Não acordou e estava com vontade de escrever. Não acordou porque não havia dormido. Era outra coisa. O teto e a cômoda e a janela eram testemunhas e ele não havia dormido. E não sabia porque estava com vontade de escrever.
A própria idéia de escrever havia se tornado um câncer, com o qual estava habituado a conviver por quase dois anos. A princípio achara que era só um enjôo, uma coisa qualquer e o tratamento recomendado foi repouso. Precisava arejar as idéias, se deixar absorver pelo entorno do mundo. Pensava adquirir, consumir, engordar seu repertório.
Tinha vontade de escrever naquela época também, mas a dor martelava sua cabeça. Não podia ser uma coisa sem importância. Tinha de ser grande, importante, crucial. E era. Um câncer, uma ferida, uma chaga. Ficou obcecado: escreveria a qualquer custo, qualquer coisa. E não escreveu. Conformou-se em ver e ler e ouvir; sombras na parede, nuvens no céu, vozes ao vento. A própria idéia de escrever fazia seus olhos brilharem, mas sua cabeça doía, girava e a dor de se sentir impotente... esgotava sua pouca paciência.
Começou a se perder entre as palavras; o câncer crescia e ganhava espaço. Alimentava-se não de idéias, o desgraçado, mas de ânimo. Idéias tinha, aos montes, como moscas na carniça, como toques de um telefone frio e insensato, insistente. Era uma dor e um desejo de correr, a própria vontade de escrever.
Naquela manhã teve vontade de escrever, mas não escreveu, pela útlima vez. Não havia dormido. Era outra coisa. Era a total obliteração. Era morrer de sede no mar. Era saber tanto e conhecer tão pouco. Pela última vez a própria vontade de escrever foi outra coisa.
See ya
Coisas sérias e não sérias. Ácidas e às vezes doces. E outros comentários, como cinema, comportamento, literatura, etc...
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18.9.08
#Apocalipse
Há tempos eu não escrevia algo tão divertido. Corrigindo: há tempos eu não me divertia tanto escrevendo algo.
Sou o co-autor da primeira Twitter-Novela da história: #apocalipse
Se vc não faz idéia do que seja Twitter, não tem problema, pois você pode acompanhar toda a saga da primeira novela-de-micro-blogging do mundo clicando aqui. De qualquer forma, vc também pode conhecer melhor o Twitter, que é uma ótima ferramenta para a qual finalmente descobrimos uma utilidade.
A novela é de colaboração aberta, mas para colaborar, aí sim vc precisa de um usuário no Tuíto. Só lembrando que como um blog, a história está disposta do micro-capítulo mais recente para o mais antigo, ou seja, pra lerem do começo, vc tem de ir até a última página e voltar lendo.
E depois de ler tudo, ainda pode usar esse RSS pra acompanhar a trama em seu agregador de RSS favorito.
Os digníssimos autores de #apocalipse são: @dvespa, @lonefreak (este que vos fala), @maxwell_lord, @ila_coimbra, @Rhittmann e @krateria. Para os "não-iniciados", vc pode seguir os autores no Twitter, ou seja acompanhar suas postagens.
Acompanhem a intrigante trama do fim do mundo e suas baratas, humanos, zumbis, mutantes, padres entomófilos e muito, muito, muito sopão. E boa diversão.
See ya
Sou o co-autor da primeira Twitter-Novela da história: #apocalipse
Se vc não faz idéia do que seja Twitter, não tem problema, pois você pode acompanhar toda a saga da primeira novela-de-micro-blogging do mundo clicando aqui. De qualquer forma, vc também pode conhecer melhor o Twitter, que é uma ótima ferramenta para a qual finalmente descobrimos uma utilidade.
A novela é de colaboração aberta, mas para colaborar, aí sim vc precisa de um usuário no Tuíto. Só lembrando que como um blog, a história está disposta do micro-capítulo mais recente para o mais antigo, ou seja, pra lerem do começo, vc tem de ir até a última página e voltar lendo.
E depois de ler tudo, ainda pode usar esse RSS pra acompanhar a trama em seu agregador de RSS favorito.
Os digníssimos autores de #apocalipse são: @dvespa, @lonefreak (este que vos fala), @maxwell_lord, @ila_coimbra, @Rhittmann e @krateria. Para os "não-iniciados", vc pode seguir os autores no Twitter, ou seja acompanhar suas postagens.
Acompanhem a intrigante trama do fim do mundo e suas baratas, humanos, zumbis, mutantes, padres entomófilos e muito, muito, muito sopão. E boa diversão.
See ya
16.6.08
Um taco na mão e idéias na cabeça

The Signal, filme escrito e dirigido por David Bruckner, Dan Bush e Jacob Gentry, é violento, insano, sujo, cinza e apocalíptico. Tenho a nítida impressão que os três diretores/roteiristas são velhos amigos, ou bons colegas de trabalho, antigos amigos da faculdade, que tem grande afinidade para escreverem e gravarem juntos. O filme, totalmente imerso numa violência pulsante, inexorável e inequívoca, tem uma fluência e uma cadência em suas cenas que vi poucas vezes. Talvez por ser tão absurdo que qualquer coisa faria sentido, talvez por sua calma insana, sua apatia insuportável.
Em poucas palavras, o filme trata de um sinal que está sendo transmitido em todas as televisões, rádios e telefones da cidade de Terminus. Este sinal, em qualquer forma, transforma as pessoas em assassinos. Na verdade minha teoria é outra, mas vejam o filme primeiro e depois falamos disso. A personagem central, Maya, conduz a trajetória dos acontecimentos do filme dentro desse pano de fundo apocalíptico. Nesse aspecto lembra bastante Extermínio, mas mais íntimo. Contudo, os personagens que vão aparecendo tornam-se mais importantes do que a prórpia história, pois eles contam mais sobre o que realmente somos, o que realmente desejamos e o que realmente estamos dispostos a destruir para chegarmos aos nossos objetivos. É um filme bem humano, eu diria.
Mas não me entendam errado. Não estou tentando dar um ar lírico ao filme, e isso nem faria sentido. As imagens passam freneticamente, mostrando pessoas com pás, motosserras, tambores de dedetização, maças improvisadas com facas e outras coisas muito mais criativas, espancando, rasgando, cortando e exterminando outras pessoas. Não há como ignorar a bela Cheri Christian matando seu marido usando uma criativa bomba de encher pneus.
Um festival da violência gratuita. Eu me diverti muito assistindo e dei boas risadas. Reconheço que não é um filme fácil de gostar, mas uma vez que você goste de vislumbrar facetas bizarras da mente humana, tanto ao pensar que aquilo poderia ser verdade quanto que seres humanos escreveram o roteiro, você certamente vai se lambuzar em sangue e tripas com este filme.

See ya
10.3.07
Claridade
A batida ritmada e frequente reverberava pela pista, e assim, através do seu corpo. Procurara por ela a noite toda, na pista, no bar, na varanda, nas escadas. Até na saída do banheiro. Havia visto seu tranquilo rosto nas faces embriagadas de centenas de garotas naquela noite, mas vez após outra, eram apenas alucinações. De qualquer forma, toda a bebida e o cigarro não o estavam ajudando.
No fundo de sua mente sabia o que procurava: sexo. De uma forma como nunca quisera antes: sujo, rápido, sem sentimentos ou preocupações. Mas algo obliterava sua mente e sua visão. E fossem as drogas ou os hormônios, não podia fazer nada a não ser procurá-la, ou imaginá-la no corpo de todos ao seu redor.
E no momento em que a primeira lágrima ameaçou jogar-se de seus mórbidos e tristes olhos, ela apareceu. Ali mesmo na pista, dançando como se seu próprio corpo fosse a música. Ainda indeciso, por não saber se era outra alucinação, ele aproximou-se. Mas o olhar que ela lançara em resposta a sua esperançosa busca era inconfundível. Parecia até espanto, de certa forma.
"O que você está fazendo aqui?", ela disse, quase sussurando, embora ele ouvisse muito claramente suas palavras.
"Te procurando!"
"Você devia estar morto!", pela primeira vez ela parecia vacilar em sua impecável forma, em sua extrema e antiga sabedoria.
"Eu sei. Foi o que te pedi. Mas não estou, essa é a verdade". Beijaram-se violentamente.
"Então é isso. Você não está morto. Sinto muito, mas agora não há muito o que eu possa fazer."
"Não pode ser. Você me prometeu, mas já faz uma semana e eu só me sinto mais forte"
"Sinto muito mesmo, mas agora é tarde."
"Não, não.. não me deixe sozinho aqui. Eu estou com medo e com frio. Eu quero... eu quero."
Ela agarrou-o e o pressionou contra a parede. Braços e sombras fundindo-se numa dança macabra e feia.
"O que você quer?", ela indagou, e havia sangue em seu olhar.
"Alguma claridade", respondeu enquanto sentia seus caninos avantajarem-se sobre sua língua. "Eu só quero claridade"
Ela sorriu, e agora seus caninos também estavam visíveis, brancos e longos. Mortos e sedentos. "Então você terá. Mas do mundo que conheceu nada restará e a vida que tanto desprezou, terá de suportá-la etenamente, agora". E o abraçou.
E o restante ninguém viu, mas em seu coração imortal e sombrio ele guardou aquele momento pra sempre.
See Ya
No fundo de sua mente sabia o que procurava: sexo. De uma forma como nunca quisera antes: sujo, rápido, sem sentimentos ou preocupações. Mas algo obliterava sua mente e sua visão. E fossem as drogas ou os hormônios, não podia fazer nada a não ser procurá-la, ou imaginá-la no corpo de todos ao seu redor.
E no momento em que a primeira lágrima ameaçou jogar-se de seus mórbidos e tristes olhos, ela apareceu. Ali mesmo na pista, dançando como se seu próprio corpo fosse a música. Ainda indeciso, por não saber se era outra alucinação, ele aproximou-se. Mas o olhar que ela lançara em resposta a sua esperançosa busca era inconfundível. Parecia até espanto, de certa forma.
"O que você está fazendo aqui?", ela disse, quase sussurando, embora ele ouvisse muito claramente suas palavras.
"Te procurando!"
"Você devia estar morto!", pela primeira vez ela parecia vacilar em sua impecável forma, em sua extrema e antiga sabedoria.
"Eu sei. Foi o que te pedi. Mas não estou, essa é a verdade". Beijaram-se violentamente.
"Então é isso. Você não está morto. Sinto muito, mas agora não há muito o que eu possa fazer."
"Não pode ser. Você me prometeu, mas já faz uma semana e eu só me sinto mais forte"
"Sinto muito mesmo, mas agora é tarde."
"Não, não.. não me deixe sozinho aqui. Eu estou com medo e com frio. Eu quero... eu quero."
Ela agarrou-o e o pressionou contra a parede. Braços e sombras fundindo-se numa dança macabra e feia.
"O que você quer?", ela indagou, e havia sangue em seu olhar.
"Alguma claridade", respondeu enquanto sentia seus caninos avantajarem-se sobre sua língua. "Eu só quero claridade"
Ela sorriu, e agora seus caninos também estavam visíveis, brancos e longos. Mortos e sedentos. "Então você terá. Mas do mundo que conheceu nada restará e a vida que tanto desprezou, terá de suportá-la etenamente, agora". E o abraçou.
E o restante ninguém viu, mas em seu coração imortal e sombrio ele guardou aquele momento pra sempre.
See Ya
5.3.07
Sob as águas do lago
Muitos são os perigos que espreitam nossa frágil espécie nesse mundo. Enquanto muitos pensam poder se gabar de sermos a raça dominante e predadores mais poderosos do planeta, criaturas que vivem sob lagos e pedras e dentro das sombras nos vigiam, nos observam, aguardando um relance de nossa falsa modéstia e nosso excesso de confiança.
Se as cultuamos, ou as caçamos, ou as estudamos, não faz muita diferença. Sempre o que podemos ver dentre as frestas de nosso obtuso conhecimento é o que nos levará à loucura de querermos mais, ou ao tórrido, vertiginoso e emaranhado momento de nossas mortes, nas mãos e bocas e tramas destas aberrações que nos cercam onde quer que estejamos.
Talvez seja ao largo de um bosque, ou ao fundo de um lago revolto, ou mesmo na ágeis sombras de uma sala de cinema. Eles nos encontrarão e de nossos esquálidos corpos tirarão nosso último suspiro, expirado em agonia, como uma criança que não sabe o que se esconde no fundo de uma armário esquecido e poeirento.
E além de nossas pútridas carcaças restarão os conhecimentos que nunca tivemos, os horrores que nunca vimos, as histórias que nunca contamos, além, é claro, de certas patas, garras ou tentáculos pegajosos afastando-se satisfeitos dos restos de corpos e almas que deixaram em seu caminho.
Meu amigo, esperamos todos que você possa descansar em paz. Esperamos que sua alma não esteja se debatendo em algum recanto fétido e sombrio de um lugar para onde todos nós, mais cedo ou mais tarde, também iremos.
See Ya
Se as cultuamos, ou as caçamos, ou as estudamos, não faz muita diferença. Sempre o que podemos ver dentre as frestas de nosso obtuso conhecimento é o que nos levará à loucura de querermos mais, ou ao tórrido, vertiginoso e emaranhado momento de nossas mortes, nas mãos e bocas e tramas destas aberrações que nos cercam onde quer que estejamos.
Talvez seja ao largo de um bosque, ou ao fundo de um lago revolto, ou mesmo na ágeis sombras de uma sala de cinema. Eles nos encontrarão e de nossos esquálidos corpos tirarão nosso último suspiro, expirado em agonia, como uma criança que não sabe o que se esconde no fundo de uma armário esquecido e poeirento.
E além de nossas pútridas carcaças restarão os conhecimentos que nunca tivemos, os horrores que nunca vimos, as histórias que nunca contamos, além, é claro, de certas patas, garras ou tentáculos pegajosos afastando-se satisfeitos dos restos de corpos e almas que deixaram em seu caminho.
Meu amigo, esperamos todos que você possa descansar em paz. Esperamos que sua alma não esteja se debatendo em algum recanto fétido e sombrio de um lugar para onde todos nós, mais cedo ou mais tarde, também iremos.
See Ya
16.2.07
Remoto
Deitado em sua cama, há horas, simplesmente olhando para o teto, não conseguia dormir. Ao lado da cama, fingindo não dar atenção ao seu sofrimento e agonia, o relógio continuava a marcar suas horas e seus minutos. Tiago sempre acreditara que em algum momento muito remoto no passado, algumas pessoas haviam feito um pacto com os relógios, no qual ficara combinado que os humanos dariam seus segundos e minutos e horas para os relógios, gradualmente ficando sem eles, até que não os tivessem mais. Em retorno, os relógios poderiam mostrar aos humanos quanto do seu tempo fora gasto, e portanto, quanto tempo ainda restaria a ser entregue aos relógios.
Mas relógios, pérfidos e ardilosos, existiam em menor quantidade que humanos, e passaram a acumular tempo de diversas pessoas em suas compassadas e intermitentes entranhas, e logo um humano não sabia mais quanto tempo tinha cedido a um ou mais relógios, e portanto, jamais sabiam quanto tempo ainda restava.
"Escravizaram-nos", pensou Tiago, em voz alta.
No quase-silêncio de seu quarto, procurou aproveitar cada sílaba que pronunciara. Sentiu o som escapolir de sua boca, de sua mente. E fazendo força pra escutar as últimas reverberações de seu discurso para o nada, terminou por ouvir algo vindo do teto. Um zunido, a princípio. Um amargo e lento zunido, tomando forma em pequenas e rápidas alterações de tom.
"Uma voz. Não! Duas vozes", pensou novamente, mas dessa vez sem propelir oxigênio de seus pulmões. Quieto, como pronto para dar o bote, Tiago entendeu que o casal que morava no apartamento de cima estava discutindo, brigando. Fechou os olhos e se concentrou em tentar discernir alguma palavra, algum xingamento, algum insulto, mas o som desapareceu. Quase tomado de tristeza por ter perdido a quase-companhia que acabara de ganhar, abriu os olhos, procurando no teto certa esperança. E antes que pudesse cessar as buscas, voltou a ouvir a discussão. Deviam estar perto da janela, agora, mas Tiago não pensou nisso. Não pensou em nada, para não afugentar o som.
"Você acha que eu sou cego? Que não vi vocês trocando olhares na pista?", disse ele. A voz era irritada, muito irritada. Máscula e irritada. Quase-descontrolada. Um sussuro ainda mais baixo, um choro, era proferido pela contraparte da discussão.
Um barulho seco e agudo. "Isso é pra você deixar de ser vagabunda! Sua piranha!".
Tiago não movia um músculo. O choro aumentava de volume e intensidade, e de alguma forma Tiago imaginava que o choro estava sendo abafado. Talvez um travesseiro. Talvez.
"Não faz essa cara de coitada, não. Se você acha que estou te maltratando, você vai ver o que vou fazer com aquele filho da puta, amanhã. Não, senhora, vem cá!". E um barulho de queda, de tombo, vibrou no teto. Pés de cama arrastados. O choro abafado lentamente transformando-se em um choro de medo e agonia. Mas ainda abafado. Não era um travesseiro. Talvez um mordaça?
Tiago não se sentia confortável. Uma fraca dor de cabeça pronunciava-se nas têmporas e o suor do corpo transferindo-se para o lençol mal estirado dava uma sensação de leve formigamento. A cada pequeno mover da cama, no andar de cima, com força, com raiva, o choro oscilava. O ritmo compassado da cama, do amortecer do colchão trouxeram à mente do garoto um pensamento libidinoso. Ruborizou e o suor continuou a escorrer-lhe pelo corpo, enquanto o entumescimento dentro de sua bermuda velha e confortável tornava-se visível. Foi trazido de volta do pequeno delírio momentâneo por um barulho mais estridente, como um tapa. O pequeno choro virou-se em grito. Sem perceber porque, Tiago sentou-se na cama. Sua dor de cabeça aumentava.
"Gostou, né, vadia? Agora vamos tomar banho, e você vai ver o que é bom!". O choro ainda abafado foi acompanhado de outro baque, que lembrou Tiago das peças de carne que ele jogava nos balcões de madeira do frigorífico antes de lavá-los. E assim como no frigorífico a peça de carne foi sendo arrastada. Ele podia sentir o atrito do corpo da garota contra o solo, percorrendo em diagonal o quarto, enquanto ela parecia se debater, isso sim, felizmente, diferente das peças do frigorífico.
Seguiu o movimento com os olhos, pelo teto, mas uma inquietação fazia suas mãos formigarem. Aquilo não parecia ir nada bem. Seus olhos foram percebendo o diminuir do som, e seus ouvidos anteciparam o barulho liso, frio e duro que viria logo depois, quando seus olhos encontraram a porta do banheiro, no canto do quarto. Levantou-se, mas a tontura o fez sentar-se novamente. Segurou-se na cama, arfando, suando, ouvindo e sentindo suas têmporas latejarem. Ouviu a porta do banheiro bater, como um impulso para colocá-lo de pé. Olhou para o telefone, que como o relógio, fingia não presenciar nada daquilo. Pensou em chamar a polícia. Levantou-se e ouviu o barulho de água enchendo algo que todos os banheiros do prédio tinham em comum: uma banheira. Ouviu uma pancada contra a pedra da banheira. Uma joelhada talvez, ou uma cabeçada. Sentiu náuseas e precipitou-se para o banheiro.
Acendeu a luz do cômodo azulejado de branco com flores amarelas e olhou para a banheira, enquanto ouvia gemidos e gritos mais abafados ainda, quase-borbulhantes. O barulho da água sendo remexida não o deixava ouvir direito. Respirou fundo e foi até a pequena janela, quando ouviu o arfar da garota, como que saindo de um longo e desagradável passeio sob a água.
"Não me machuca mais, por favor.. não me mata!", chorou ela. Ouvia os pingos que desciam do rosto da menina e chegavam à superfície e tentava imaginar quantos daqueles eram lágrimas. E antes que pudesse adivinhar, ouviu o grito dela sob a água: sufocante, asfixiante, agonizante. Os pés e pernas debatendo-se contra o azulejo num bizarro, veloz e agoniante sapateado.
"Agora você nunca mais me trai, sua vaca!". Tiago repetiu a fala do homem, balbuceando e sentindo um calor que percorria sua espinha. Precisava ajudá-la, e tentaria fazê-lo antes que sua cabeça explodisse em dor.
Saiu correndo pela porta do apartamento, desesperado, ainda meio tonto, e subiu as escadas. Tentava não fazer barulhos nas velhas escadas de madeira, para que o barulho não o fizesse deixar de escutar a pobre garota se afogando e tentando buscar o ar em seus últimos alvéolos. Parou diante da porta e só então se deu conta que estava apenas de cuecas e que não havia trazido sequer uma faca de cozinha para se defender, caso o insano homem tentasse juntá-lo ao destino de sua quase-morta namorada.
Balançando a cabeça para arrancar essas preocupações - e a dor - ele se afastou da porta e se preparou. Deu dois passos rápidos e socou a porta, forte, alto, rápido. Ainda podia ouvir os frágeis pés da garota tentando arrancar algum atrito do chão liso do banheiro. Socou de novo.
"Droga! O que eu estou esperando? Que ele abra educadamente a porta?", falou baixo para si mesmo, e afastou-se novamente na intenção de correr e arrombar logo a porta. Percebeu alguém saindo de outro apartamento, mas não intimidou-se. Preparou-se e ergueu a perna para desferir o golpe na porta. Ouviu então o ferrolho da porta abrir-se. Ouviu o som da maçaneta girando. Ergueu a faca, por impulso, para atacar o maníaco de mãos molhadas e braços fortes que encararia num segundo. O vão entre a porta e o batente começou a surgir e aumentar, mostrando uma fraca luz amarelada que vinha do apartamento e em seu caminho iluminava o tísico e frágil rosto de uma senhora.
"Pois, não? Quem é? O que está acontecendo?", o ensonado rosto perguntava.
"O homem, o homem! No banheiro. Vai matar a garota!". Em sua ânsia, Tiago não percebeu que a senhora era quase-cega.
"Que homem? Eu vivo sozinha aqui!", retrucou ela.
"Mas.. mas..", Tiago olhou para o chão e antes de cair de joelhos e desmaiar, ouviu, dentre as escuras e tortuosas fendas do assoalho, a quase-voz borbulhante e abafada da quase-garota cessar, e o decisivo baque de suas quase-pernas contra o quase-chão quase-molhado e quase-frio e quase-liso e quase-real.
See Ya
Deitado em sua cama, há horas, simplesmente olhando para o teto, não conseguia dormir. Ao lado da cama, fingindo não dar atenção ao seu sofrimento e agonia, o relógio continuava a marcar suas horas e seus minutos. Tiago sempre acreditara que em algum momento muito remoto no passado, algumas pessoas haviam feito um pacto com os relógios, no qual ficara combinado que os humanos dariam seus segundos e minutos e horas para os relógios, gradualmente ficando sem eles, até que não os tivessem mais. Em retorno, os relógios poderiam mostrar aos humanos quanto do seu tempo fora gasto, e portanto, quanto tempo ainda restaria a ser entregue aos relógios.
Mas relógios, pérfidos e ardilosos, existiam em menor quantidade que humanos, e passaram a acumular tempo de diversas pessoas em suas compassadas e intermitentes entranhas, e logo um humano não sabia mais quanto tempo tinha cedido a um ou mais relógios, e portanto, jamais sabiam quanto tempo ainda restava.
"Escravizaram-nos", pensou Tiago, em voz alta.
No quase-silêncio de seu quarto, procurou aproveitar cada sílaba que pronunciara. Sentiu o som escapolir de sua boca, de sua mente. E fazendo força pra escutar as últimas reverberações de seu discurso para o nada, terminou por ouvir algo vindo do teto. Um zunido, a princípio. Um amargo e lento zunido, tomando forma em pequenas e rápidas alterações de tom.
"Uma voz. Não! Duas vozes", pensou novamente, mas dessa vez sem propelir oxigênio de seus pulmões. Quieto, como pronto para dar o bote, Tiago entendeu que o casal que morava no apartamento de cima estava discutindo, brigando. Fechou os olhos e se concentrou em tentar discernir alguma palavra, algum xingamento, algum insulto, mas o som desapareceu. Quase tomado de tristeza por ter perdido a quase-companhia que acabara de ganhar, abriu os olhos, procurando no teto certa esperança. E antes que pudesse cessar as buscas, voltou a ouvir a discussão. Deviam estar perto da janela, agora, mas Tiago não pensou nisso. Não pensou em nada, para não afugentar o som.
"Você acha que eu sou cego? Que não vi vocês trocando olhares na pista?", disse ele. A voz era irritada, muito irritada. Máscula e irritada. Quase-descontrolada. Um sussuro ainda mais baixo, um choro, era proferido pela contraparte da discussão.
Um barulho seco e agudo. "Isso é pra você deixar de ser vagabunda! Sua piranha!".
Tiago não movia um músculo. O choro aumentava de volume e intensidade, e de alguma forma Tiago imaginava que o choro estava sendo abafado. Talvez um travesseiro. Talvez.
"Não faz essa cara de coitada, não. Se você acha que estou te maltratando, você vai ver o que vou fazer com aquele filho da puta, amanhã. Não, senhora, vem cá!". E um barulho de queda, de tombo, vibrou no teto. Pés de cama arrastados. O choro abafado lentamente transformando-se em um choro de medo e agonia. Mas ainda abafado. Não era um travesseiro. Talvez um mordaça?
Tiago não se sentia confortável. Uma fraca dor de cabeça pronunciava-se nas têmporas e o suor do corpo transferindo-se para o lençol mal estirado dava uma sensação de leve formigamento. A cada pequeno mover da cama, no andar de cima, com força, com raiva, o choro oscilava. O ritmo compassado da cama, do amortecer do colchão trouxeram à mente do garoto um pensamento libidinoso. Ruborizou e o suor continuou a escorrer-lhe pelo corpo, enquanto o entumescimento dentro de sua bermuda velha e confortável tornava-se visível. Foi trazido de volta do pequeno delírio momentâneo por um barulho mais estridente, como um tapa. O pequeno choro virou-se em grito. Sem perceber porque, Tiago sentou-se na cama. Sua dor de cabeça aumentava.
"Gostou, né, vadia? Agora vamos tomar banho, e você vai ver o que é bom!". O choro ainda abafado foi acompanhado de outro baque, que lembrou Tiago das peças de carne que ele jogava nos balcões de madeira do frigorífico antes de lavá-los. E assim como no frigorífico a peça de carne foi sendo arrastada. Ele podia sentir o atrito do corpo da garota contra o solo, percorrendo em diagonal o quarto, enquanto ela parecia se debater, isso sim, felizmente, diferente das peças do frigorífico.
Seguiu o movimento com os olhos, pelo teto, mas uma inquietação fazia suas mãos formigarem. Aquilo não parecia ir nada bem. Seus olhos foram percebendo o diminuir do som, e seus ouvidos anteciparam o barulho liso, frio e duro que viria logo depois, quando seus olhos encontraram a porta do banheiro, no canto do quarto. Levantou-se, mas a tontura o fez sentar-se novamente. Segurou-se na cama, arfando, suando, ouvindo e sentindo suas têmporas latejarem. Ouviu a porta do banheiro bater, como um impulso para colocá-lo de pé. Olhou para o telefone, que como o relógio, fingia não presenciar nada daquilo. Pensou em chamar a polícia. Levantou-se e ouviu o barulho de água enchendo algo que todos os banheiros do prédio tinham em comum: uma banheira. Ouviu uma pancada contra a pedra da banheira. Uma joelhada talvez, ou uma cabeçada. Sentiu náuseas e precipitou-se para o banheiro.
Acendeu a luz do cômodo azulejado de branco com flores amarelas e olhou para a banheira, enquanto ouvia gemidos e gritos mais abafados ainda, quase-borbulhantes. O barulho da água sendo remexida não o deixava ouvir direito. Respirou fundo e foi até a pequena janela, quando ouviu o arfar da garota, como que saindo de um longo e desagradável passeio sob a água.
"Não me machuca mais, por favor.. não me mata!", chorou ela. Ouvia os pingos que desciam do rosto da menina e chegavam à superfície e tentava imaginar quantos daqueles eram lágrimas. E antes que pudesse adivinhar, ouviu o grito dela sob a água: sufocante, asfixiante, agonizante. Os pés e pernas debatendo-se contra o azulejo num bizarro, veloz e agoniante sapateado.
"Agora você nunca mais me trai, sua vaca!". Tiago repetiu a fala do homem, balbuceando e sentindo um calor que percorria sua espinha. Precisava ajudá-la, e tentaria fazê-lo antes que sua cabeça explodisse em dor.
Saiu correndo pela porta do apartamento, desesperado, ainda meio tonto, e subiu as escadas. Tentava não fazer barulhos nas velhas escadas de madeira, para que o barulho não o fizesse deixar de escutar a pobre garota se afogando e tentando buscar o ar em seus últimos alvéolos. Parou diante da porta e só então se deu conta que estava apenas de cuecas e que não havia trazido sequer uma faca de cozinha para se defender, caso o insano homem tentasse juntá-lo ao destino de sua quase-morta namorada.
Balançando a cabeça para arrancar essas preocupações - e a dor - ele se afastou da porta e se preparou. Deu dois passos rápidos e socou a porta, forte, alto, rápido. Ainda podia ouvir os frágeis pés da garota tentando arrancar algum atrito do chão liso do banheiro. Socou de novo.
"Droga! O que eu estou esperando? Que ele abra educadamente a porta?", falou baixo para si mesmo, e afastou-se novamente na intenção de correr e arrombar logo a porta. Percebeu alguém saindo de outro apartamento, mas não intimidou-se. Preparou-se e ergueu a perna para desferir o golpe na porta. Ouviu então o ferrolho da porta abrir-se. Ouviu o som da maçaneta girando. Ergueu a faca, por impulso, para atacar o maníaco de mãos molhadas e braços fortes que encararia num segundo. O vão entre a porta e o batente começou a surgir e aumentar, mostrando uma fraca luz amarelada que vinha do apartamento e em seu caminho iluminava o tísico e frágil rosto de uma senhora.
"Pois, não? Quem é? O que está acontecendo?", o ensonado rosto perguntava.
"O homem, o homem! No banheiro. Vai matar a garota!". Em sua ânsia, Tiago não percebeu que a senhora era quase-cega.
"Que homem? Eu vivo sozinha aqui!", retrucou ela.
"Mas.. mas..", Tiago olhou para o chão e antes de cair de joelhos e desmaiar, ouviu, dentre as escuras e tortuosas fendas do assoalho, a quase-voz borbulhante e abafada da quase-garota cessar, e o decisivo baque de suas quase-pernas contra o quase-chão quase-molhado e quase-frio e quase-liso e quase-real.
See Ya
13.11.06
2.11.06
Despojos
Deixou de lado o último crânio, ainda umedecido por sua saliva, e escalou a pilha de ossos. Do topo viu as luzes vermelhas e as tropas se aproximando. A floresta de aço retorcido projetava sua sombra sobre sua posição, e isso seria suficiente para protegê-lo, por hora. Desceu do monte ossário e apanhou um fêmur, o mais robusto que encontrara.
Caminhou ao largo do vale seco, orientando seus passos para longe das sirenes e estopins atrás de si. Por um segundo lembrou-se que já soubera o que é Efeito Doppler. Então viu sombras moverem-se mais abaixo, nas profundezas do antigo rio. Deitou-se rapidamente, reconhecendo no vibrar do solo o ronco dos veículos das tropas. Haviam se movido pelo vale, o que era óbvio. Com mais espaço e terreno aberto, chegariam aos fossos em breve. Fim.
Levantou e correu, ouvindo os zunidos dos disparos sobre sua cabeça. Avistou o Tronco e desceu desesperado, mais para dentro do vale. Para mais próximo de seus algozes, mas onde sabia que haveria uns bons quilômetros de rochas por onde poderia correr e se proteger ao mesmo tempo. Na terceira pedra sobre a qual correu, deixou sangue de sua perna. Os músculos não queriam mais responder. Veio o segundo baque e o acertou nas costas. Foi ao chão e só teve chance de girar sobre seu próprio peso para se jogar numa das frestas da escarpa rochosa. No fundo bateu a cabeça e lembrou-se do crânio que devorara, minutos antes. Escuridão.
Quando despertou estava vendo o bloco rubro-cinzento que costumava chamar de céu. Algo incidia de forma dolorosa em suas costas, na altura dos rins. Tateou ao seu redor e retirou o que o estava ferindo: uma lata vermelha, desbotada, com um "C" branco que iniciava uma palavra já há muito tempo apagada. Estava num dos depósitos. Mas não fazia idéia de como chegara lá. A perna ferida ardia e pulsava, mas a costas estavam bem. Calculou que não fora atingido por uma bala no segundo impacto, mas antes de poder se certificar, viu um vulto crescer ao seu lado.
A pele negra esverdeada brilhou na luz vermelha que vinha de longe. O corpo longo e forte exibia um de seus braços erguidos, com uma arma feita de ossos pronta para desferir-lhe um golpe. Teve tempo de usar a lata para aparar o golpe, forte e preciso. Sentiu alguns dedos entortarem, mas não hesitou em pegar a arma que fora ao chão. Ergueu a arma para se proteger, mas o inimigo não atacou. Paralizou-se com a arma em punho e olhou seu opositor. Os olhos esbranquiçados do outro fitavam-no, piscando de vez em quando. Estava no ninho de outro come-ossos. O longo tempo de contemplação não durou muito. Viu as luzes vermelhas saírem de trás dos destroços do ninho. Seu oponente olhou por sobre os ombros e tentou correr, mas seu crânio espatifou-se com a força dos disparos das tropas que avançavam, mais uma vez. Sentiu pena e rancor do come-ossos que o salvara para salvar seu almoço e agora perdera o próprio crânio. Pena: parecia apetitoso.
Baixou a arma e esperou o desfecho, mas ele não veio. Dois blindados o agarraram e arrastaram. Chegou tão perto de um deles, que sentiu o cheiro metálico da armadura arranhada e envelhecida. Sentiu a picada no braço e tentou escapar, mas as mãos hidráulicas não permitiram. A queda da pressão, como soubera um dia, fez com que vomitasse algo amargo e verde. Desfaleceu.
Viu, quando acordou, os fossos, bem abaixo, ardendo em chamas e balas. Pensou nos mortos. Pensou nos sobreviventes. Pensou no que seria e pensou, acima de tudo, no que mais o incomodava: por que ele? Apagou.
See Ya
Deixou de lado o último crânio, ainda umedecido por sua saliva, e escalou a pilha de ossos. Do topo viu as luzes vermelhas e as tropas se aproximando. A floresta de aço retorcido projetava sua sombra sobre sua posição, e isso seria suficiente para protegê-lo, por hora. Desceu do monte ossário e apanhou um fêmur, o mais robusto que encontrara.
Caminhou ao largo do vale seco, orientando seus passos para longe das sirenes e estopins atrás de si. Por um segundo lembrou-se que já soubera o que é Efeito Doppler. Então viu sombras moverem-se mais abaixo, nas profundezas do antigo rio. Deitou-se rapidamente, reconhecendo no vibrar do solo o ronco dos veículos das tropas. Haviam se movido pelo vale, o que era óbvio. Com mais espaço e terreno aberto, chegariam aos fossos em breve. Fim.
Levantou e correu, ouvindo os zunidos dos disparos sobre sua cabeça. Avistou o Tronco e desceu desesperado, mais para dentro do vale. Para mais próximo de seus algozes, mas onde sabia que haveria uns bons quilômetros de rochas por onde poderia correr e se proteger ao mesmo tempo. Na terceira pedra sobre a qual correu, deixou sangue de sua perna. Os músculos não queriam mais responder. Veio o segundo baque e o acertou nas costas. Foi ao chão e só teve chance de girar sobre seu próprio peso para se jogar numa das frestas da escarpa rochosa. No fundo bateu a cabeça e lembrou-se do crânio que devorara, minutos antes. Escuridão.
Quando despertou estava vendo o bloco rubro-cinzento que costumava chamar de céu. Algo incidia de forma dolorosa em suas costas, na altura dos rins. Tateou ao seu redor e retirou o que o estava ferindo: uma lata vermelha, desbotada, com um "C" branco que iniciava uma palavra já há muito tempo apagada. Estava num dos depósitos. Mas não fazia idéia de como chegara lá. A perna ferida ardia e pulsava, mas a costas estavam bem. Calculou que não fora atingido por uma bala no segundo impacto, mas antes de poder se certificar, viu um vulto crescer ao seu lado.
A pele negra esverdeada brilhou na luz vermelha que vinha de longe. O corpo longo e forte exibia um de seus braços erguidos, com uma arma feita de ossos pronta para desferir-lhe um golpe. Teve tempo de usar a lata para aparar o golpe, forte e preciso. Sentiu alguns dedos entortarem, mas não hesitou em pegar a arma que fora ao chão. Ergueu a arma para se proteger, mas o inimigo não atacou. Paralizou-se com a arma em punho e olhou seu opositor. Os olhos esbranquiçados do outro fitavam-no, piscando de vez em quando. Estava no ninho de outro come-ossos. O longo tempo de contemplação não durou muito. Viu as luzes vermelhas saírem de trás dos destroços do ninho. Seu oponente olhou por sobre os ombros e tentou correr, mas seu crânio espatifou-se com a força dos disparos das tropas que avançavam, mais uma vez. Sentiu pena e rancor do come-ossos que o salvara para salvar seu almoço e agora perdera o próprio crânio. Pena: parecia apetitoso.
Baixou a arma e esperou o desfecho, mas ele não veio. Dois blindados o agarraram e arrastaram. Chegou tão perto de um deles, que sentiu o cheiro metálico da armadura arranhada e envelhecida. Sentiu a picada no braço e tentou escapar, mas as mãos hidráulicas não permitiram. A queda da pressão, como soubera um dia, fez com que vomitasse algo amargo e verde. Desfaleceu.
Viu, quando acordou, os fossos, bem abaixo, ardendo em chamas e balas. Pensou nos mortos. Pensou nos sobreviventes. Pensou no que seria e pensou, acima de tudo, no que mais o incomodava: por que ele? Apagou.
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