principalmente, reagir.

See ya

PS: quando, mais novo, eu ouvia Renato Russo dizer "esse é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante", eu concordava e achava que era só a forma como nós, adolescentes - na época - víamos o mundo dos "adultos". Errado. Era - e ainda é - a forma certa de encararmos as coisas.


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1.8.07

ScribeFire

Ao que parece esta ferramenta permite criar posts para o Quando Isso Virar um Blog diretamente do browser. Seria mais útil se eu realmente escrevesse alguma coisa no blog, né?

See Ya


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14.6.07

Knock, knock

Tem alguém aí?

See ya

4.4.07

Rápidas de hoje

Esse ano os gênios do Departamento de Gestão de Pessoas da empresa onde trabalho só tinham 18 reais aprovados para o brinde de Páscoa dos funcionáriso. Dezoito reais total, não por pessoa. E sabe qual foi a genial idéia? Comprar UM ovo de Páscoa (ao preço de R$17,99) e sortear entre todos os funcionários dos 3 andares da empresa. E pasmem, o mesmo foi repetido para as outras unidades da empresa, pelo menos em São Paulo.

No meu departamento, e em alguns outros as pessoas pediram para que seus nomes fossem retirados da listagem de sorteio. Sugerimos que o ovo fosse dado para a copeira do nosso andar, mas ao que parece eles preferem continuar tentando o sorteio. Pensei em comprar um saco de bombons e distribuir amanhã na empresa, mas acabei desistindo: sinceramente preferia que eles tivessem solenemente ignorado a data ao invés de fazer uma palhaçada dessas.

* * *

Fui assistir a O Cheiro do Ralo, do diretor Heitor Dhalia, baseado na obra homônima de um dos meus grandes ídolos (e gosto de pensar que somos amigos também), Lourenço Mutarelli. É, sinceramente uma das melhores adaptações que eu já vi na minha vida. Texto impecável, atuação impecável, direção de arte impecável. Sem falar da participação do próprio Lourenço, que foi no mínimo, brilhante. Confetes à parte, o filme é muito bem produzido, conduzido e dirigido. A história, como a do livro, é cativante e fascinante.

Lourenço Mutarelli é um autor bastante visceral, que consegue revirar suas próprias tripas, assim como as nossas, para mostrar um lado humano que sempre tentamos esconder: no fundo, nós somos nós mesmos, e não há nada que possamos fazer a respeito. Em suas obras, a caracterização e as relações entre personagens, situações e sensações (principalmente sensações) dá dimensão e vazão ao que somos de verdade, por trás de máscaras e óculos e empregos e aparências. E felizmente o filme conseguiu captar isso muito bem. Agora levantem essas bundas daí e vão ver o filme. Agora.

Tá bom, tá bom. Podem ver o trailer antes.

See Ya

19.3.07

Desfigurações avançadas

Ele era grande e gordo. Ele era bobo. Ele estava com raiva e com medo. Ele estava rápido e direto na minha direção. Ele estava louco, mas não estava armado. Eu estava. A pedrada no peito foi efetiva. Dura, fria e acinzentadamente efetiva. Ganhei a parada e o dia, mas não levei a pedra comigo. E em casa, ao invés de apanhar do meu pai depois dos protestos da mãe do garoto, ganhei uma vaga na escola de beisebol.

* * *

De todo o túmulo de Fabiano, o que mais me impressionava era a pedra que recobria o local. Parecia-me um filtro, uma lente que o transformava em algo frio, distante, epitáfico. Quando eu finalmente tive a coragem de arrebentá-la com a marreta, não estava vandalizando ou me rebelando: só estava procurando o sorriso e o calor do meu amigo.

See Ya

12.3.07

Quando Isso Virar um Blog

20129 visitas.
312 posts.
3 layouts.
4 anos de Quando Isso Virar um Blog.

Os números refletem já quatro anos em que venho publicando textos com mais ou menos frequência no blog. No meio do caminho ainda fui agraciado com a presença de meu blogmate, Marcelo Barros, e só posso dizer que escrever aqui tem sido muito bom.

Críticas, crônicas, contos, resenhas, homenagens, opiniões, divergências, controvérsias. Muito passou por aqui, e depois desse tempo, algo fica muito claro pra mim: o Quando Isso tornou-se parte inexorável da minha vida. Obteve sucesso em mesclar-se a todas as outras coisas que faço e ficar, permanecer. Mais do que o ato de escrever em si, do que o ato de comunicar, ficou impresso em mim a necessidade de criar. E grande parte do meu processo criativo e o reflexo que ele teve em minha vida está estampado aqui. Em momentos em que não consegui criar (em qualquer aspecto) foram os períodos de menos atividade deste cafofo virtual. Meus humores e sentimentos tornaram-se tantas vezes em palavras e temas e opiniões aqui nessa tela, que hoje é automático transpor para cá quase tudo em que penso. É praticamente impossível passar um dia sem pensar no Quando Isso.

Quando o criei, acreditava que poderia dar vazão a todas as minhas idéias e levá-las onde quer que eu desejasse. Não foi bem assim, é claro, pois não só de idéias vive um blog (há também a divulgação, os links, a qualidade do que se expõe, etc...). Passei por fases onde quis transformá-lo num site, num portal, em algo maior, em algo menor. Momentos em que ele beirou o bloguicídio, seguidos de certos arroubos criativos e mudanças de cara. Mas enfim, ele (e eu, talvez) sossegou e encontrou seu lugar. Hoje não penso em torná-lo um grande site, com milhares de visitas, ou sequer com endereço próprio. Ele vai continuar, tão estanque quanto foi, a alcançar alguns poucos e tentar inspirá-los, desafiá-los, incomodá-los. Foram 4 anos criando moscas nas sopas, pedras nos sapatos. E assim continuará, pouco a pouco, enquanto as sopas e os sapatos existirem.

Procure um novo olhar, deixe a mesmice de lado, inverta suas idéias e sentimentos, critique, pense e repense. Repense você mesmo e seus caminhos. Esteja eternamente insatisfeito. Seja estranho e incômodo por opção e não se importe com as consequências disso. Na pior das hipóteses, poderemos comemorar ainda muitos aniversários juntos, aqui. E se não pudermos, comemoraremos outras coisas.

Feliz aniversário, Quando Isso!

See Ya