Instintos
Eles estavam, dois homens, sobre um terceiro. Junto aos três, um orelhão, que impedia que o homem no chão, sob os outros dois, se levantasse. Um outro indíviduo aproximou-se e golpeou o rosto do que estava no chão com seu pesado sapato de couro vagabundo. O que estava no chão berrou. E assim minha atenção foi puxada para a cena.
Do outro lado do orelhão, uma senhora oferecia um copo cheio de uma líquido esbranquiçado, melado, para uma moça que segurava, trêmula, sua carteira, e chorava. O homem do sapato pesado, usando uma jaqueta com uma estrela vermelha nas costas, se afastou do orelhão, e outro, gordo, negro, olhos esbugalhados, com cara de carrasco do regime militar, chegou perto.
"Filho da puta!!", e com seu sapato também chutou o esquálido e estúpido homem sob os outros dois. Os dois, em suas posições de cidadãos corretos e tão estúpidos quanto o ensanguentado ladrãzinho pé-de-chinelo, tinham salvo a moça trêmula de um assalto. E agora eles e os outros dois praticavam um pouco de justiça de rua, deixando a adrenalina varrer seus corpos e mentes. Mentes que já não acreditam mais numa justiça séria e policial, mas que mesmo assim chamaram a polícia. O negão ainda sugeriu "vamos enfiar esse filho da puta num porta-malas e sumir com ele".
O pária, apertado contra o chão, com o braço direito tão torcido que poderia beliscar sua própria nuca, gritava. Entre gemidos e pedidos de socorro, ainda bradava alguns "eu vou te matar, seu arrombado", ou então "eu sou PCC, filho da puta". E tendo medo e sangue sobre a pele ainda cuspia, inexorável e irritantemente alguns "bate, negão!!! quer bater mais? bate mesmo, negão!!!". Levou mais uns dois chutes, de leve, no rosto.
Ao redor muita gente xingava e maldizia o rapaz, sem saber que maldiziam, sim, a situação. Que se o rapaz tivesse sido rápido ou realmente estivesse armado, como alardeara para a vítima, nada disso teria acontecido e os transeuntes, eu incluso, continuariam a ignorar solenemente uma situação que mesmo estando ali, ao alcance dos olhos e dos pés, era ignorada, pois tudo tinha o filtro e a mão dos hormônios e humores e ansejos que sempre vejo aflorar em situações de tensão ou (in)justiça iminente.
Eu mesmo tive ganas de chutar o indivíduo. Teria chutado bem mais forte que o negão. Teria arrancado uns 3 dentes da boca dele e teria ficado muito contente com isso. Contente, não. Vingado. Uma vingança que não pertencia a mim ou a qualquer outro, mas que nossos músculos e reflexos reclamam para si próprios. Tivesse o ladrão ameaçado alguém por quem me importo e talvez eu tivesse perdido o controle e sido realmente vingativo. Mas não o agredi. Eu já contribuia para aquela injustiça ficando ali parado, olhando o sofrimento dele, sem questionar se ele deveria ser tratado com dignidade e entregue à polícia, simplesmente.
Os fardados chegaram e de imediato reconheceram o meliante. E deram ordem para os dois homens sobre ele pisarem mais um pouco. Mais forte. O selvagem sob os dois gritava e pedia por socorro. O socorro havia chegado e junto com ele a ordem de que podiam pisar mais forte. E uma algema. E alguns chutes. E o imbecil gritou "eu sou PCC. eu vou te matar, seu arrombado. é, você mesmo. vai se foder". E no segundo seguinte ele sabia quanto pesava o coturno do PM no estômago vazio dele.
Levantaram o infeliz e este continuou bradando contra o outro policial, que era oriental e até mesmo me fez lembrar de um amigo. O já arrebentado ladrão foi girado pelo franzino PM, e deu com sua vazia e selvagem cabeça contra a lataria da viatura. Mais gritos e brados e vociferações de maldições que não precisarim ser verdade, pois já acontecem todos os dias.
Uma porta bateu e os berros ficaram distantes. Na outra viatura seguia a vítima. Chocada. Na rua fiquei eu. Chocado. Diante dos instintos de tantas e tão diferentes pessoas, eu me senti um pouco vingado, um pouco enojado, um pouco morto e muito indignado. No final, somos todos selvagens descerebrados que conseguem, por poucos momentos, parecerem racionais. Não sei como vocês conseguem acreditar em alma ou em coisas elevadas. É querer se esconder demais da realidade achar que somos guardados por um Deus, ou que temos faculdades mentais evolutivas importantes, que nos separariam de todo o resto.
E enquanto eu estou escrevendo esse texto, sobre um fato real e testemunhado, o rapaz está apanhando num DP qualquer, pra voltar a roubar e matar, mais tarde. Os policiais riem e descontam nele seus instintos e medos. Os transeuntes voltam a seus afazeres tendo uma história pra contar. E a vítima chora por estar nervosa. Alguém digita palavras num computador: eu, ou o polícial que redige o Boletim de Ocorrência. Tanto faz. Nenhum de nós dois sabe realmente sobre o que está escrevendo.
See Ya
Coisas sérias e não sérias. Ácidas e às vezes doces. E outros comentários, como cinema, comportamento, literatura, etc...
30.3.04
25.3.04
Submerso
Um, dois, três, quatro. Ar.
Braço, braço, braço, braço. Boca.
Uma faixa preta mostra o caminho.
Mostra a hora de parar e a hora de voltar.
Contagem. Cálculo. Concentração.
Não pense, não pense, não pense, não pense. Respire.
Contagem. Cálculo. Um a menos. Faixa preta. Fim da linha.
Vinte e uma, vinte e duas. Tantas voltas e tantas idas.
É quase como voltar ao útero.
Um pouco maior, em proporção.
Lá eu não pensava.
Aqui eu engano meu cérebro e me coloco em stand by.
Meus pensamentos são balões.
Ficam na superfície quando eu afundo na água.
Meus pensamentos bóiam. Reviram, se perdem. Dão voltas.
Eu desço e me encontro, no leito das águas.
Mas tudo não passa de matemática.
Meu cérebro cuida de tanta coisa.
Ar. Movimento. Velocidade. Orientação.
Esquece de pensar e me deixa em paz por alguns minutos.
Submerso e absorto.
Sob a água somos todos diferentes.
See Ya
Um, dois, três, quatro. Ar.
Braço, braço, braço, braço. Boca.
Uma faixa preta mostra o caminho.
Mostra a hora de parar e a hora de voltar.
Contagem. Cálculo. Concentração.
Não pense, não pense, não pense, não pense. Respire.
Contagem. Cálculo. Um a menos. Faixa preta. Fim da linha.
Vinte e uma, vinte e duas. Tantas voltas e tantas idas.
É quase como voltar ao útero.
Um pouco maior, em proporção.
Lá eu não pensava.
Aqui eu engano meu cérebro e me coloco em stand by.
Meus pensamentos são balões.
Ficam na superfície quando eu afundo na água.
Meus pensamentos bóiam. Reviram, se perdem. Dão voltas.
Eu desço e me encontro, no leito das águas.
Mas tudo não passa de matemática.
Meu cérebro cuida de tanta coisa.
Ar. Movimento. Velocidade. Orientação.
Esquece de pensar e me deixa em paz por alguns minutos.
Submerso e absorto.
Sob a água somos todos diferentes.
See Ya
24.3.04
Tarefas
Quando o tempo urge, os momentos são escassos e tudo que se pode fazer é amontoar tarefas para que sua vida não saia dos eixos, quem acaba sofrendo é o blog. Por vezes por questões práticas, outras vezes por questões financeiras.
Espero voltar logo a postar. Enquanto isso eu pergunto: algum editor ou milionário (ou os dois) mais afoito estaria afim de me pagar pra eu escrever? Garanto livros, jogos e posts novos. Alguém? Alguém?
É. Eu já sabia. Vocês vão ter de esperar mais um pouco. =)
See Ya
Quando o tempo urge, os momentos são escassos e tudo que se pode fazer é amontoar tarefas para que sua vida não saia dos eixos, quem acaba sofrendo é o blog. Por vezes por questões práticas, outras vezes por questões financeiras.
Espero voltar logo a postar. Enquanto isso eu pergunto: algum editor ou milionário (ou os dois) mais afoito estaria afim de me pagar pra eu escrever? Garanto livros, jogos e posts novos. Alguém? Alguém?
É. Eu já sabia. Vocês vão ter de esperar mais um pouco. =)
See Ya
18.3.04
Por um fotolog menos ordinário
Eu não tenho um fotolog, ou um flog, ou qualquer coisa dessas. Na verdade, minha relação com fotografias foi intensa durante a infância, pois meus pais, especialmente meu pai, tinha como hobbie tirar fotos, e por conta disso há caixas e caixas guardadas repletas de fotos nas casas dos membros da minha família.
Contudo, depois de crescer e deixar de desfrutar de certos momentos familiares, eu desapareci das fotos que andam pelas caixas, estantes e paredes da minha pequena, e pouco honorável, dinastia.
Eu mesmo não tenho o costume de bater fotos ou guardar imagens. Nunca tive vontade de ter uma máquina fotográfica, e mesmo o apelo das novas e quase fictícias câmeras digitais, só servem se com elas eu puder fazer imagens combinadas, planejadas ou incidentais, seja de pessoas ou situações ou objetos, grandes ou pequenos. Mas não tiraria fotos minhas. Tenho medo que a máquina prenda minha alma para sempre naquela caixinha. =)
Por outro lado, tenho um grande e eletroapático amigo, que apesar de ser novo nessa coisa de fotolog, tem se dado muito bem. Mesmo não postando sempre fotos feitas por ele, a escolha das imagens tem um toque pessoal que só ele mesmo consegue passar pra tela. Gosto muito de passar por lá e ver cosias engraçadas, nostálgicas e muito criativas.
Esse post serve para apresentar meu amigo pra vocês. E vou fazer isso com um poeminha, que a maioria não vai entender, pelo menos até que vocês conheçam a peça.
Teacher Marcos é seu "name"
Mas assim ninguém o conhece
É só falar em card game
Que ele logo aparece
De muleta ou bengala,
Sempre dá uma mancadinha
Loirinho e de sorriso largo
O nome dele é Bolinha
E este é o fotolog dele:
http://www.teachermarcos.fotolog.fot.br
Divirtam-se por lá e comentem. Vida longa ao seu fotolog, Bol.
See Ya
Eu não tenho um fotolog, ou um flog, ou qualquer coisa dessas. Na verdade, minha relação com fotografias foi intensa durante a infância, pois meus pais, especialmente meu pai, tinha como hobbie tirar fotos, e por conta disso há caixas e caixas guardadas repletas de fotos nas casas dos membros da minha família.
Contudo, depois de crescer e deixar de desfrutar de certos momentos familiares, eu desapareci das fotos que andam pelas caixas, estantes e paredes da minha pequena, e pouco honorável, dinastia.
Eu mesmo não tenho o costume de bater fotos ou guardar imagens. Nunca tive vontade de ter uma máquina fotográfica, e mesmo o apelo das novas e quase fictícias câmeras digitais, só servem se com elas eu puder fazer imagens combinadas, planejadas ou incidentais, seja de pessoas ou situações ou objetos, grandes ou pequenos. Mas não tiraria fotos minhas. Tenho medo que a máquina prenda minha alma para sempre naquela caixinha. =)
Por outro lado, tenho um grande e eletroapático amigo, que apesar de ser novo nessa coisa de fotolog, tem se dado muito bem. Mesmo não postando sempre fotos feitas por ele, a escolha das imagens tem um toque pessoal que só ele mesmo consegue passar pra tela. Gosto muito de passar por lá e ver cosias engraçadas, nostálgicas e muito criativas.
Esse post serve para apresentar meu amigo pra vocês. E vou fazer isso com um poeminha, que a maioria não vai entender, pelo menos até que vocês conheçam a peça.
Teacher Marcos é seu "name"
Mas assim ninguém o conhece
É só falar em card game
Que ele logo aparece
De muleta ou bengala,
Sempre dá uma mancadinha
Loirinho e de sorriso largo
O nome dele é Bolinha
E este é o fotolog dele:
http://www.teachermarcos.fotolog.fot.br
Divirtam-se por lá e comentem. Vida longa ao seu fotolog, Bol.
See Ya
Organização
Essa semana eu tinha montes de coisas sobre o primeiro ano do Quando Isso pra escrever. Aliás, eu tenho.
Mas essa semana foi doente. Eu adoeci. Não meu corpo, que felizmente continua bem nutrido e com estoque suficiente de vitamina C. Minha mente adoeceu. Se eu acreditasse, diria que meu espírito adoeceu. Coisas aconteceram e me mostraram mais uma vez que essa droga de mundo é um lugar frio e recalcado. Que a ignorância e a mesquinharia dominam tudo e todos e que eu queria mesmo era sumir logo de uma vez ou então comprar uma calibre 12, matar e morrer. Morrer muito feliz.
Enfim, muito obrigado a todos pelos votos de vida longa ao Quando Isso. Sexta passada o blog teve recorde de visitação. Trinta e cinco pessoas. Foi um presente e tanto. Só sinto por não estar com tempo ou pique para retribuir.
Mas também não vou me alongar nesse texto chato e fora de hora. Vou deixar todo esse sentimento ruim fora daqui, e talvez longe de mim. Mas não agora. Agora é hora de erguer a cabeça, ignorar o que aconteceu e me reorganizar. Com isso acabo ficando mais distante, mais triste e frio, e acabo odiando mais as pessoas, eu incluso. Mas tudo bem. Assimilar mais esse soco no queixo da alma leva tempo, uns bons neurônios e uns anos de vida saudável. Mas é melhor do que ficar amargando idiotices e ignorâncias dentro de mim.
Valeu por ouvirem (lerem) o desabafo.
Eu volto logo.
See Ya
Essa semana eu tinha montes de coisas sobre o primeiro ano do Quando Isso pra escrever. Aliás, eu tenho.
Mas essa semana foi doente. Eu adoeci. Não meu corpo, que felizmente continua bem nutrido e com estoque suficiente de vitamina C. Minha mente adoeceu. Se eu acreditasse, diria que meu espírito adoeceu. Coisas aconteceram e me mostraram mais uma vez que essa droga de mundo é um lugar frio e recalcado. Que a ignorância e a mesquinharia dominam tudo e todos e que eu queria mesmo era sumir logo de uma vez ou então comprar uma calibre 12, matar e morrer. Morrer muito feliz.
Enfim, muito obrigado a todos pelos votos de vida longa ao Quando Isso. Sexta passada o blog teve recorde de visitação. Trinta e cinco pessoas. Foi um presente e tanto. Só sinto por não estar com tempo ou pique para retribuir.
Mas também não vou me alongar nesse texto chato e fora de hora. Vou deixar todo esse sentimento ruim fora daqui, e talvez longe de mim. Mas não agora. Agora é hora de erguer a cabeça, ignorar o que aconteceu e me reorganizar. Com isso acabo ficando mais distante, mais triste e frio, e acabo odiando mais as pessoas, eu incluso. Mas tudo bem. Assimilar mais esse soco no queixo da alma leva tempo, uns bons neurônios e uns anos de vida saudável. Mas é melhor do que ficar amargando idiotices e ignorâncias dentro de mim.
Valeu por ouvirem (lerem) o desabafo.
Eu volto logo.
See Ya
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