21.7.06

Retiro de fim de semana

Viver num retiro de fim de semana é foda. Isso não é vida que se queira, imagino eu. Mas sempre tem alguém pra passar a mão na sua cabeça e dizer que amanhã o sol vai nascer de novo e tudo vai estar bem.

Já ouvi gente dizer que embora não se seja espiritualizado, acredita que "no final tudo vai dar certo". Isso certamente é viver num retiro de fim de semana, onde no final do dia todos se encontrarão ao redor da fogueira e cantarão juntos músicas do Legião.

E não estou falando das já tão citadas máscaras dessa vez.

A questão toda é o conforto.

Complicado? Nem. Complicado não é. Olhe em volta e veja o tanto de coisas que já foram feitas, e vc vai entender que não é complicado.

Por que só uma parcela ínfima das pessoas são tão boas no que fazem a ponto de serem inovadoras?

Conforto.

Por conta disso é que milhões morrem sem ter vivido sequer um dia, porque talvez tenhamos entendido em algum ponto da evolução que conforto resolve, quando na verdade ele só nos ajuda a encostar e engordar feitos porcos. Pense no que te separa deles. Não é cérebro, não é QI, não é uma quantidade X de genes.

Nem diria que é a excentricidade, mas o fato é que alguma coisa ainda me (nos) impede de sermos inovadores e com isso mudar a face de algo nas nossas vidas e nas dos outros.

ISSO NÃO É UM RETIRO DE FIM DE SEMANA.

Aqui sou só um texto e só significo uma vontade de fazer algo. Mas você pode pegar isso, essa idéia e ganhar um norte, um caminho, um rumo. Mas aí é com você. Ou comigo. Você entendeu.

See Ya

PS: este post eu dedico a todos que me apoiam nas minhas decisões e que não tem culpa se no fim eu me estrepo ou não.

14.7.06

Nunca lá (Never there)

Muito antes de perdê-la nada fazia mais sentido. Achei mesmo que as coisas melhorariam quando eu tivesse partido. Hoje não acredito nem que teriam melhorado se eu tivesse ficado. Nunca a culpei por isso e nunca vou culpar. Ela nunca teve culpa por eu não saber lidar com nada e não me adaptar - ou pertencer - ao mundo em que vivo. Nunca foi verdade que eu não acreditava em nada. Eu acreditava em mim. Todos precisam de um Deus, e o meu, como todos os outros, falhou, e jogou minha crença na lama, pisou nela e a afogou na água suja.

Desde então eu sou um espectro do que já fui. Sou apático e indiferente. As coisas que fiz no último ano, exceto por uma, não foram decisão minha. Tenha um carro, construa algo, volte a estudar, tenha um relacionamento, troque de emprego, alugue uma casa. De quem diabos foram essas idéias? Minhas não foram, disso eu sei. A merda de conhecer gente que te conhece tão bem é que as decisões deles acabam parecendo com as suas. Mentira deslavada. Nenhuma dessas decisões são sequer parecidas com as minhas. Mas eu não sei qual seriam as minhas, mesmo porque isso não faz a menor diferença agora. Eu não faço nenhuma diferença.

Convencer-se da própria pequenez e insignificância é visto com bons olhos só no enterro dos outros, quando damos de cara com nossa fragilidade, impotência e estupidez. No resto do tempo é bobo e infantil, ou é doentio, motivo de dó, pena, descaso e ignorância. Bem, eu estou convencido. Convencido de que nada disso vale a pena - nem mesmo acertar um tiro na própria cabeça ou me jogar nos trilhos do metrô. Convencido de que nunca fiz e nunca vou fazer diferença em porra nenhuma. Convencido de que se por algum motivo - qual seria mesmo? - eu cair morto aqui ao lado do teclado agora, não terá feito nenhuma diferença, não terá sido nada, como sempre nada foi. Pessoas sofrerão, sim. Mas elas sofrerão do mesmo modo, comigo vivo ou morto, aqui do lado ou cavando gelo na Sibéria.

Não, eu não quero morrer. Não, eu não quero viver. Não, eu não quero não-existir. Não, eu não quero nada. Querer está além de mim, agora. Agora e sempre. Um cadáver com ATP demais na musculatura, que cansou de se enganar sobre as coisas e sobre o livre arbítrio. Que, enjoado com a própria bile, segue aceitando idéias e desejos e quereres dos outros, apenas pra não ficar ouvindo a mesma ladainha sobre porque ele deveria fazer certas coisas.

E assim será. Bem vindo a idade adulta, eu ainda ouço, ecoando aqui dentro. Obrigado. E cortem o papo de se ajudar, procurar ajuda ou se cuidar mais. Se essa é a vida adulta, vamos tratá-la como tal: eu finjo tomar decisões e saber o que estou fazendo, as coisas fingem sentirem o efeito disso. Ninguém mete o bedelho. Fim de papo.

See ya

18.6.06

Por que me ufano

Sim, eu vou contar vantagem. Se não estiver a fim, passa amanhã.

Faz pouco menos de dez dias, o lugar em que eu trabalho recebeu um prêmio -- bem significativo, aliás -- de melhor empresa no seu formato de negócio. Guardadas as devidas proporções, a linha é "entrega de Oscar": todo o ritual, discursos, troféus, entrevista para programa da Globo, foto para jornal, essas coisas.

Mas o que me motivou a escrever aqui nem foi a premiação em si, mas as coisas que passaram pela minha cabeça em função dela. Essencialmente, fiquei me perguntando porque fomos os vencedores se, afinal de contas, não somos a maior empresa da área; ou a mais rica; ou "peixinho" de alguém poderoso; ou a única do segmento; ou, ou, ou...

Então veio a noite da entrega, em uma casa de shows sofisticada, com um jantar idem e todas as frescuras esperadas. E foi lá que tive o insight que me fez imaginar o principal motivo de termos sido premiados.

Para explicar isso, preciso descrever que são onze categorias de empresas, cada uma com um vencedor. E, destes, há um que é o grande ganhador dentre todas as categorias. No caso, nós :-) . Ah, e uma coisa bem interessante: o critério de maior peso para pontuação é a opinião que os franqueados têm sobre o trabalho do franqueador.

Depois dos discursos das "autoridades presentes" e do jantar já iniciado, foram sendo anunciados os vencedores em cada categoria. E a cada anúncio, as palmas previstas e o breve discurso do representante do ganhador. Até que chegou nossa categoria: as três mesas que ocupávamos fizeram a maior festa, com muito barulho e alegria (tínhamos inclusive aquelas cornetinhas infernais da Copa). Sabe a delegação do Brasil na abertura das Olimpíadas, em comparação com as dos outros países? Pois é.

Claro que, depois de nós, as outras vencedoras também começaram a ser mais ruidosas. E, ao final, quando anunciaram que éramos os melhores dentre os melhores, fizemos nova festa, ainda mais animada. Até foto com a língua no troféu nós tiramos (bando de adolescentes bobos heheh).

Tá, e o que isso tudo tem a ver com o tal insight? Tem a ver que, apesar de não termos um monte de grana, escritórios luxuosos, tecnologia avançadíssima, etc., que vários concorrentes têm, somos um grupo de pessoas que adoram o que fazem, onde fazem e com quem fazem. E isso percebe-se no nosso cotidiano -- que tem, sim, problemas, erros, excesso de trabalho, falta de instrumentos; mas que, no fim das contas, dá muito mais a sensação de realização do que de obrigação, e dá muito mais prazer do que encheção de saco.

Resumindo, esse prêmio -- que junta-se a vários outros, felizmente -- é uma forma de validação de um trabalho bem feito e feito com gosto. E, pessoalmente, é muito legal a sensação de que o que eu faço e a minha presença contribuíram para que isso acontecesse...

PS: Mudando de chuchu para abobrinha: sei que o assunto já esfriou, mas na mesma semana do ataque do PCC (ver post do Fabricio abaixo) estive no Rio de Janeiro. A princípio, imaginei que os cariocas usariam a oportunidade para "tirar barato de paulista", numas de "tá vendo como não é só aqui?". Para minha surpresa, o que aconteceu foi exatamente o contrário. As pessoas com quem conversei em vários contextos (colegas de trabalho, taxistas, pessoas na praia...) foram sem exceção solidárias, dizendo coisas como "que chato o que está acontecendo lá em São Paulo, né?". Ao despencar da minha mediocridade (!), achei legais as manifestações -- e me ocorreu que no Rio esse tipo de violência está de tal forma presente que já não dá para brincar com algo que faz sofrer tanto...

12.6.06

Vem aqui que eu não quero nada

Daqui a pouco vou achar que você está me paquerando.
Eu estou.
Está?
Não deveria?
Acho que não.
Por que não?
Eu sou estranha. Não sou gente boa.
Bom, não é nada de mais. Só estava te paquerando.
Estava?
Estou.
Ah... olha, eu sou confusão.
Tudo bem, eu pago pra ver.
Não. Você não vai gostar. Se eu não estivesse tão bêbada, me afastaria de você.
Que bom que está bêbada, então. Eu poderia me aproveitar disso.
Não seria nada bom.
É, não seria.
...
...
Por que você está rindo?
Esse foi o fora mais estranho que eu já tomei.
Foi um fora?
Parece que foi, né?
Ah, eu sou muito estranha. Eu tenho meu canto, meus limites.
Relaxa, eu não vou invadir seu canto.
Que bom. Obrigada. Melhor você me deixar quieta.
Tudo bem.
...
...
Mas podemos nos falar, tá?
Ah, claro. Obrigado.
...
...
Você não pode ir embora assim, está muito bêbado. Eu estou bêbada e você, bêbado.
Empresta o sofá?
Empresto minha cama.
Não. Então melhor dividir a cama.
É... Eu não costumo sair por aí dividindo a cama.
Não parece mesmo que costuma.
...
Você está se cobrindo. Vai dormir aí no sofá?
Vou.
Eu estou ficando com frio.
Vem cá. Deita aqui comigo.
Melhorou. Vamos dormir assim? Você não se importa?
Não. Está bom. Quentinho. Mas não vou transar com você.
Relaxa, não estava esperando nada.
...
...

See Ya

15.5.06

São Paulo e o caos

São quatro e pouco da tarde e sou um dos últimos na empresa. Corredores vazios, silêncio, aqui dentro. Lá fora, quilômetros e quilômetros de congestionamento. Pessoas atulhadas e com medo.

Tudo começou com o boato do toque de recolher. O metrô vai fechar. Bancos explodindo. Armas disparadas. Setenta ônibus destruidos. Noventa mortos. Três letras: PCC.

Enquanto todas as pessoas seguem temerosas e quietas para casa, ouço todo tipo de boato possível: pessoas metralhadas nas ruas, bancos detonados, fechamento disso e daquilo. Algumas coisas eu consegui confirmar pela web ou ouvindo o site da CBN. Mas a maioria são mentiras deslavadas ou então ações isoladas de pessoas se aproveitando pra usar de vandalismo.

Eu temo sair daqui e seguir até aqui pertinho, até o local onde moro. Não pelo PCC, obviamente. Ontem à noite um policial segurando uma escopeta parou meu carro num bloqueio, encarou-me por alguns segundos como se fosse Charles Bronson e fez sinal para que eu seguisse. Hoje imagino o que estes policiais, tão mal treinados e desinformados quanto a maioria dos ignorantes e idiotas que habitam esta cidade, farão. Devem estar loucos para atirar em qualquer um que possam culpar.

Temo por mais e mais ataques vândalos e que ficarão impunes. Temo pelos imbecis e broncos que votaram a favor do comércio de armas no referendo e devem estar segurando seus pintos de ferro apontados para a vizinhança, que provavelmente está calma. Temo pelos ignorantes que vão lutar pra chegar em casa mais uma vez. Essa massa de manobra, junto da mídia, ameaçam muito mais nossas vidas do que qualquer ataque do PCC. Nosso inimigo, essa noite, é o medo.

E tirando o medo, não vejo mais nada acontecendo. Poucas coisas foram confirmadas. Não há toque de recolher, por exemplo. Existe, sim, violência e caos nas ruas. mas isso foi totalmente manipulado, seja pelo PCC, seja pela polícia, seja pela mídia.

Bom, acaba de chegar um gerente aqui, me tocando do escritório. Tenho de ir.

Boa sorte a todos e não acreditem em tudo que seus olhos e ouvidos captarem. Sejam críticos, e sejam espertos.

See Ya