19.2.06

Punhalada

Isso aqui anda estéril. Estéril como a mente por trás deste post. Estéril como um cérebro que aborta todos os dias idéias e invenções. Ando me sentindo velho, ultimamente. Velho demais pra isso, velho demais praquilo, tenho dito aos ventos por aí.

Tenho sentido saudades daquele ímpeto pueril e adolescente de outrora, quando eu ainda não usava a palvra outrora. Tenho me envergonhado de mim mesmo por ficar quieto, por não responder, não xingar. Num dos meus post mais recentes eu troquei "foda-se" por "dane-se", por conselho de um amigo. Ficaria menos adolescente, ele disse.

No meu trabalho eu hesitei e não respondi um e-mail da forma como eu gostaria, como eu teria feito uns anos atrás. Sabe como é, né? Tenho contas, responsabilidades. Não posso ser inconsequente agora. A parte engraçada é que eu ainda tenho idade pra levar certos esporros. E de novo eu me senti envergonhado por ter abaixado a cabeça.

Nem este mísero espaço virtual anda digno. Transformei isso num recanto de rabugice e choramingos. Vi uma peça do Lourenço Mutareli na semana passada e senti vergonha, de novo. Ele incomodou a platéia toda com um texto. E eu já consegui fazer isso, mas ando mais frouxo que cu de puta velha.

Sem moral pra questionar, sem vontade de questionar. Apunhalei o cara de vermelho pelas costas e ninguém nem percebeu, por conta da cor da jaqueta. E nem coragem pra dizer: mas eu vou resolver isso, eu tenho tido. Hoje não tem solução mágica, questionamento inspirador, idéia resoluta. Hoje tem, sim, uma hora a mais no dia. Uma hora a mais pra continuar sendo idiota.

See Ya

29.1.06

O avesso do avesso do avesso do avesso do avesso

Qual o problema que certas pessoas tem de entender o que ouvem? Fantasiam pra se esconderem da dor. Não importa quão clara seja a conversa, o quanto sincero eu seja, algumas pessoas simplesmente ignoram o sentido real das palavras e guardam pra si somente o que interessa.

Existe algo de bom na esperança? É algo que faz todos acreditarem em coisas que não existem. É algo que faz todos se iludirem e obliterarem até ser tarde demais. Existe algo de bom na esperança?

Porque confundem respeito com abertura? Eu respeito, respeito, respeito. E aí as pessoas acham que eu estou sendo permissivo. Eu quero fazer a dor menor, fazer o sentimento mais importante. Mas nunca é suficiente. Nunca basta. Aí eu arrebento. Boto pra quebrar. E pronto: agora estou errado!

Provavelmente eu estou errado. Eu gosto de estar frequentemente errado. Permite a mim entender, perceber e aprender mais sobre eu mesmo.

Dane-se, então. Dane-se o companheirismo, o cavalheirismo e a atitude positiva. Dane-se a perspectiva, a genialidade, o "ser especial". Dane-se se não deu pra entender, dane-se se a porta bateu e tudo que restou foi o silêncio oscilando dentro da cabeça. Dane-se se eu fiz tudo certo achando que ia dar errado, ou se fiz tudo errado achando que ia dar certo.

Dane-se.

See Ya

PS: "Dizem que se você é feliz, é burro. E se for triste, é inteligente. Mas então seria muito inteligente sermos burros para sermos felizes. Só que como um burro pode ser inteligente pra ser burro só pra ser feliz?". Brilhante isso. Obrigado, Elacoelha.

10.1.06

Conspiração sob o sol

Por volta da hora do almoço de 31 de dezembro de 2005, já "crepúsculo do ano" (!). Rio de Janeiro, Ipanema, Posto 9 -- ou oito e meio, como insistem alguns. Sol delicioso, água idem, tudo de bom.

De repente, materializa-se na nossa frente um rapaz muito gentil que pede licença e nos oferece um folheto simples, tamanho A6 mais ou menos, com o seguinte texto (ipsis litteris):

É IMPERATIVO VOCÊ SABER

- DEUS, ANJOS E DIABO SÃO ALIENÍGENAS!
- EVA FOI UM CLONE
- JESUS O 1º BEBÊ DE PROVETA!
- A MORTE DE CRISTO (Um ser híbrido) FOI ESTRITAMENTE POLÍTICA!
- A CIÊNCIA SUBSTÍTUIRA A RELIGIÃO!
- A BÍBLIA É CIÊNCIA, TECNOLOGIA, FILOSOFIA, SOCIOLOGIA, POLÍTICA, UFOLOGIA, ASTROLOGIA ETC.
- UM COMETA ESTÁ EM ROTA DE COLISÃO COM NOSSO PLANETA (Assunto extremamente importante).

MAIORES DETALHES
TEL.: 2230.3170 / 9757.4571 - QUEIRÓZ

E foi embora. Não disse ou perguntou mais nada. Não saiu falando sozinho ou sequer tinha o physique du rôle; ou seja, a cara de maluco que eu esperaria. E depois eu é que sou paranóico...


Bom, nós guardamos o folheto e voltamos a curtir a praia. Se você quiser trocar uma idéia com o Queiróz, o código de área é 21.

1.1.06

Bukowski e os blocos de Lego

A vida não é um jogo. Ela está mais próxima de uma caixa de Lego. Um Lego num nível bastante alto, mas ainda um Lego.

Nós recebemos uma caixa de Lego com uma certa quantidade de blocos e peças, quantidade essa definida e, quase sempre, invariável. Evidentemente no nosso caso existem peças mutáveis, defeituosas, tortas e multifuncionais. Bem, como eu disse, é uma caixa de Lego de alto nível.

E um manual, claro. Toda caixa de Lego possui um manual. Um pedaço de papel aparentemente simples, que indica em qual ordem e posição cada uma das peças deve ser colocada, garantindo que ao final da montagem você tenha uma figura pronta. Pode ser realmente simples, dado que o ato de encaixar os blocos e peças não nos obriga a pensar muito, especialmente quando se tem um manual.

Mas pense no que falta a esta caixa de Lego que cada um de nós possui. Falta personalização, ou seja, falta dizer que não precisamos realmente de todas as peças ou que elas não precisam ser encaixadas daquela maneira específica. O modelo colocado no manual normalmente é o mais comum e fácil. Não vá me dizer que nas caixas de Lego reais você nunca se esbaldou procurando outras alternativas de encaixe que, no final, resultaram em figuras muitos mais interessantes.

Falta criatividade e autenticidade: caixas de Lego vêm cheias de armadilhas. Armadilhas que te convencem que seguir o manual é melhor e garante que você tenha algo estável no final da montagem. Armadilhas que bloqueiam sua criatividade e às vezes te deixam pensando que é melhor mesmo montar daquele jeito e não arriscar.

Charles Bukowski contou-me certa vez que o maior prodígio da vida é escapar das armadilhas que esta coloca diante de nós. Estão por toda parte e escapar delas é uma forma bastante pessoal de se atingir objetivos na vida. Objetivos que realmente queiramos e não os que simplesmente aceitamos porque "os blocos só encaixam dessa maneira".

Olhos atentos no seu Lego, portanto. Questione as peças, interrogue os blocos. Encaixe somente quando e onde quiser. Entenda que o manual pode te dar a idéia geral de como a figura final deve se parecer, mas nem de longe deve ser seguido à risca. Fuja das armadilhas. No fim todos teremos nossas figuras montadas, mas você sempre pode escolher entre usar a sua imaginação ou o manual.

See Ya

27.12.05

... e cinco anos da partida

Áurea,

Tudo bem aí onde você está? Espero que sim.

Hoje você faria aniversário. Algo em torno de um século de existência. E logo adiante temos outra data relevante se aproximando: no próximo domingo faz cinco anos que você partiu. O tempo voa, não é mesmo? Tenho vividamente comigo a lembrança da última vez que nos olhamos nos olhos. Eu estava ajoelhado na sua frente, para ficarmos mais ou menos na mesma altura. Abracei sua cintura e pedi sua bênção, como sempre. Naquele momento, no meio das lágrimas suas e minhas que se misturavam, vi que havia algo diferente. Só muito tempo depois fui entender que era uma despedida definitiva. Algo que você, com sua intuição incrível, deve ter sabido desde ali.

Não me surpreende que você tenha morrido no dia 1º de janeiro de 2001. Não combinaria com você uma data qualquer -- tinha que ser o primeiro dia do novo milênio. Você não é nada fraca, não, né? Se bem que houve aí uma certa contradição sua: você vivia dizendo "a mil chegarás, de dois mil não passarás". E você passou, afinal. Como assim? ;-)

Resolvi escrever hoje para compartilhar com você algumas das sensações que venho tendo nesses cinco anos e que, essencialmente por covardia, não tinha conseguido registrar. Desculpe o texto canhestro, falho e brega. Mas é o que consigo neste momento.

Uma das coisas que me diziam lá no começo -- logo após eu escolher seu caixão, segurar sua mão fria durante o todo velório e descer à sua sepultura junto com você -- era que o tempo seria um bálsamo para o meu sofrimento. Mentira deslavada. Fiquei durante uns bons anos acreditando nisso e tentando esquecer. Inútil. Sinto sempre o seu cheiro (que nunca foi "cheiro de velha"). Lembro-me todos os dias dos ditados e frases feitas que você usava à exaustão, e os uso. O gosto da sua ambrosia às vezes emerge dos recônditos do meu paladar. E hoje tenho a certeza de que o que tenho que fazer é reinventar todo dia a força e a serenidade (estranho, não?) de conviver com a dor e o "buraco" da sua ausência.

Para você ter uma idéia do que estou falando, faz algumas semanas eu estava no shopping na correria das compras de Natal. Passei pela vitrine de uma loja e nela vi um DVD do MacGyver (ou "Maigaive", como você dizia). Em uma fração de segundo veio à minha cabeça: "Já sei qual vai ser o presente de Natal da Áurea, ela vai adorar". E imediatamente depois pensei: "Não vai dar. Ela está morta".

De qualquer forma, não amaldiçôo esta dor. Ela só existe com a importância que tem devido ao amor incondicional que um dia nos uniu no mesmo plano e ainda nos une, e que atravessou brigas, gritos, problemas, diferenças, distância, intrigas, seu gênio do cão (e o meu idem) sem nunca arrefecer um milímetro que fosse.

Há algum tempo, não sei se você viu de onde está, sofri um golpe violento de alguém em quem eu confiava. No início, levianamente, achei que a dor se comparava à que senti quando você se foi. Só que a tal pessoa, mau-caráter a toda prova, não vale uma cusparada sua. Então aquela dor foi cedendo, diminuindo, sumindo... até sobrar só uma cicatriz que é incômoda, mas que tem a vantagem de servir de aviso para eu não cometer o mesmo erro novamente. Aliás, esta também (prevenir) era uma função que você exercia com freqüência, lembra?

Diz um filósofo desses contemporâneos que nossa identidade nada mais é do que uma combinação única dos textos/discursos/ações dos outros em nossa vida. Ou seja, que somos feitos da intertextualidade adquirida através dos contatos que estabelecemos durante nossa trajetória. Isso faz sentido para mim. E quero que você saiba que, se for mesmo assim, a parte mais forte da minha identidade é feita de Áurea. Para o bem ou para o mal (como se isso existisse).

É isso, vovó. Tenho saudades de você, mas sei que um dia vamos estar juntos de novo. Sei que, quando você quis desfazer o pacto que tínhamos desde a minha infância -- de que quem fosse primeiro, voltaria para buscar o outro --, foi para me proteger, por amor a mim. Mais uma vez. Mas vai ser muito feliz o dia em que a gente se reencontrar. Espera por mim, tá?

PS: Você vivia dizendo que você seria meu "tipo inesquecível". Pois bem, mais uma vez você foi bem-sucedida...