1984 (com vinte anos de atraso)
... e o que é pior: voluntário! Acho que nem nos piores sonhos o George Orwell pensaria nisso. Vocês viram a história dos celulares com GPS? Resumidamente, os pais vêm comprando celulares com rastreador para saber com exatidão onde seus filhos estão. E não só os pais: namorados, namoradas, maridos e congêneres também estão nessa. No dia 12 de dezembro rolou uma matéria na Folha de S. Paulo sobre isso.
Bom, vamos ouvir os caras um pouco. O que eles argumentam? Que assim podem "ter mais segurança" ao saber onde os filhos/parceiros estão. Detalhe: se o celular for desligado, ou jogado fora pelos bandidos, não adianta nada. Fica só a ilusão do controle. E tem gente que ainda acha que é bonitinho. A matéria traz o depoimento de uma menina que diz se sentir melhor porque sabe que a mãe está velando por ela o tempo todo. Faça-me o favor!!!
Pensem um pouquinho: do que é que abrimos mão para termos as propaladas benesses da tecnologia? E-mail já virou festa. Sala de bate-papo, então, nem se fala. Orkut tá aí, virando a febre daqueles que estão eternamente "em busca da próxima paquera/ficada". As câmeras digitais daqui a pouco vão ser vendidas em lojas de 1,99. E o Photoshop custa 8 reais em qualquer camelô da Santa Ifigênia.
Vejam, eu seria o último a defender a volta à idade da pedra. Minha área não é tecnologia, mas tenho isso tudo aí em cima e mais um pouco (câmera digital, e-mail, Orkut, MSN Messenger... até ICQ de número baixo), mas onde será que a gente determina que ali é o limite para "abrir as pernas"? Será que sequer determina? Será que a necessidade de status, de ser hype, não custa caro demais? Será que "privacidade" vai logo ser um conceito ultrapassado?
Meu companheiro neste cafofo digital optou por não ter celular. Apesar de eu sempre chamá-lo de índio (heheh), começo a achar que ele está é certíssimo -- e é até por isso que eu vou passar parte das minhas férias longe de computador, celular, televisão e carro. Vamos brincar de dar um tempo? ;-)
Quando eu dependia do dinheiro da minha família para viver, não havia celulares. Mas, olhando em retrospecto, acho que dificilmente eu teria um aparelho moderno ao preço de ser vigiado todo o tempo. Naquela época, celular não tinha. Mas eu já tinha lido 1984. E a perspectiva da tal da Teletela me dava um medo absurdo!
PS: Para quem quiser saber mais sobre o livro 1984, este site é legal -- e, no mínimo, serve para saber que a expressão "Big Brother" não foi invenção da Rede Globo...
Coisas sérias e não sérias. Ácidas e às vezes doces. E outros comentários, como cinema, comportamento, literatura, etc...
15.12.04
Sempre existirá Terraplana
Voava por sobre as matas. Circundava as serras. A uns causava espanto, pois aos olhos trazia folhas em dança frenética. A outros mostrava esperança, pois distraía o sol e deixava a pele descansar de tamanho calor. Ainda a outros levava a liberdade, pois as roupas balançava, os cabelos esvoaçava e o pensamento alimentava.
Pensamentos estes que ela mesma nutria, ela mesma criava e espalhava. Em viagens sem fim por Terraplana, que conhecia como conhecia os rios e cachoeiras, como conhecia os parques e bosques, os aflitos e os enamorados, que conhecia como suas próprias palmas. E ali, naquele dia, fez-se ainda mais forte, fez-se ainda mais alta e ninguém diria que não a viu e que não a percebeu naquele dia. E todos a saudaram, e todos foram às janelas para vê-la passar e rodopiar e dançar e levar tudo a sua volta a dançar com ela.
E crianças na rua brincaram com seus cabelos e braços dançantes. E cachorros nas casas, pois em Terraplana não há cachorros nas ruas, correram atrás de sacolas que ela atirou para eles. E homens deixaram que suas mãos os acariciassem, como num caso de amor que alivia e refresca. E mulheres dançaram ao léu quando ela passou, pois ali viam a mais bonita e empolgante força do dia.
E ninguém sabia explicar, mas todos sabiam que o dia fora único quando a noite caiu. Todos poderiam contar isso gerações adiante, enquanto ela subia, se afastando e se deixando arrefecer depois de tanto comemorar. Numa praia graciosa foi descansar e sobre as pedras e sob pontes foi correr, lembrando o porque daquilo tudo. E lembrou-se de quando nasceu e de quanto havia passado até ali. Há muito havia escolhido Terraplana como sua casa e santuário. E ali plantou tantas maravilhas e carregou tantas palavras e tantos orvalhos e tantas outras coisas, que até mesmo seu nome esqueceram. E até esqueceram de onde ela viera e que era um Anjo. E então a chamaram de brisa. E brisa foi. E brisa continuou sendo, e sendo brisa comemorava.
Pois era aniversário da Brisa.
See Ya
PS: parabéns Hérica. Parabéns pra você que é rocha, mas que também é brisa. E obrigado por me dar a certeza de que grandes amizades nada tem a ver com distância ou tempo.
Voava por sobre as matas. Circundava as serras. A uns causava espanto, pois aos olhos trazia folhas em dança frenética. A outros mostrava esperança, pois distraía o sol e deixava a pele descansar de tamanho calor. Ainda a outros levava a liberdade, pois as roupas balançava, os cabelos esvoaçava e o pensamento alimentava.
Pensamentos estes que ela mesma nutria, ela mesma criava e espalhava. Em viagens sem fim por Terraplana, que conhecia como conhecia os rios e cachoeiras, como conhecia os parques e bosques, os aflitos e os enamorados, que conhecia como suas próprias palmas. E ali, naquele dia, fez-se ainda mais forte, fez-se ainda mais alta e ninguém diria que não a viu e que não a percebeu naquele dia. E todos a saudaram, e todos foram às janelas para vê-la passar e rodopiar e dançar e levar tudo a sua volta a dançar com ela.
E crianças na rua brincaram com seus cabelos e braços dançantes. E cachorros nas casas, pois em Terraplana não há cachorros nas ruas, correram atrás de sacolas que ela atirou para eles. E homens deixaram que suas mãos os acariciassem, como num caso de amor que alivia e refresca. E mulheres dançaram ao léu quando ela passou, pois ali viam a mais bonita e empolgante força do dia.
E ninguém sabia explicar, mas todos sabiam que o dia fora único quando a noite caiu. Todos poderiam contar isso gerações adiante, enquanto ela subia, se afastando e se deixando arrefecer depois de tanto comemorar. Numa praia graciosa foi descansar e sobre as pedras e sob pontes foi correr, lembrando o porque daquilo tudo. E lembrou-se de quando nasceu e de quanto havia passado até ali. Há muito havia escolhido Terraplana como sua casa e santuário. E ali plantou tantas maravilhas e carregou tantas palavras e tantos orvalhos e tantas outras coisas, que até mesmo seu nome esqueceram. E até esqueceram de onde ela viera e que era um Anjo. E então a chamaram de brisa. E brisa foi. E brisa continuou sendo, e sendo brisa comemorava.
Pois era aniversário da Brisa.
See Ya
PS: parabéns Hérica. Parabéns pra você que é rocha, mas que também é brisa. E obrigado por me dar a certeza de que grandes amizades nada tem a ver com distância ou tempo.
9.12.04
Interferência
O mundo foi feito para ser provado em seu estado real? O Princípio da Incerteza de Heisenberg previu na física quântica o que a vida põe a frente de nossos olhos todos os dias: quando mais informação se obtem de um fato, de um momento, de um estado, maior é a incerteza dos dados ou, trocando em miudos, quanto mais sabemos de uma coisa, mais interferimos nela, e por isso sabemos de forma mais imprecisa, incerta.
Uma vez que tenhamos lançado um simples olhar sobre a realidade, mesmo que de forma introspectiva e pessoal, já a modificamos, ainda que no espectro introspectivo e pessoal (obviamente). E quando geramos conhecimento a partir da realidade observada (e modificada) geramos apenas uma máscara da realidade moldada por nossas percepções e vontades, que também será modificada pelo outro quando este observar a ersão da realidade criada por você. Extrapole isso para um grupo maior de pessoas, digamos 6 bilhões, e inclua nisso mecanismos de comunicação em massa, padronização e rotulação da opinião e acúmulo cultural e conceitual de uma civilização que já dura pelo menos 10 mil anos, e duvido que algum computador atual ou futuro possa definir a quantidade de mundos que habitam nossa auto-entitulada realidade.
E procurando aumentar ainda mais esse número, eu questiono vocês e a mim mesmo: é possível observar, medir, enxergar, inferir ou determinar o que é a Primeira Realidade, ou a realidade original. Ou melhor, é possível saber o que é a Segunda realidade (ou seja, a Primeira Realidade modificada) e dessa forma conseguir determinar o que é a Primeira Realidade?
See Ya
PS: o texto acima é o início da discussão Interferência que comecei no Orkut, dentro de uma nova e promissora comunidade. Criada por um grande amigo para gerar paradoxos reais e irreais e tentar sustentar que o que chamamos de realidade não passa de um amontoado de ilusões, a comunidade Illusions promete ser um bom centro de discussões filosóficas e viajantes. Participem.
O mundo foi feito para ser provado em seu estado real? O Princípio da Incerteza de Heisenberg previu na física quântica o que a vida põe a frente de nossos olhos todos os dias: quando mais informação se obtem de um fato, de um momento, de um estado, maior é a incerteza dos dados ou, trocando em miudos, quanto mais sabemos de uma coisa, mais interferimos nela, e por isso sabemos de forma mais imprecisa, incerta.
Uma vez que tenhamos lançado um simples olhar sobre a realidade, mesmo que de forma introspectiva e pessoal, já a modificamos, ainda que no espectro introspectivo e pessoal (obviamente). E quando geramos conhecimento a partir da realidade observada (e modificada) geramos apenas uma máscara da realidade moldada por nossas percepções e vontades, que também será modificada pelo outro quando este observar a ersão da realidade criada por você. Extrapole isso para um grupo maior de pessoas, digamos 6 bilhões, e inclua nisso mecanismos de comunicação em massa, padronização e rotulação da opinião e acúmulo cultural e conceitual de uma civilização que já dura pelo menos 10 mil anos, e duvido que algum computador atual ou futuro possa definir a quantidade de mundos que habitam nossa auto-entitulada realidade.
E procurando aumentar ainda mais esse número, eu questiono vocês e a mim mesmo: é possível observar, medir, enxergar, inferir ou determinar o que é a Primeira Realidade, ou a realidade original. Ou melhor, é possível saber o que é a Segunda realidade (ou seja, a Primeira Realidade modificada) e dessa forma conseguir determinar o que é a Primeira Realidade?
See Ya
PS: o texto acima é o início da discussão Interferência que comecei no Orkut, dentro de uma nova e promissora comunidade. Criada por um grande amigo para gerar paradoxos reais e irreais e tentar sustentar que o que chamamos de realidade não passa de um amontoado de ilusões, a comunidade Illusions promete ser um bom centro de discussões filosóficas e viajantes. Participem.
7.12.04
Impercílio
(da série "O Surreal da Vida Real")
Você sabe o que é a palavra aí em cima? Não? Pois é, eu também não sabia.
Acontece que o site do lugar em que trabalho recebe uma quantidade razoável de pedidos de informação todo dia. Chegam as coisas mais estranhas, mas esse eu achei que valia a pena compartilhar. A única edição foi para preservar nomes de pessoas e instituições; e os grifos são meus. O resto está ipsis litteris. Vejam só:
Bom dia. Sou estudante de jornalismo da Universidade Nonono e gostaria de fazer o curso de inglês no exterior atravéz da Nonono. Tenho familiares nos Estados Unidos, portando a hospedagem não seria o impercílio.Gostaria de saber se a escola tem este tipo de serviço aoferecer.Se tiver porfavor enviem-me um E-mail dizendo sobre os planos, forma de pagamento e o que mais for necessário.Necessito com urgência,portanto aguardo anciosamente. Desde já muito obrigada.
Sacou agora o que é impercílio? Muito beeeeem, Pequeno Gafanhoto!!! Eu até hoje me espanto com a criatividade de certos erros. Coisa do tipo "atravéz" e "anciosamente" já perderam a graça -- mas o tal do "impercílio" foi campeão!
Ironia final: a pessoa é estudante de Jornalismo, senhoras e senhores!!! No limite, de onde é mesmo que vêm as notícias/informações que a gente recebe?
(da série "O Surreal da Vida Real")
Você sabe o que é a palavra aí em cima? Não? Pois é, eu também não sabia.
Acontece que o site do lugar em que trabalho recebe uma quantidade razoável de pedidos de informação todo dia. Chegam as coisas mais estranhas, mas esse eu achei que valia a pena compartilhar. A única edição foi para preservar nomes de pessoas e instituições; e os grifos são meus. O resto está ipsis litteris. Vejam só:
Bom dia. Sou estudante de jornalismo da Universidade Nonono e gostaria de fazer o curso de inglês no exterior atravéz da Nonono. Tenho familiares nos Estados Unidos, portando a hospedagem não seria o impercílio.Gostaria de saber se a escola tem este tipo de serviço aoferecer.Se tiver porfavor enviem-me um E-mail dizendo sobre os planos, forma de pagamento e o que mais for necessário.Necessito com urgência,portanto aguardo anciosamente. Desde já muito obrigada.
Sacou agora o que é impercílio? Muito beeeeem, Pequeno Gafanhoto!!! Eu até hoje me espanto com a criatividade de certos erros. Coisa do tipo "atravéz" e "anciosamente" já perderam a graça -- mas o tal do "impercílio" foi campeão!
Ironia final: a pessoa é estudante de Jornalismo, senhoras e senhores!!! No limite, de onde é mesmo que vêm as notícias/informações que a gente recebe?
6.12.04
Nada
Talvez o nada te descreva, ou seja só uma forma de ficar bêbado sem sentir o gosto do álcool na boca. É difícil brincar de polícia e ladrão com armas de verdade.
Você não sente mais, mas não se importa. Porque se importar seria sentir demais, e você não sente mais nada. Lembra da sensação, lembra do ritmo e de como era fácil apontar para o culpado e atirar. Mas agora o culpado é você e não há balas na agulha.
Culpe o sistema e culpe seu chefe. Culpe sua mãe e culpe seus filhos. Culpe sua esposa e culpe aquela vagabunda do escritório que você gostaria de comer. Culpe o dinheiro e culpe o governo Lula. Culpe Deus e culpe a sua idade. Mas você alimenta o inimigo quando almoça. Olha-o nos olhos quando se encontra no espelho.
Ser você mesmo ficou caro demais, e se vender ficou muito mais barato. É um mercado em ascensão e você tem budgets otimistas. Você valoriza sua alma vendida porque esqueceu o que sua mente pensaria sobre você. A opinião do outro é mais importante agora. Você se anulou e diz que nada mais rende como antes. É matemática: zero vezes qualquer número ainda é zero.
Reaja, seu bosta! Vai acabar, se já não está, com aquela arma sem balas apontada para a própria cabeça. Um gesto tão significativo quanto acenar para um astronauta boiando no espaço. E quando apertar o gatilho e nada acontecer, mais uma vez o nada te definirá. Volte ao topo e recomece a leitura, só pare quando tiver algo no cano e um alvo melhor que sua cabeça vazia para apontar.
See Ya
Talvez o nada te descreva, ou seja só uma forma de ficar bêbado sem sentir o gosto do álcool na boca. É difícil brincar de polícia e ladrão com armas de verdade.
Você não sente mais, mas não se importa. Porque se importar seria sentir demais, e você não sente mais nada. Lembra da sensação, lembra do ritmo e de como era fácil apontar para o culpado e atirar. Mas agora o culpado é você e não há balas na agulha.
Culpe o sistema e culpe seu chefe. Culpe sua mãe e culpe seus filhos. Culpe sua esposa e culpe aquela vagabunda do escritório que você gostaria de comer. Culpe o dinheiro e culpe o governo Lula. Culpe Deus e culpe a sua idade. Mas você alimenta o inimigo quando almoça. Olha-o nos olhos quando se encontra no espelho.
Ser você mesmo ficou caro demais, e se vender ficou muito mais barato. É um mercado em ascensão e você tem budgets otimistas. Você valoriza sua alma vendida porque esqueceu o que sua mente pensaria sobre você. A opinião do outro é mais importante agora. Você se anulou e diz que nada mais rende como antes. É matemática: zero vezes qualquer número ainda é zero.
Reaja, seu bosta! Vai acabar, se já não está, com aquela arma sem balas apontada para a própria cabeça. Um gesto tão significativo quanto acenar para um astronauta boiando no espaço. E quando apertar o gatilho e nada acontecer, mais uma vez o nada te definirá. Volte ao topo e recomece a leitura, só pare quando tiver algo no cano e um alvo melhor que sua cabeça vazia para apontar.
See Ya
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